Era Uma Vez em… Hollywood | Crítica

Tarantino celebra o cinema e o zeitgeist de 1969 em seu filme mais pessoal

Daniel John Furuno Publicado por Daniel John Furuno
Era Uma Vez em… Hollywood | Crítica

Os títulos escolhidos por Quentin Tarantino costumam revelar parte do conceito de seus longa-metragens, seja sugerindo determinada estética, seja fazendo referência explícita a outras obras. Pulp Fiction (1994), por exemplo, é homônimo de um tipo de literatura popular na primeira metade do século 20, que consistia em publicações destinadas às massas, explorando temas apelativos, como crime, mistério, sexo e violência, e que era considerado por críticos como sendo de qualidade artística inferior. Bastardos Inglórios (2009) e Django Livre (2012), por sua vez, apontam diretamente para películas representativas dos gêneros que homenageiam e subvertem — respectivamente, o obscuro drama de guerra O Expresso Blindado da S.S. Nazista (1978), que em inglês se chama justamente The Inglorious Bastards, e o clássico do spaghetti western Django (1966).

Embora não seja um filme de caubói, Era Uma Vez em… Hollywood apresenta elementos suficientes para justificar a similaridade do título com o de outro western cultuado, Era Uma Vez no Oeste. A obra-prima do italiano Sergio Leone, que certamente figura entre as principais influências de Tarantino, foi lançada em dezembro de 1968, poucos meses antes do período que o cineasta norte-americano retrata no novo trabalho — aliás, uma época que considera definitiva em sua formação. Em entrevista à revista Esquire, ele ressalta a subjetividade da empreitada, traçando um paralelo com o mais recente longa do mexicano Alfonso Cuarón, notório pelo teor autobiográfico. “Alfonso teve Roma e a Cidade do México, 1970. Eu tive Los Angeles e 1969”, observa.

De fato, o viés nostálgico se faz notar em cada quadro de Era Uma Vez em… Hollywood, desde a excelente direção de arte até a trilha sonora, estilosa como sempre, mesclando hits como Mrs. Robinson, de Simon & Garfunkel, e lados B como Son of a Lovin’ Man, do trio Buchanan Brothers. Ao esforço em retratar o zeitgeist, soma-se o olhar reverente do diretor, que filma as ruas, letreiros, marcos e até mesmo os subúrbios da L.A. de então com o mesmo esmero com que enquadra os pés de Margot Robbie e Margaret Qualley.

Em se tratando de Tarantino, no entanto, o foco é obviamente a própria Sétima Arte. O roteiro, assinado pelo cineasta, coloca a dupla de protagonistas fictícios ao lado de um desfile de personagens históricos. Veterano da televisão, alçado à fama pela participação em uma extinta série de faroeste, o ator Rick Dalton (Leonardo DiCaprio) tenta, com o apoio do dublê e amigo Cliff Booth (Brad Pitt), se manter relevante em uma indústria em transformação. Apesar de ser vizinho do casal mais “hypado” da cidade — o diretor Roman Polanski (Rafal Zawierucha), bem cotado devido ao sucesso de O Bebê de Rosemary, e a estrela emergente Sharon Tate (Margot Robbie) —, Dalton percebe que, com sua carreira em declínio, ele não poderia estar mais distante da nova realeza de Hollywood.

Ainda que a abordagem seja, em certa medida, mais romântica do que o habitual para os padrões do cineasta, isso não dilui a narrativa. Por exemplo, as sequências que mostram as filmagens do novo seriado para o qual o astro decadente é convidado têm um claro tom de celebração à indústria do entretenimento. Todavia, além de renderem alguns dos momentos mais divertidos do longa — em especial, o surto no trailer e as interações com a precoce atriz-mirim Trudi (Julia Butters) —, elas também são essenciais para o arco dramático de Dalton.

De maneira similar, a relação do ator com o manipulador agente Marvin Schwarzs (Al Pacino) sugere o lado menos encantador dos bastidores do cinema. Ao mesmo tempo, serve como ponte para Tarantino oferecer uma breve aula sobre o spaghetti western, discorrendo rapidamente sobre produção, estética e o fato de que esse tipo de filme rodado na Itália, barato e bastante rentável, era menosprezado pela elite, tal qual a literatura pulp. Há até referência a um realizador real: Sergio Corbucci, de Django, descrito por Schwarzs como “o segundo melhor diretor” do gênero — embora ele não mencione, o primeiro dessa lista seguramente é Sergio Leone.

O que nos leva de volta a Era Uma Vez no Oeste. Mais do que o título, a principal conexão entre os dois longas é o tema central. O faroeste italiano era sobre homens de outra época, forçados a encarar sua própria obsolescência em meio a um momento de transição (representado pela expansão da ferrovia e, consequentemente, do progresso). Dalton e Booth, por sua vez, são membros da velha guarda do cinema diante de uma nova realidade, dominada por outros rostos e nomes, outros tipos de filmes, outros modos de fazê-los e até outras relações — a dinâmica de camaradagem entre um astro e seu dublê (inspirada em exemplos reais, como a amizade entre Burt Reynolds e Hal Needham) já não tem mais lugar em Hollywood. Enquanto o ator luta contra isso, o stunt double aparentemente aceita a situação.

Mas assim como acontece na película de Leone, Era Uma Vez em… Hollywood não promove a demonização do novo — basta ver que Sharon Tate, que personifica esse aspecto, é apresentada como uma figura empática. Se existe um “vilão”, é o evento traumático que representa o abrupto fim daquela era: o brutal assassinato da atriz, cometido por discípulos de Charles Manson (Damon Herriman). Essa ameaça é insinuada desde os primeiros minutos, cresce com o decorrer do longa — em uma das poucas sequências de suspense, relacionada aos seguidores do culto bizarro — e culmina no terceiro ato, que gira em torno do crime. Sobre a conclusão, tudo o que se pode dizer é que ela é sangrenta e capaz de provocar reações viscerais.

Mesmo tocando em um tópico tão sombrio, Tarantino consegue entregar uma positiva ode àquela que enxerga como sua época de ouro particular. E depois de declarar repetidamente que pretende se aposentar em breve, é significativo que, além de parceiros frequentes, como Kurt Russell, Bruce Dern e Michael Madsen, ele também tenha escalado para o filme jovens atrizes que, curiosamente, são filhas de atores/diretores famosos — como Maya Hawke (Uma Thurman e Ethan Hawke), Margaret Qualley (Andie MacDowell) e Harley Quinn Smith (Kevin Smith) —, em uma espécie de aceno simbólico para a nova geração. O cineasta, ao que parece, está em paz com o passado e o futuro.