Ni no Kuni II: Revenant Kingdom | Review

Mesmo sem Ghibli, LEVEL-5 entrega uma obra-prima nesta continuação

Jeff Kayo Publicado por Jeff Kayo
Ni no Kuni II: Revenant Kingdom | Review

Chegando forte depois de um pequeno adiamento no seu lançamento, Ni no Kuni II: Revenant Kingdom finalmente dá as caras no PlayStation 4 e PC. E logo na sua primeira semana precisa encarar um desafio daqueles: provar que a saída do Studio Ghibli de nada impactou no seu desenvolvimento.

Nessa discussão vale ressaltar que tanto o ex-diretor do Ghibli, Yoshiyuki Momose (que trabalhou na direção de animação do jogo anterior), e Joe Hisashi, compositor de praticamente todas as obras do estúdio japonês, assinam o projeto da LEVEL-5 ao lado de Akihiko Hino, escritor do primeiro game. Então, já sabe que, da minha parte, nada mudou e o jogo continua incrível.

A nova trama se passa muitos anos depois do que aconteceu em Ni no Kuni: Wrath of the White Witch, e praticamente não há uma forte ligação entre as tramas. Claro que jogadores das antigas vão reconhecer alguns personagens que darão as caras na aventura, mas nada que desvirtua os novatos.

Rei Evan

O rei Evan Pettiwhisker é destituído de seu trono através de um golpe de estado arquitetado por um dos ministros do reino, e, com ajuda de Roland, um viajante misterioso, precisa fugir e pensar em como dar a volta por cima. A ideia deles é a construção de um novo reino para governar, algo que una todo o mundo em um só lugar: Evermore.

Aqui, nós já encontramos os dois principais personagens da trama, Evan e Roland. De um lado uma criança que pouco conhece do mundo, mas tem um senso de justiça muito forte, e do outro um adulto que já viu mais do que queria e não sabe bem onde está ou como se comportar nesse novo universo (ele é de outra realidade). A dualidade de situações demora a influenciar pesadamente na trama, mas é uma evolução prazerosa de se acompanhar.

O ritmo da história no que diz respeito ao drama de Evan sendo destituído do seu trono parece meio rápido, sem entrosar o jogador aos vilões daquele momento, mas é também necessário entender que uma hora tudo isso será pincelado com mais afinco, então dê tempo ao tempo. O melhor ainda está por vir, mas é melhor que todos descubram por conta própria os mistérios de Ni no Kuni.

Ni no Kuni II: Revenant Kingdom se apresenta num formato um pouco diferente do seu antecessor. Agora os combates acontecem em tempo real, mais parecidos com os jogos da série Tales of. Há quem desgoste do estilo, mas a ideia é facilitar um pouco a jogabilidade para os mais novos, ao mesmo tempo que tenta em entregar algo mais emocionante aos jogadores.

As lutas são todas muito rápidas e acontecem em duas instâncias: no mapa mundi, com a clássica transição entre exploração e batalha dos JRPGs tradicionais, e durante as dungeons, onde vasculhar cantos e enfrentar inimigos se dão no mesmo terreno, sem interrupções. Dungeons, inclusive, um tanto lineares, mas com pequenos detalhes escondidos que forçam o jogador a experimentá-las mais uma vez, com o decorrer da aventura e a evolução dos seus poderes.

A sua equipe de batalhas pode ser montada com até três integrantes por vez. Com exceção do personagem controlado pelo jogador, cada um deles ataca e se defende por conta própria, mesmo que de forma quase sempre pouco eficiente, principalmente contra inimigos mais poderosos, aqueles que requerem mais estratégia.

No geral, a dificuldade do jogo não é um problema, mesmo contra os chefes da campanha principal. Mas alguns desafios paralelos têm um pico de dificuldade bastante alto para os padrões do jogo, e vão exigir muito mais do jogador para cuidar da sua equipe na hora do duelo.

Higgledies

Como mecânica própria do game, temos também os Higgledies, pequenos seres mágicos que proporcionam uma ajudinha muito bem-vinda na hora do combate. Essas criaturas são encontradas na natureza ou podem ser produzidas artificialmente, desde que você tenha os materiais necessários — demora cerca de umas 10 h até que todos os itens colhidos durante as batalhas e andanças pelo mundo façam sentido dentro do jogo, não desista deles.

