Com ritmo diferente de outros FPS, Valorant é a nova aposta da Riot Games

Jogamos cerca de sete horas do novo título da Riot Games

Priscila Ganiko Publicado por Priscila Ganiko
Com ritmo diferente de outros FPS, Valorant é a nova aposta da Riot Games

Valorant é o nome oficial do Project A, jogo de tiro tático da Riot Games, apresentado durante as comemorações de 10 anos de League of Legends em 2019.

Valorant é um jogo de tiro em primeira pessoa, gratuito, em que dois times de cinco jogadores se enfrentam. O time de ataque tem como objetivo plantar uma bomba, e o time de defesa precisa impedir a equipe adversária.

Em um primeiro momento, é fácil apontar o dedo para as semelhanças que o título tem com outros jogos do gênero: o esquema de plantar bombas ou impedir o outro time de fazê-lo parece derivado de Counter-Strike, enquanto o fato de que é um jogo baseado em personagens com habilidades únicas o aproxima de Overwatch. Mas, após jogar algumas horas de Valorant, posso garantir que o game não é tão parecido nem com um, nem com outro.

Viajei para Los Angeles e fui até a sede da Riot Games para testar o game, além de bater um papo com as pessoas responsáveis pela criação do jogo. No primeiro dia, recebi uma enxurrada de informações. Diretores, produtores, artistas e até mesmo técnicos de rede apresentaram coisas em que estiveram trabalhando nos últimos anos (três, no mínimo) para que Valorant saísse da fase de projeto e se tornasse uma realidade. Assim como no vídeo de revelação do projeto, os desenvolvedores mostraram que estão comprometidos em entregar um jogo competitivo e moderno, que dê aos jogadores uma experiência desafiadora. E, entre explicações complicadas sobre servidores e discussões mais descontraídas e filosóficas, uma expressão me chamou a atenção pela quantidade de vezes em que foi repetida: “alta letalidade”.

Gameplay

Em alguns jogos de tiro focados em personagens, a habilidade do jogador em usar as habilidades do herói no momento mais oportuno é o que faz a diferença, mas esse não é o caso em Valorant. Alta letalidade significa que todo tiro tem grande impacto e, se bem dado, pode abater inimigos rapidamente. São necessários poucos acertos para derrubar alguém, ainda mais se acertar em pontos chave, como a cabeça. Ao tomar um tiro, o personagem fica mais lento e, muitas vezes, isso faz com que seja impossível fugir. Estratégia e precaução são vitais, pois um movimento impensado pode custar sua vida.

Mas não adiantaria nada abater os personagens de forma rápida se eles ficassem apenas voltando indefinidamente, portanto cada morte é permanente até o início do próximo round — uma mecânica já bastante conhecida para o público dos shooters táticos. Ficar vivo também é vantajoso para manter armas e não precisar comprá-las novamente na próxima rodada: ao ser abatido, o personagem perde sua arma principal. A cada round, uma quantia de dinheiro é distribuída entre os jogadores de acordo com o cumprimento de objetivos, como plantar a bomba, e economizar em alguns rounds pode ser essencial para virar o jogo. O dinheiro é ainda mais valioso em Valorant do que em outros títulos, pois algumas habilidades de personagem são limitadas por uso ao invés de estarem sempre disponíveis. Por exemplo, para usar o drone de reconhecimento de Sova, agente russo com um kit voltado para conseguir informações sobre os inimigos, é necessário adquiri-lo no início do round durante a fase de compra.

Sova, agente que representa a Rússia, tem kit voltado para reconhecimento de campo

Pequenas nuances como essa da compra fazem com que o jogador precise se preocupar com muitas variáveis. Usar uma habilidade de forma efetiva dá uma grande vantagem para toda a equipe, enquanto o uso errado pode acabar sendo só um desperdício de dinheiro no fim do round. Cada um dos oito agentes que testamos possui uma habilidade ilimitada e um ultimate, além de duas habilidades disponíveis para compra.

