Rambo: Até o Fim | Crítica

Dois terços novela, um terço gore, 100% clichê: novo filme joga pá de cal na franquia

Daniel John Furuno Publicado por Daniel John Furuno
Rambo: Até o Fim | Crítica

Desde sua estreia nas telonas, o maior inimigo de John Rambo sempre foi o establishment. Em Rambo – Programado para Matar (1982), o veterano da Guerra do Vietnã se via rejeitado pela sociedade, rotulado como “matador de bebês”, e perseguido injustamente pelas autoridades, personificadas na figura do implacável xerife Teasle (Brian Dennehy), para quem o soldado não passava de um vadio encrenqueiro.

Pode-se dizer que na vida real, o sistema e suas engrenagens também assumiram o papel de vilão. Em nome do espetáculo fácil e do desenvolvimento de uma franquia, Hollywood passou a jogar contra o personagem, que ao longo das sequências foi sendo privado de tudo o que o tornava interessante e potencialmente complexo, como a ideia do herói atormentado pelo estresse pós-traumático e pelo sentimento de inadequação. Reduzido à sua faceta mais rasa e enfadonha — a de exército de um homem só —, ele só não foi transformado em um protagonista genérico graças ao carisma de Sylvester Stallone.

Rambo IV (2008) ao menos se assumia como galhofa, com seu enredo quase inexistente servindo apenas de pretexto para o inevitável festival de tiros, explosões e mortes sangrentas. Pois o novo longa-metragem abandona essa autoconsciência para aventurar-se na pretensiosa missão de criar uma narrativa emocional que justificasse o retorno do personagem principal à ação — e nisso, falha miseravelmente. Rambo: Até o Fim gasta seus dois primeiros atos em um dramalhão previsível e pouco envolvente.

Assinado por Matthew Cirulnick, em parceria com Stallone, o roteiro mostra o veterano instalado no rancho de seus falecidos pais, em uma cidadezinha no Arizona, onde vive na companhia das duas últimas pessoas que considera parte da família: a empregada Maria (Adriana Barraza) e sua neta, Gabrielle (Yvette Monreal), uma jovem às vésperas de partir para a faculdade. O caminho deles acaba cruzando com o de uma perigosa quadrilha mexicana, o que tira Rambo de sua nova rotina e o obriga a sair em mais uma missão.

Fora os clichês e soluções preguiçosas (caso do prólogo desconexo, sem qualquer impacto relevante nos eventos posteriores, e cuja única serventia aparente é introduzir o passado problemático do protagonista às novas audiências), o grande defeito do filme é que nenhum dos personagens funciona. As ações de Gabrielle, por exemplo, movimentam a trama no início e têm uma motivação à primeira vista compreensível, mas que, devido à falta de aprofundamento, acaba se confundindo com teimosia adolescente. Além disso, a relação dela com o herói é construída artificialmente, por meio de diálogos expositivos, o que enfraquece consideravelmente o arco principal.

Embora o roteiro se esforce na tentativa de diferenciar os irmãos Victor (Óscar Jaenada) e Hugo Martínez (Sergio Peris-Mencheta), os líderes do cartel se revelam superficiais a ponto de se tornarem intercambiáveis — e a aversão que provocam no espectador decorre mais da empatia pelas vítimas de seus crimes que do apropriado desenvolvimento dos vilões. Já a jornalista Carmen (Paz Vega) surge para executar duas funções pontuais e sai de cena sem agregar mais nada. Por fim, Jezel (Fenessa Pineda), a amiga de Gabrielle, responsável por um papel-chave no enredo, é um estereótipo ambulante, com falas quase tão constrangedoras quanto as pérolas do clássico trash The Room (2003).

Em grande parte discreta, a direção de Adrian Grunberg é regular. No terceiro ato, onde se concentram as sequências de ação, o cineasta abraça com competência a violência gore, trazida à série pelo longa anterior, filmando headshots, desmembramentos e eviscerações em detalhes, sem pudor. Essa estética deve agradar os fãs e compensá-los pela narrativa arrastada nos dois terços iniciais; todavia, ao ser adotada também no derradeiro confronto com o antagonista, ela acaba resultando em uma cena acidentalmente cômica, em virtude do contraste com a pieguice do discurso de Rambo.

Um detalhe merece atenção. Exceto pela primeira iteração, a franquia sempre se pautou por temas geopolíticos contemporâneos, como a questão dos prisioneiros de guerra na segunda película, as tensões da Guerra Fria em Rambo III (1988) e a crise em Myanmar no filme de 2008. Não passa despercebido, portanto, que em plena América de Donald Trump, o roteiro do novo longa tenha escolhido justamente mexicanos como inimigos, retratando-os como criminosos, traficantes, estupradores, “very bad people”. E aqui entra o tal detalhe: na sequência em que os membros do cartel se infiltram facilmente nos Estados Unidos usando passagens subterrâneas, o diretor Grunberg, em um arroubo de personalidade, insere uma sarcástica tomada de um trecho do muro na fronteira — a infame solução proposta pelo presidente norte-americano para o problema da imigração ilegal. Touché.

Rambo: Até o Fim teve uma trajetória atribulada, cheia de idas e voltas, com Stallone desistindo no meio do caminho, os produtores atirando para todos os lados, considerando desde um prequel até uma incursão pela ficção científica (!), e o escritor David Morrell, autor do romance First Blood e criador do personagem, sendo alijado do processo criativo. Sinal de que não há nenhuma outra visão além mercadológica por trás da franquia. Ou seja, já passou da hora de John Rambo se aposentar — o establishment venceu.