No final da temporada, protagonistas de Fundação refletem sobre suas origens

O destino chocante de um dos clones e uma revelação não tão surpreendente são os destaques do episódio

Daniel John Furuno Publicado por Daniel John Furuno
No final da temporada, protagonistas de Fundação refletem sobre suas origens

Escrito e dirigido por David S. Goyer, um dos criadores da série, O salto encerra a primeira temporada de Fundação mantendo o conceito de unidade temática e amarrando sua narrativa com um assunto bastante apropriado: o acerto de contas com o passado.

[Atenção: o texto abaixo traz spoilers do episódio final de Fundação]

Em Trantor, os três clones contemplam, cada qual à sua maneira, suas trajetórias individuais em meio à longa linhagem. Diante da obrigação de decidir acerca do destino de Alvorada (Cassian Bilton) após a revelação de que ele é geneticamente diferente, Dia (Lee Pace) tem uma série de confrontações.

Primeiro, com o próprio irmão mais novo, que pondera como suas vidas são parte de um roteiro escrito há séculos e que eles são “apenas ecos do primeiro Cleon” – uma fala que evoca as pregações da falecida Zéfira Halima (T’Nia Miller), conexão que não passa despercebida pelo imperador. Ainda assim, a cópia adulta fica visivelmente abalada pelo questionamento do jovem: “Você nunca se sentiu sufocado pelo peso de nossa ascendência?”

Em seguida, Dia faz um longo monólogo a Azura (Amy Tyger), no qual, de certo modo, acaba respondendo à pergunta do irmão – ele conta que sua antiga aspiração de ser melhor do que os antecessores foi substituída pelo desejo de ser rigorosamente idêntico, “previsível”. O vislumbre de humanidade no tirano, porém, logo dá lugar à crueldade habitual, quando informa à jovem que, além de ser mantida prisioneira, isolada do mundo exterior, ela terá sua existência apagada, com o extermínio de todas as pessoas que já tiveram contato com ela.

Por fim, o imperador tem uma dura discussão com Crepúsculo (Terrence Mann) na sala do trono, motivada por sua inesperada decisão de poupar o caçula – inflexível, o velho exige a execução da “aberração” e defende que “a história se curva” a eles. Enquanto os dois chegam às vias de fato, Alvorada busca conforto nos braços de Demerzel (Laura Birn), que inicialmente o acolhe. Na cena mais chocante de toda a temporada, todavia, a androide quebra o pescoço do jovem, reafirmando sua lealdade ao Império.

Vale notar que a violenta resolução é prenunciada de modo sutil minutos antes, quando, prestes a adentrar a sala, Demerzel coloca a mão nas costas de Alvorada: uma alusão ao terceiro episódio, quando a robô fez o mesmo gesto com Escuridão (Terrence Mann) minutos antes da desintegração do ancião, apoiando-o e, ao mesmo tempo, impelindo-o rumo à morte.

Ainda abalado, Dia é informado por seu chefe de segurança de que a atuação dos insurgentes foi mais bem-sucedida do que o antecipado: eles conseguiram sabotar o processo de reprodução genética, fazendo com que, a partir de algum momento, todos os clones (inclusive ele) passassem a apresentar diferenças em relação à fonte. Em um surto de ira, o imperador investe contra o corpo preservado do Cleon original.

Em Terminus, a versão holográfica de Hari Seldon (Jared Harris), recém-saída do Cofre, traz uma informação importante. A Primeira Traição, lendário episódio por trás da histórica desavença entre anacreonianos e téspinos (o assassinato da caçadora anacreoniana pelo rei téspino na noite de núpcias deles) foi, na verdade, uma farsa arquitetada por Cleon II, o primeiro clone, a fim de acabar com a perigosa aliança.

Apoiado nesse fato, o matemático exorta os dois povos a deixar para trás as rixas do passado e unir forças, entre si e com a Fundação, para derrubar a Dinastia Genética. Para isso, sugere que eles usem a Invictus como fonte de uma onda de energia, com o objetivo de fazer o Império pensar que se trata de uma explosão solar, fatal para todo o sistema planetário. Com isso, ganharão tempo para construir uma frota e, assim, fazer frente ao poderio militar do adversário.

O discurso surte efeito: um pacto entre as nações do Espaço Exterior é firmado, com Hugo (Daniel MacPherson) alçado à posição de capitão da Invictus. Enquanto isso, Salvor Hardin (Leah Harvey) começa a questionar seu papel naquele plano, já que Hari não a reconhece e afirma não ter sido responsável pelas visões que a guardiã teve. Até que sua mãe enfim revela: receosos dos riscos de uma gravidez natural a bordo da nave que os trouxe ao planeta, ela e o marido optaram por usar o banco de sementes para uma fertilização in vitro. Sem grande surpresa, os pais biológicos da guardiã são, portanto, Gaal Dornick (Lou Llobell) e Raych Foss (Alfred Enoch).

A descoberta anima Salvor, pois elucida quem são as duas crianças que ela enxerga (as versões jovens de seus pais) e oferece uma explicação sobre seus estranhos poderes. Assim, ela decide se conectar com as origens e partir em busca de Gaal, que pressente ainda estar viva em algum lugar.

A narrativa faz, então, mais um salto temporal, avançando 138 anos no futuro, quando Gaal finalmente retorna às raízes e chega a Synax. Remando pelas águas que cobrem seu planeta natal, a garota ruma para a vila onde nasceu e morou, agora abandonada e em ruínas. No entanto, uma luz no fundo do oceano chama sua atenção. Ela mergulha e encontra uma embarcação submersa, com um módulo criogênico ativo, do qual tira uma pessoa.

Trata-se de Salvor, que foi obrigada a fazer um pouso forçado ali, mais de um século antes. Ao perceber que foi Gaal que a salvou, a guardiã revela que é sua filha e entrega para ela o Primeiro Radiante, o dispositivo contendo todos os cálculos e previsões feitos por Hari.

Ao longo da primeira temporada, Fundação tratou a obra de Isaac Asimov não como material a ser adaptado com fidelidade, mas como inspiração para desenvolver uma história mais focada em elementos originais. Embora tenha tocado o tema geral dos livros – a visão fatalista do avanço da civilização –, a série priorizou muito mais o drama do que a reflexão. Uma decisão que faz algum sentido, considerando-se como opera a indústria do entretenimento, mas que, no fim das contas, acaba desperdiçando o potencial da fonte.

Mesmo assim, a trama foi bem planejada e executada, com visual interessante e bom elenco (ainda que a direção de atores tenha, em alguns momentos, pecado pela ênfase no melodrama). Com a renovação confirmada pela Apple TV+, resta aguardar o que vem por aí na segunda temporada. O enredo possivelmente deve explorar os aspectos mais metafísicos da Segunda Fundação, personificados nas figuras de Gaal e Salvor, bem como na derrocada do Império, com a crise institucional da Dinastia Genética.


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