Em nosso teste, exploramos dois mapas que estarão disponíveis no lançamento. Em um deles, chamado de Haven, os times precisavam atacar e/ou defender três pontos diferentes ao mesmo tempo. Foi necessário encontrar lugares estratégicos no mapa para que fosse possível ficar de olho em duas passagens, por exemplo. No outro, Bind, os jogadores podiam se deslocar mais rapidamente usando dois teleportes próximos aos pontos A e B, mas com um detalhe: eles só funcionavam para um lado, dando um caminho só de ida para os agentes, que precisariam dar uma volta imensa caso quisessem voltar para o local de onde vieram, perdendo um tempo precioso.

A impaciência é a maior inimiga dos jogadores em Valorant. Deslocar-se de um ponto a outro pode ser um processo extremamente lento, ainda mais se você não quiser dar informações para o outro time, uma vez que o som de passos pode denunciar a aproximação de alguém. O ritmo do jogo não é nada acelerado, e isso pode causar estranhamento para jogadores que vierem de títulos como Fortnite. Alguns personagens podem tornar o processo de adaptação mais fácil, como é o caso de Jett, personagem que representa a Coreia do Sul, cujas habilidades são focadas em deslocamento e velocidade.

As habilidades de Jett são voltadas para mobilidade

Um dos grandes desafios do jogo foi balancear os poderes dos personagens com a letalidade das armas, e, mesmo como iniciante, consegui sentir que há um ponto de equilíbrio entre as duas partes. É possível jogar apenas com as armas, mas você só vai conseguir chegar até certo ponto se não aprender a usar as habilidades corretamente, ainda que elas sejam em sua maioria não-letais. Trevor Romlesk, um dos chefes de design, afirmou que os desenvolvedores tinham isso em mente o tempo todo enquanto estavam fazendo o game: “Tínhamos um foco em fidelidade de combate e profundidade de maestria”, contou.

Elementos como movimento do personagem, recuo das armas e estabilidade são algumas das variáveis que interferem na construção da maestria do jogador, exigindo mais de cada um e tornando a curva de aprendizado inicial meio assustadora para quem não está tão acostumado com o gênero.

Como alguém que não está tão acostumada com o gênero de tiro tático, ainda que tenha investido boas horas em outros títulos, senti bastante a diferença entre Valorant e os outros, principalmente no ritmo. Saí altamente frustrada do escritório da Riot após as minhas primeiras partidas. Mas a frustração não foi de todo ruim — ela acabou me motivando a ser mais paciente e cuidadosa no dia seguinte, a pensar melhor nas estratégias do jogo e me comunicar melhor com os colegas de time.

O ritmo do jogo é lento, mas isso é o que torna os momentos de clutch muito mais intensos. Conseguir desarmar a bomba no último instante, eliminar o último oponente após uma emboscada bem sucedida ou invadir uma área protegida por dois inimigos compõe momentos que aceleram o pulso e fazem cada vitória ser mais recompensadora. Planejar estratégias e vê-las dando certo era extremamente satisfatório, e cada round vencido era muito comemorado. A tensão estava lá desde o começo, ainda que a qualidade do gameplay não estivesse nos níveis mais altos — na minha segunda partida, conseguimos virar o jogo nos últimos quatro ou cinco rounds, e a adrenalina era quase comparável a uma final de campeonato.

Com jogos acirrados, habilidades capazes de controlar o mapa e virar o jogo rapidamente, Valorant parece ser uma boa resposta da Riot Games para movimentar o mercado de jogos FPS. O título parece promissor tanto para os jogadores, que não devem sofrer com problemas de servidor e cheaters (leia mais sobre isso aqui), quanto para quem quer assistir a partidas tensas e que podem mudar de rumo em um instante.

Personagens

Ao contrário da abordagem utilizada no começo de League of Legends, que inseria novos campeões no jogo quinzenalmente, Valorant aposta em um elenco de poucos personagens — ao menos por enquanto.

