Everything Sucks! – Primeira Temporada | Crítica

Mesmo tendo medo de se arriscar, série da Netflix traz personagens cativantes

Cesar Gaglioni Publicado por Cesar Gaglioni
Everything Sucks! - Primeira Temporada | Crítica

Crescer não é algo fácil e Everything Sucks!, nova série da Netflix, consegue retratar muito bem as dores e delícias da adolescência, apesar de não se aprofundar em algumas delas. É uma série leve e simples de se assistir.

A trama gira em torno de Luke (Jahi Di’Allo Winston), um garoto tímido que decide produzir um filme amador de ficção científica ao lado de seus amigos do Clube de Vídeo da escola — algo que é somente um pretexto para explorar situações típicas da adolescência: paixões platônicas, a descoberta da sexualidade, a falta de autoconfiança, bullies e a insegurança constante.

Por ser ambientada nos anos 90, poderia facilmente surfar na onda recente da nostalgia na cultura pop e se tornar um festival de referências e easter eggs gratuitos. Porém, os roteiros de Ben York Jones e Michael Mohan usam a cultura e a tecnologia da época como pano de fundo para explorar os personagens e as situações nas quais eles se encontram — um bom exemplo está no segundo episódio, que gira em torno de Luke filmar a sua própria versão do clipe de “Wonderwall”, do Oasis, para impressionar Kate (Peyton Kennedy), a garota por quem ele está apaixonado. Everything Sucks! também acerta ao retratar a descoberta da homossexualidade e da bissexualidade durante a adolescência de uma forma orgânica e singela, sem limitar as personagens a essas características e sem transformar tudo em um grande espetáculo — mérito completo dos roteiristas e das atrizes.

Apesar dos acertos, a série é prejudicada em alguns momentos por explorar demais tramas paralelas, como o romance da mãe de Luke, e esquecer de aprofundar seus protagonistas. McQuaid (Rio Mangini), um dos personagens centrais do programa, só ganha espaço para ser desenvolvido na reta final da temporada e sua transformação acaba soando artificial. Tyler (Quinn Liebling) está ali só para ser o alívio cômico do grupo e não passa por nenhum tipo de mudança — fica a impressão de que ele estava lá só para “cumprir tabela”. O mesmo acontece com Oliver (Elijah Stevenson), que foi retratado como o grande antagonista da trama, mas que no fim das contas era apenas um recurso narrativo para o arco de Emaline (Sydney Sweeney).

A comédia também erra ao não saber com qual público-alvo quer dialogar: por vezes, a série quer atingir os jovens adultos que já passaram por tudo aquilo. Em outros momentos, os adolescentes que estão no meio desse processo louco de crescer. E em outros as crianças que ainda não chegaram de fato na adolescência, mas que sonham com esse momento da vida. Essa variedade de linguagens faz com que Everything Sucks! não tenha uma identidade própria muito bem definida, algo que pode ser facilmente corrigido se os showrunners e a Netflix definirem um rumo para o projeto.

A trilha sonora é um espetáculo por si só. Os produtores acertaram em cheio ao investir em hits da época. Além da já citada “Wonderwall”, a série se aproveita de outras clássicas como “Don’t Look Back in Anger”, também do Oasis; “Breakfast At Tiffany’s”, do Deep Blue Something e “Take It Like A Man”, do The Offspring. Além de servirem como ponto narrativo para a trama em si, as músicas também refletem o estado de espírito do personagem que está escutando elas, algo que dá ao espectador uma melhor noção de quem eles são.

Mesmo tendo vários problemas narrativos, assistir Everything Sucks! é uma experiência doce e gostosa, que tem potencial para se tornar algo realmente especial, mas que, tal qual seus protagonistas, precisa amadurecer.