Lost in Random | Review

Lost in Random é uma fábula gótica, em que o gameplay é regido pela aleatoriedade de um rolar de dados

Tayná Garcia Publicado por Tayná Garcia
Lost in Random | Review

Brincando com a ideia de sorte e azar, Lost in Random é um jogo indie que narra uma fábula gótica, em que a história e o gameplay são regidos pela aleatoriedade de um rolar de dados.

O jogo se passa em Random, um universo governado por uma poderosa Rainha que, usando um dado mágico, decide o futuro das cidades e de seus habitantes. Tudo o que importa é o número sorteado, ignorando os desejos e as ambições das pessoas, que acabam se tornando meras marionetes.

A protagonista é Even, uma garotinha que viu sua irmã, Odd, ser levada pela Rainha após ter seu destino decidido por um número sorteado. Ela, então, decide partir para o resgate ao encontrar um outro dado mágico de seis faces, passando por aventuras inusitadas pelas seis cidades de Random: Onecroft, Two-town, Threedom, Fourburg, Fivetropolis e Sixtopia.

A quantidade de cidades ser a mesma quantidade de faces desse dado mágico não é mera coincidência. Assim como muita coisa no universo de Lost in Random.

Dicey é o dado mágico que acompanha Even em sua jornada e, apesar de não falarem a mesma língua, conversam sobre pontos importantes da história

Um dado para todos governar

O mundo de Lost in Random é uma distopia que adota uma estética gótica para construir uma atmosfera sombria, com criaturas de aparência bizarra, muitos personagens com olheiras e cenários escuros e sujos. É um visual que lembra filmes em stop-motion, como O Estranho Mundo de Jack (1993), A Noiva Cadáver (2005) e Coraline e o Mundo Secreto (2009), contando com uma paleta de cores frias que, às vezes, é quebrada momentaneamente por tons mais fortes.

Mas esse aspecto sombrio não aparece no tom da história. Há diálogos e momentos descontraídos, além de personagens estranhamente divertidos, que arrancam muitas risadas inesperadas.

A trama ainda é acompanhada de uma trilha sonora que compartilha de seu toque mais animado, com efeitos sonoros divertidos, lembrando jogos antigos de plataforma 3D como Banjo-Kazooie.

Há personagens e criaturas peculiares espalhados por todas as cidades de Random

Apesar de ter um grande foco em narrativa, contando com um narrador e quantidades razoáveis de texto para ler, Lost in Random tem um combate com mecânicas engenhosas, que gera um gameplay que brinca com a aleatoriedade.

De forma geral, a movimentação é pesada e pouco fluida, tornando até o simples ato de correr em algo truncado. Mas não estraga totalmente o controle da personagem, só exige um esforço extra do jogador em se adaptar (o que poderia ter sido evitado).

Mas o jogo realmente brilha com as batalhas, que misturam combate em tempo real e um sistema de cartas regido por Dicey, o dado companheiro de Even.

Primeiro, o jogador precisa coletar cristais o suficiente para “carregar” a magia de Dicey, para então rolá-lo e gerar um número, que será usado para ativar as cartas. Elas podem ser de diferentes categorias, como Weapon para gerar arcos, martelos e espadas; Defense, para cura e escudos; e outros.

É preciso montar previamente um deck com 15 cartas específicas que serão sorteadas, então existe bastante liberdade em escolher seu próprio estilo de batalhar.

É importante combinar os efeitos das cartas depois de rolar o dado: o tempo desacelera para deixar o jogador pensar em estratégias

As lutas ainda podem envolver pequenas partidas de jogos de tabuleiro, em que o número sorteado de Dicey fará com que uma peça se mova para chegar ao objetivo final.

Não há árvore de habilidades ou poderes a serem desbloqueados, passando longe da fórmula de “retórica do poder”, em que o objetivo é se tornar mais forte. Em Lost in Random, o combate é decidido pela sorte (ou azar) do número sorteado por Dicey e das cartas que podem (ou não) aparecer para serem usadas.

A aleatoriedade na jogabilidade, no entanto, é uma faca de dois gumes. A mistura de mecânicas torna as batalhas longas e demoradas, principalmente se o jogador estiver com azar no dia — e acredite: não é nada legal estar prestes a matar um chefão e Dicey rolar o número um várias vezes seguidas, impedindo de usar qualquer carta.

É um elemento que, mesmo sendo proposital, pode tirar um pouco a paciência e torna os confrontos cansativos.

Mannie Dex é um lojista que vende cartas de todos os tipos e em todos os cantos de Random

As cidades de Lost in Random são bem peculiares, cada uma apresenta elementos diferentes que correspondem a um lado de um dado.

Two-Town, por exemplo, é povoada por gêmeos, personagens com dupla personalidade e até “duas caras”. Enquanto Threedom já conta com trigêmeos e a terceira linhagem de uma família real. E por aí vai. Mas a exploração é bem limitada, com muitos NPCs repetidos e missões secundárias curtas que dão recompensas que podem ser facilmente encontradas ou compradas, não oferecendo muito incentivo ao jogador.

Alguns bugs também podem atrapalhar na hora de explorar Random. Há glitches visuais em quests, paredes invisíveis no meio de ruas e botão do menu que não funciona às vezes — o que possivelmente deve ser arrumado após o lançamento.

Perdida na aleatoriedade

Lost in Random é uma experiência única, que brinca com a ideia de ter sorte ou azar no gameplay, mas mostra que acaso e destino não são tão imutáveis assim com a história de uma garota que, contra todas as probabilidades, parte em busca da irmã.

A jornada de Even realmente coloca o jogador para pensar, a atuação de vozes é excêntrica na medida certa e os diálogos são bem escritos, contando com momentos de trocadilhos, rimas e até poesias. No entanto, não há opção em português brasileiro, nem mesmo para as legendas, ficando limitado ao inglês.

O universo de Random é melancólico e perigoso, oferecendo momentos épicos, descontraídos, surpreendentes e assustadores. E olha… Bem que eu gostaria de ficar perdida mais um pouco nesse universo.


Lost in Random está disponível para PlayStation 4, PlayStation 5, Xbox One, Xbox Series X|S, Nintendo Switch e PC. Este review foi feito com uma cópia cedida pela Electronic Arts.

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