Os agentes que estavam disponíveis para testes possuem habilidades e especializações diferentes, voltadas para funções diversas como infiltração nos pontos de objetivo ou obtenção de informações. Romlesk explicou que os personagens iniciais estão divididos em quatro grandes categorias: controle de território, fortificação, batedor e “invasão”.

Como o nome já diz, agentes de controle de território são capazes de restringir a visão que os inimigos tem do mapa, diminuindo a quantidade de informação que são capazes de conseguir e controlando por onde vão passar, num geral. Os personagens de fortificação são os que conseguem proteger uma área, mantendo o controle mesmo quando os atacantes chegam em grupo.

Os batedores são os que conseguem informação para a equipe, dando um norte para a criação de planos e estratégias. Os “invasores” — personagens de breaching, em inglês — possuem habilidades para ajudar o time a entrar em um local defendido pelos oponentes.

Muitas das habilidades dos personagens são não-letais, e por vezes focam muito mais em visão, controle de mapa e outros aspectos vitais para um shooter tático. Sova possui um drone e uma flecha que revela a posição dos inimigos, caso haja algum perto de onde você atirou, e seu ultimate é um raio laser capaz de atravessar paredes. Cypher, outro agente, consegue colocar armadilhas em portas e superfícies diversas para que os inimigos atravessem e sejam revelados. Seu ultimate revela a posição de todos do time oponente, mas deve ser usado no corpo de um inimigo morto.

O ultimate do misterioso Cypher, de Marrocos, recolhe informações diretamente do corpo do inimigo

A construção dos personagens vai muito além de seu kit de poderes. O mundo de Valorant é derivado do nosso, portanto, há uma certa homenagem e inspiração diretas à países e regiões da Terra.

John Goscicki, chefe de personagens, contou que a equipe levou em consideração as principais características de cada agente na hora de colocá-los como representantes de seus respectivos países, por vezes optando por referências mais discretas e menos estereotipadas:

Estamos pegando coisas do planeta e das culturas que estão ali, quais são as outras coisas que podemos fazer daquele país que seja unicamente deles e que sejam coisas como maquiagem, ou penteado, ou alguma gíria que você usaria.

Quanto a termos um personagem brasileiro, Goscicki disse que adoraria, mas não garantiu nada: “América Latina, América do Sul, Brasil são regiões muito grandes e proeminentes, não apenas para jogos mas também culturalmente e globalmente. Eu adoraria celebrar isso”, afirmou.

O estilo da arte pende para um lado mais cartunesco e caricato, e isso foi decidido no último ano e meio de desenvolvimento. Os efeitos mais simples e texturas mais lisas permitem que o jogo rode bem em computadores com especificações técnicas bastante datadas — ponto positivo contra outros títulos que exigem uma máquina mais potente.

Mapas e competitivo

Bind, mapa com teleportes e sem “mid”

Uma das estratégias de Valorant é apostar em uma quantidade baixa de mapas bem construídos para que os jogadores possam explorá-los e aprender tudo sobre eles, tornando-se especialistas em cada um. Salvatore Garozzo, responsável pela criação desses mapas, não é um novato nesse sentido: anteriormente conhecido como Volcano, ele é o criador de Cache, de Counter-Strike. Ele ressaltou que os ambientes foram pensados para que os personagens se destaquem neles:

Os jogadores precisam lutar contra o inimigo, e não contra o mapa.

Outra preocupação da equipe foi tornar o visual agradável para não cansar o jogador, já que ele vai ter que passar muito tempo ali naquele cenário enquanto estiver jogando — os desenvolvedores estimam milhares de horas. “Queremos que cada mapa tenha um objetivo diferente de design, o que significa que cada mapa precisa ter um motivo forte para existir”, Garozzo completou, reforçando a ideia de que será necessário um grande investimento de tempo para descobrir tudo o que os ambientes têm a oferecer.

Além de serem diferentes em seu formato, que consiste de corredores, bombsites e outros cantinhos para se esconder, cada um dos mapas possui uma mecânica singular ou característica geográfica que o diferencia dos demais, como o terceiro objetivo de Haven que citei anteriormente.

