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Cowboy Bebop – 1ª Temporada | Crítica

Série da Netflix se esforça para fazer jus ao anime clássico e se sai bem, mas escorrega pelo caminho

Gabriel Avila Publicado por Gabriel Avila
Cowboy Bebop - 1ª Temporada | Crítica

“A obra, que se tornará um novo gênero em si, será chamada de… Cowboy Bebop é uma frase que pode ser lida em quase todos os episódios do anime original. O que pode parecer arrogância à primeira vista acaba, essa descrição se confirma e sintetiza a experiência dos excelentes 26 episódios da produção original (e seu filme). Em 2021, essa frase ganha tons sinistros ao encapsular o principal temor dos fãs em relação à série live-action da Netflix. Nova aposta do streaming, a produção claramente se esforça para honrar o título de Cowboy Bebop e até consegue, mas não sem cometer tropeços pelo caminho.

A nova produção acompanha o cotidiano dos caçadores de recompensa Spike Spiegel (John Cho), Jet Black (Mustafa Shakir) e Faye Valentine (Daniella Pineda) em um futuro cyberpunk cheio de perigos e aventuras. Nesse cenário, uma curiosa mistura do sonho de um amanhã tecnologicamente avançado com a nostalgia retirada de cinema antigo, o trio luta para ganhar a vida enquanto lida com questões do passado, que envolvem família, máfia e até a própria identidade.

O anúncio de um live-action de anime sempre é acompanhado por muita ansiedade e receio, especialmente pela forma como Hollywood costuma tratar esse tipo de produção. Para o sossego dos fãs da animação de 1998, é justo dizer que o Cowboy Bebop da Netflix não é nenhuma tragédia. Pelo contrário, a produção transpira reverência e respeito pela obra do mestre Shinichiro Watanabe sempre que possível dentro das limitações que as diferentes mídias impõem.

Buscando trazer no live-action a mesma experiência encontrada na animação, o time capitaneado pelo showrunner André Nemec (Missão: Impossível – Protocolo Fantasma) e o roteirista e desenvolvedor Christopher Yost (The Mandalorian) tomou a acertada decisão de não se ater a minúcias e dar caminhos próprios para a história, o que é tanto o ponto alto quanto o baixo da série.

Enquanto o original se tratava de contos fechados que funcionavam sozinhos ao mesmo tempo em que construíam um arco maior, a série da Netflix expande seu escopo e foca em uma história única que usa cada detalhe para enriquecer a experiência como um todo. Nesse caminho, o roteiro ousa ao trazer elementos completamente novos ao mesmo tempo em que explora lacunas deixadas propositalmente no anime.

Dessa forma ele cria versões próprias de Spike, Jet, Faye e outros personagens tomando o máximo de cuidado para não descaracterizá-los. Assim são desenvolvidas personalidades e dinâmicas que se encaixam em uma história longa e unificada e ao mesmo tempo não danifica a imagem que os fãs antigos têm deles.

O Spike de John Cho mantém o charme cafajeste que esconde as cicatrizes do passado, assim como Jet mantém a retidão de um homem que acredita em levar suas convicções tão à sério quanto as amizades. A dupla funciona muito bem por si só e leva poucos minutos para convencer como parceiros de longa data. O entrosamento fica ainda melhor com a chegada da Faye de Daniella Pineda, que traz uma boa dose de caos com seu jeito desbocado e arrogante que esconde ternura com camadas de dureza.

Infelizmente essa repaginada não funciona com todos os personagens. Sem entrar em grandes detalhes, mas o Vicious de Alex Hassell propõe a maior ruptura em relação ao material original. Ainda que cada obra deva ser julgada por seus próprios méritos, é difícil não enxergar nele um problema, já que essa nova versão se torna batida ao optar por um descontrole destrutivo muito comum em outras figuras malignas no cinema e na TV.

Já os que realmente funcionam são beneficiados pelas situações inéditas ou reformuladas que a adaptação traz. Mesmo que algumas modificações que parecem fazer pouco sentido à primeira vista, em sua maioria elas servem à grande trama e fazem sentido na linguagem de um streaming como a Netflix, que disponibiliza uma temporada inteira de uma só vez.

O problema verdadeiro está nos vários momentos em que o roteiro perde a mão e falha em encaixar os eventos de maneira orgânica. Essa questão pode ser observada nas barrigas que a história cria apenas para homenagear cenas clássicas do anime. Ainda que as tentativas tenham boa intenção, elas parecem jogadas e acabam atrapalhando o ritmo da produção.

Outro grande problema deste Cowboy Bebop está na indefinição de seu tom. Enquanto a animação era fluida e equilibrava muito bem diferentes humores, que iam desde o pastelão sarcástico até uma forte melancolia, a série parece nunca mergulhar de verdade em nenhum deles.

Há vários momentos em que o roteiro investe em situações propositalmente bregas e até canastronas que não funcionam, apenas para se proteger de um olhar mais sério do público. É quase como se houvesse um medo constante de virar piada perante o espectador e ao menor sinal desse perigo, escolhe-se forçar a piada como quem diz “ria comigo, e não de mim”. Não à toa essa sensação praticamente desaparece quando o humor se torna mais sombrio e menos convidativo a piadinhas.

Por mais equilibrada que seja essa balança, no fim o saldo é positivo porque Cowboy Bebop conta com uma parte técnica de dar inveja a muitas adaptações de animes por aí. O design de produção demonstra um enorme capricho ao dar vida a um universo que encapsula cenários que misturam ficção científica, faroeste, filme noir e investigação policial.

Ainda que os efeitos visuais por vezes destoem de forma negativa, na maior parte do tempo os cenários são elegantes e vistosos. Esse mundo parece realmente vivo e não é raro se pegar prestando atenção em detalhes ou acontecimentos periféricos ao foco nos protagonistas. O mesmo pode ser dito dos figurinos e até da ação, que na maior parte do tempo se destaca e promove espetáculos que podem ser desfrutados sem grande esforço e realçam as coreografias da luta.

A série ainda joga sujo ao trazer de volta a compositora Yoko Kanno, responsável pela icônica trilha sonora do anime. Além de reutilizar canções antigas, a musicista aqui ganha mais espaço ao produzir composições para episódios mais longos. Assim, ela tem a chance de não só executar mais um trabalho excelente, como ainda homenagear grandes compositores da história dos cinemas — não à toa por vezes a série parece quase esticar certos momentos apenas para não interromper a música que os embala.

No fim de dez episódios, o saldo é positivo. Apesar de não trazer o quase inalcançável grau de excelência da obra original, o Cowboy Bebop da Netflix é esforçado e apaixonado o suficiente para entreter e conquistar os espectadores. Com todos os problemas, a série tem potencial para seguir em frente se sustentando com as próprias qualidades, um feito e tanto para um projeto envolto em tanta desconfiança.


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