O mundo de Ni no Kuni

Difícil não se embasbacar com o visual surpreendente de Ni no Kuni II: Revenant Kingdom. Logo de cara, já somos apresentados ao reino de Goldpaw, um tipo de Las Vegas dentro do mundo mágico do jogo. Neons espalhados pelas construções da cidade, que misturam um pouco da arquitetura oriental com a fantasia daquele reino, é tudo tão bonito que fica difícil acreditarmos que dá para melhorar. Só que aí visitamos uma cidade no meio do oceano e nosso queixo cai mais uma vez. E segue a vida.

Não só as cidades, como os NPCs de todas as regiões do jogo, as diversas raças que dividem o espaço, seja como amigo ou inimigo. Aliás, os inimigos de área são todos muito bem detalhados e animados, do ratinho silvestre aos grandes dragões, mantícoras e orcs que vão tentar derrotá-lo.

A trilha sonora composta por Joe Hisaishi continua magnânima. Dá aquele tempero nas cenas dramáticas ou de ação, sempre acertando em cheio o ponto das lágrimas. O compositor, para quem não conhece, é muito famoso no mundo da animação, responsável pelas trilhas de Meu Amigo Totoro, Ponyo – Uma Amizade que Veio do Mar, Castelo Animado, Porco Rosso, Mononoke Hime e tantos outros filmes do estúdio Ghibli. Com certeza você já ouviu alguma coisa dele por aí.

Jogo dentro do jogo

Em Ni no Kuni II: Revenant Kingdom é preciso, além de enfrentar os desafios de um JRPG normal, gerir um reino por completo. Imagine uma versão anime de SimCity, onde o jogador precisa construir lojas, departamentos de pesquisa, fazendas, casas de ferreiro, padarias e quaisquer outras edificações de uma cidade de RPG tradicional. Isso é Evermore, o novo reino de Evan.

Além de cuidar da construção, é preciso designar os habitantes do lugar para trabalhos específicos. Cada um deles possui uma aptidão especial que precisa ser verificada antes para o melhor aproveitamento de cada um deles. Com a mão-de-obra local é possível expandir seu reino com pesquisas de desenvolvimento e upgrades no seu castelo e demais estabelecimentos, sempre cuidando para que os seus recursos naturais e o seu dinheiro não acabem.

Todo esse minigame (não é tão mini assim) de construção de reino serve também para incentivar a busca por missões paralelas. São elas que vão garantir o sucesso de Evermore, já que sempre que uma missão dessas é realizada, automaticamente ganha-se um novo morador, e um novo trabalhador. Sem escravidão nem nada, mesmo não existindo nenhum botão para pagar salário aos trabalhadores.

Outro minigame de Ni no Kuni II: Revenant Kingdom são as guerras entre exércitos. Batalhas épicas em que precisamos controlar exércitos de milhares de soldados em busca da conquista de novas terras para o crescimento de Evermore. Ok, isso é só o imaginário do jogo quando explica a razão desses confrontos, mas na realidade as coisas são mais pé no chão.

As batalhas entre exércitos lembram um pouco o conceito básico de um MOBA, o de guiar seus soldadinhos em batalhas contra outros soldadinhos. O direcionamento do seu exército, o avanço ou recuo do mesmo dá-se pela vontade do jogador. Novos pelotões são adquiridos com o decorrer da história e a evolução de Evermore (existe um acampamento no seu reino dedicado ao aprimoramento das suas habilidades no campo de batalha). De início se começa com apenas dois pelotões: arqueiros e guerreiros de espada em punho, e é preciso se virar com isso. Ataques especiais gastam seus pontos de batalha, e o time que zerar primeiro perde. Com o decorrer da campanha principal as coisas ficam bastante tensas (e divertidas) nos combates entre exércitos. Sem dúvida vale a pena investir um tempo nisso.

Ni no Kuni II: Revenant Kingdom guarda boas surpresas ao jogador. O jeitão fácil do seu começo serve como isca aos não iniciados no universo mágico e viciante dos JRPGs. Uma história bonitinha, mas que aos poucos vai se complicando, ganhando nuances e um clima mais pesado que talvez você não esperasse encontrar. Vai ser difícil largar ou escolher outro RPG japonês esse ano.

Mais notícias