O Predador: A Caçada | Crítica

Novo filme de Predador se destaca com história que se desgarra dos clichês da franquia de ação

Pedro Siqueira Publicado por Pedro Siqueira
O Predador: A Caçada | Crítica

Há duas maneiras de encarar O Predador: A Caçada, que chega ao catálogo do Star+ em 5 de agosto. O filme pode ser analisado, pragmaticamente, como parte da franquia icônica iniciada nos anos 1980, que possui quatro longas e até dois crossovers malucos com o monstro espacial se engalfinhando com o Alien (da outra série de filmes de mesmo nome).

Por outro lado, pode-se também tentar o exercício mental de considerar o longa como uma história isolada sobre o amadurecimento de uma jovem indígena, com o pequeno detalhe que existe uma máquina de matar vinda do espaço, que a persegue a torto e a direito.

Tal distinção parece até estimulada, já que o título original do filme dispensa o nome da franquia, adotando apenas Prey (Presa, em tradução livre), e as artes promocionais investem mais nos protagonistas humanos do que no bicho. Curiosamente, tal mentalidade funciona, já que A Caçada é um dos melhores filmes de Predador justamente por não ser um filme de Predador.

O prelúdio acompanha a personagem Naru (Amber Midthunder), membro do grupo originário Comanche, nos EUA dos anos 1700. Mesmo sendo uma guerreira e caçadora habilidosa, a personagem precisa constantemente se provar até para a própria família, que desdenha das habilidades da heroína. Ao mesmo tempo, o monstro espacial desembarca na Terra mais uma vez (na verdade, pela primeira vez, nesse caso) para flexionar os músculos na caçada dos aparentemente indefesos seres humanos.

Nem se preocupe com possíveis spoilers ao longo do texto, já que o roteiro é basicamente este. Gato e rato entre monstro e humana, costurado por uma trama de autodescoberta que, honestamente, nem sai muito do lugar. Não espere também grandes aprofundamentos na mitologia da franquia ou coisas que se esperariam de um prelúdio tradicional.

Em teoria, tudo citado acima poderia resultar em uma produção medíocre e genérica. O diferencial em O Predador: A Caçada é a direção eficiente de Dan Trachtenberg. Conhecido de Rua Cloverfield, 10 e Black Mirror (mais especificamente, do episódio Playtest), o cineasta prova que sabe trabalhar bem com o clima de tensão, transmitindo a sensação de claustrofobia até em sequências na mata aberta.

Os elogios se estendem também à bela fotografia de Jeff Cutter, apostando muitas fichas na iluminação natural das locações, mostrando que a equipe fez o dever de casa e assistiu O Regresso (2015) antes das gravações. A semelhança com o épico de sobrevivência estrelado por Leonardo DiCaprio é tanta que, em determinada cena (e você saberá exatamente qual, se assistir), é capaz de o espectador coçar a cabeça pensando se não misturaram trechos dos filmes por engano.

O contexto histórico contribui para tornar a ação mais brutal. Em vez das metralhadoras, fuzis, granadas e músculos explodindo para fora das camisetas, como foi mostrado nos anos 1980, Naru enfrenta a fera com pedras, machadinhas e arco e flecha. Além, claro, da inteligência.

Amber Midthunder faz o melhor que pode com o roteiro que, embora nunca dê a Naru a dimensão que a personagem merece, pelo menos convence pela dor e motivação da personagem. E acreditem, a coitada sofre. Seja correndo, pulando, caindo e até chafurdando na lama.

Os fãs mais puristas podem torcer o nariz por A Caçada não trazer, essencialmente, nenhum dos elementos que se tornaram clássicos na franquia, nem mesmo o humor involuntário (não espere ouvir um “GET TO THE CHOPPA!”). Mas é justamente esse frescor de uma nova história que merece elogios, especialmente após continuações esquecíveis como O Predador (2018).

Embora tenha pulado o lançamento nos cinemas (o que é uma pena, considerando que toda a fotografia do longa realmente se beneficiaria da telona), O Predador: A Caçada pode despertar o interesse de novos fãs, divertindo com uma história de ação de 1 horinha e meia (por mais filmes curtos, por favor!) que, embora teoricamente explore o passado, preza justamente por cortar as ligações com o pretérito para tentar construir um futuro.

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