Os bastidores da PerifaCon: “Sempre vamos construir pontes, e nunca muros”

Um papo com Andreza Delgado, uma das produtoras do evento, sobre o legado da primeira edição

Cesar Gaglioni Publicado por Cesar Gaglioni
Os bastidores da PerifaCon: “Sempre vamos construir pontes, e nunca muros”

A PerifaCon chegou na agenda cultural de São Paulo se apresentando como a Comic Con da favela. A primeira edição do evento aconteceu em 24 de março, no bairro do Capão Redondo, e superou as expectativas de público: a organização estimava de 2 a 3 mil pessoas, porém, 4 mil compareceram.

A organização é composta por pessoas que moram na periferia da capital paulista. De maioria negra, eles criaram o evento como uma forma de democratizar o acesso à cultura nerd e geek — o evento foi gratuito para o público.

Dentre os convidados da primeira edição estavam LOAD, uma das principais vozes sobre quadrinhos no YouTube; Marcelo D’Salete, quadrinista vencedor do prêmio Eisner pela HQ Cumbe; Ivan Reis, desenhista de Aquaman na fase Novos 52 e Rafael Calça, roteirista da aclamada Graphic MSP, Jeremias: Pele.

Os temas das mesas de debate foram os mais variados, abraçando tópicos que foram desde a produção de podcasts até a representatividade negra nas HQs, tudo isso acontecendo ao mesmo tempo que concursos de cosplay, shows e exibição de séries e curtas-metragens.

Por telefone, conversamos com Andreza Delgado, uma das produtoras do evento, que contou um pouco da origem da PerifaCon, o impacto do evento e os planos para o futuro.

equipe perifacon
Da esquerda pra direita: Mateus Ramos, Matheus Pollito, Luize Tavares, Igor Nogueira, Andreza Delgado, Gabriely Oliveira, Pedro Okuyama. Foto: Renato Souza

Como surgiu a ideia da PerifaCon?

A ideia da PerifaCon nasceu através de discussões do nosso grupo sobre acesso à cultura nerd e geek, o quanto a gente queria que todo mundo pudesse colar em eventos como a CCXP e o AnimeFriends. A gente queria muito que rolasse algo assim no nosso bairro, pros nossos amigos.

A expectativa era de 3 mil pessoas, e 4 mil pessoas acabaram indo para o evento. Como foi para a organização ver tanta gente a mais?

A gente estava esperando de 2 a 3 mil pessoas, nós fizemos um formulário de inscrição na internet antes do evento, e tínhamos já 2 mil pessoas cadastradas. A gente dizia “Nossa, que bacana, vai vir uma galera”.

Nós tivemos a ideia e planejamos o evento em três meses, então estávamos animados com esse tanto de gente. Quando vimos 4 mil pessoas, foi um baque. O espaço teve superlotação duas vezes. A gente ficou bem feliz, é claro, mas também foi uma frustração. Uma frustração boa, a gente planeja o evento de um jeito, e aí teve hora que tinha gente que não estava conseguindo entrar. Fico feliz e triste ao mesmo tempo.

Como foi feita a curadoria dos convidados e das atividades do evento?

Foi um processo muito legal. Quando surgiu a ideia da PerifaCon, seria uma feira de quadrinhos e duas mesas de debate. Tínhamos dois nomes que a gente queria muito que colassem no evento, e que tinham muito a ver com essa coisa da cultura periférica e da democratização da cultura nerd, o LOAD e o Marcelo D’Salete. Eram as duas certezas.

E depois disso a gente fez um formulário na internet de pessoas que tinham atividades que queriam oferecer na PerifaCon, e começou a aparecer gente se oferecendo para ajudar.

Tivemos muitos parceiros, a Companhia das Letras montou a mesa deles e vendeu livros por um preço muito abaixo do mercado, e levaram o Gabriel Bá para fazer sessão de autógrafos, isso foi uma coisa que entrou na nossa grade e que não estávamos esperando. Foi uma coisa que veio de fora e ofereceram para a gente.

O Chiaroscuro Studios também levou muita gente, e não cobrou nada, além de ser nosso patrocinador. Foi uma coisa bem legal.

Qual o legado da primeira edição da PerifaCon?

Com certeza foi evidenciar que existe uma demanda para essa democratização. No momento em que divulgamos que teríamos a PerifaCon, a gente provou que esse era um caminho certo e sem volta.

Com esse tanto de gente que apareceu no evento, e até aqueles que não conseguiram entrar, fica o legado de visibilidade. Prova que a gente precisa de eventos que possam abraçar todo mundo. Ser nerd também é isso. São tantas histórias, tantos enredos que falam sobre inclusão e superação, e a PerifaCon foi isso também.

A gente sempre fala que a PerifaCon é uma ponte. Sempre vamos construir pontes, e nunca muros. A gente quer trazer inclusão. A gente quer que o nosso evento entre para o calendário da cidade, que a gente trate de questões que nunca foram evidenciadas, como encontrar formas de apoiar essas pessoas periféricas que estão produzindo conteúdo nerd. Por que não levar essas pessoas para a programação de uma CCXP, saca?

A gente quer ver as pessoas daqui circulando lá, e as pessoas de lá circulando aqui. Esse é o legado, inclusão e visibilidade.

E quais são os planos para o futuro da PerifaCon?

Abrimos um financiamento coletivo recorrente, para que a gente possa estruturar uma equipe e encontrar uma sala de trabalho. A gente pensou e produziu a PerifaCon em três meses, e foi muito f*da!

A gente trabalhou muito de madrugada, nesse processo algumas pessoas perderam o emprego, porque era uma escolha entre terminar a PerifaCon e resolver outras coisas da vida, então estamos muito afim de continuar tocando isso, e levar a PerifaCon para frente.

Então queremos estruturar a equipe e pensar em como tocar o evento do ano que vem!


Arte da vitrine: João S. Junior

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