Missão: Impossível – Efeito Fallout | Crítica

Tom Cruise e o diretor/roteirista Christopher McQuarrie entregam o melhor filme da franquia

Daniel John Furuno Publicado por Daniel John Furuno
Missão: Impossível - Efeito Fallout | Crítica

Algumas franquias cinematográficas têm um conjunto de características que constroem sua identidade — e as mais longevas geralmente conseguem trazer algum frescor a cada novo capítulo sem comprometer essa essência. O primeiro Missão: Impossível, lançado em 1996 e dirigido por Brian De Palma, já tinha boa parte do DNA que viria a definir os filmes seguintes. Estavam lá o protagonista Ethan Hunt (Tom Cruise), o enredo misturando elementos de thriller de espionagem e filme de assalto, com traições, reviravoltas e engodos, e até mesmo as cenas perigosas filmadas com o próprio ator principal, sem uso de dublês. Além, é claro, das referências à série de televisão homônima, criada por Bruce Geller nos anos 1960 e que serviu de base para a adaptação: o célebre tema musical de Lalo Schifrin, a abertura com trechos do episódio e o briefing da missão, com a mensagem que se autodestrói após cinco segundos.

Em Missão: Impossível 2 (2000), a clara tentativa de priorizar a ação em detrimento da trama (quase inexistente) resultou no longa-metragem mais fraco da série — e analisando em retrospecto, até mesmo seu único atrativo, o estilo peculiar do cineasta chinês John Woo, parece datado e fora de sintonia com as demais iterações. Foi a partir de Missão: Impossível 3 (2006) que a franquia começou a alcançar o equilíbrio entre ritmo (mais acelerado que o primeiro) e história (mais elaborada que o anterior). De quebra, a estreia de J.J. Abrams como diretor nas telonas introduziu dois personagens secundários importantes, Julia (Michelle Monaghan) e Benji (Simon Pegg) — este firmou-se como segundo coadjuvante mais frequente, perdendo apenas para Luther (Ving Rhames), o único que aparece em todos os filmes juntamente com Ethan.

Após o bem executado Protocolo Fantasma (2011), comandado por Brad Bird, a série ganhou um toque bastante interessante com a chegada de Christopher McQuarrie. Como roteirista, ele espertamente aproveitou a menção ao Sindicato no final da película anterior para desenvolver o enredo de Nação Secreta (2015), que trouxe Ethan, Luther e Benji perseguindo essa organização terrorista, chefiada por Solomon Lane (Sean Harris), e, ao mesmo tempo, lidando com o risco de dissolução da IMF, em consequência dos eventos de Protocolo Fantasma — isso criou um até então inédito senso de continuidade entre os dois filmes. E como diretor, ele conseguiu criar sequências de ação de encher os olhos e cenas de luta brutais, com destaque para as protagonizadas pela badass Ilsa Faust (Rebecca Ferguson).

Assim, o retorno de McQuarrie como responsável por roteiro e direção em Efeito Fallout é mais do que bem-vindo. Ele novamente aposta na continuidade, desta vez de forma mais radical, já que partes do enredo do novo longa são diretamente ligadas ao do anterior. Graças a uma missão fracassada, o time precisa recuperar uma carga de plutônio, o que faz com que o caminho de Ethan volte a cruzar com o de Lane — mesmo atrás das grades, o líder do Sindicato ainda oferece perigo. Em paralelo, a falha coloca a IMF sob escrutínio da CIA; desse modo, o protagonista se vê obrigado a colaborar com o agente Walker (Henry Cavill, ostentando o famigerado bigode que quase derrotou o Superman em Liga da Justiça).

O script costura com muita habilidade as duas tramas. Talvez o único ponto fraco seja a justificativa para a volta de Ilsa, porém, isso acaba passando batido em virtude da força que ela exibe na tela. E além dessas conexões com Nação Secreta, McQuarrie retoma outras ideias anteriores, explorando as reviravoltas que marcaram o primeiro e o terceiro filmes, bem como a noção de lealdade aos membros da equipe, vista no terceiro e no quarto, e a proteção aos entes amados, como no segundo e no quarto. Isso não apenas cria unidade temática na série como também ajuda a reforçar a personalidade do protagonista. E por falar em entes amados, o trailer de Efeito Fallout pode ter até entregado o ressurgimento de Julia, ex-esposa de Ethan, mas o que importa realmente é a maneira como isso acontece.

A repetição ainda fortalece as relações entre personagens, uma vez que torna o entrosamento entre a equipe mais orgânico, faz com que a mera menção ao nome de Lane evoque uma ameaça e dá peso a um papel menor como o de Hunley (Alec Baldwin), antes diretor da CIA, agora secretário da IMF. Todavia, nem tudo se resume a rostos familiares na franquia: os novatos também mostram seu valor, especialmente Walker e a Viúva Branca (Vanessa Kirby), apesar da brevidade de sua participação.

O talento de McQuarrie fica evidente também na direção. O cineasta tira máximo proveito do comprometimento de Tom Cruise e de sua disposição em executar as próprias stunts — que ficam ainda mais impressionantes ao lembrar que o ator tem 56 anos (!!) —, colocando o espectador dentro das frenéticas sequências de ação. Destaque para a chegada em Paris (de tirar o fôlego em mais de um sentido), as perseguições na Cidade Luz e todo o terceiro ato, que leva ao extremo o conceito de salvação no último segundo.

Coeso e empolgante, Efeito Fallout é o melhor capítulo da série até aqui e mostra que Missão: Impossível continua com tanto fôlego para continuar correndo quanto seu astro principal.