O B-Site de Haven, mapa que conta com inspirações asiáticas na arquitetura

O balanceamento desses mapas é essencial, ainda mais se pensarmos que estão sendo construídos tanto para o jogador mais casual quanto para os aspirantes e profissionais. A ideia é que todos os mapas possam entrar no competitivo de Valorant, que ainda existe apenas como um esboço.

Anna Donlon e Joe Ziegler, os principais porta-vozes do título, comentaram que o cenário competitivo “definitivamente vai acontecer”, mas não compartilharam nenhum plano. “Queremos que os jogadores [de Valorant] se sintam poderosos, fortes e espertos. Queremos que eles sintam que podem ser profissionais um dia”, disse Donlon.

Quem está pensando em jogar Valorant mais tranquilamente, sem ter que investir milhares de horas para melhorar seu gameplay ou se preocupar com estratégias o tempo todo, vai ter que esperar mais um pouco: o jogo terá apenas um modo PvP disponível em seu lançamento. “Sabemos que vai haver um desejo por outros modos. Achamos que esse desejo virá de uma necessidade de apenas relaxar um pouco, ou de trazer amigos que talvez não estejam prontos para o jogo, ou para aprender novas habilidades de um jeito menos estressante”, contou Donlon, afirmando que modos alternativos serão implementados futuramente, pois, no momento, o foco está todo em polir o máximo possível o gameplay principal.

História

A história de Valorant começa aqui na Terra, em um futuro não muito distante. Um grande evento mundial chamado de First Light acontece no planeta, e, depois dele, algumas pessoas se tornam mais “sensíveis”, podendo usar alguns poderes que, a princípio, parecem pequenos, mas que podem ser desenvolvidos para algo maior.

Essas pessoas recebem o nome de “Radiants” — iluminados, em tradução livre — e por um tempo tudo parece estar bem, sem maiores acontecimentos.

Mas esse despertar também mexeu com outras forças e começou a causar anomalias sob a superfície da Terra. No começo, ninguém dá muita bola para esses acontecimentos estranhos, mas há uma ameaça real por trás de tudo isso, e é aí que Valorant é formada.

Valorant é uma organização que reúne agentes do mundo todo em segredo, juntando tanto Radiants quanto soldados especiais equipados com aparelhos tecnológicos. Os recrutas possuem todo tipo de background: enquanto alguns tiveram carreiras militares, outros vieram de um passado criminal.

O que vemos no jogo é depois de tudo isso. Os agentes de Valorant estão lutando contra a ameaça, que apareceu na superfície e está colocando em perigo toda a vida na Terra.

Desse ponto em diante, a história de Valorant será contada dentro do próprio jogo, afirmou David Nottingham, o responsável pela IP e também pelo lore da nova franquia. A ideia, segundo ele, é desenrolar os acontecimentos do game juntamente com os jogadores, mas não deu mais detalhes de como isso seria feito.

Os porta-vozes Donlon e Ziegler, porém, falaram um pouco de como isso pode acontecer:

Temos maneiras legais, com mudanças nos mapas, mudanças nos personagens… Tudo isso é apenas uma ideia agora, mas queremos introduzir mais história e plot no jogo, e não só obrigar [o jogador] a sair do jogo para aprender mais.

O foco neste primeiro momento será em apresentar a equipe e mostrar os laços (bons ou ruins) que os personagens já criaram entre si, para ressaltar a noção de time, segundo Anna Donlon:

Queremos que os jogadores tenham uma afinidade profunda pelos personagens e essa é a nossa prioridade. O mundo em que esses personagens vivem, achamos que muitos jogadores vão se importar com isso, mas muitos não vão se importar.

Também achamos importante [o foco nos personagens] por este ser um jogo de times, que eles foquem primeiro nas interações desses personagens, o motivo de eles existirem juntos e terem aparecido para batalhar juntos, antes de irmos atrás de contar suas histórias de origem pessoais.

Quem quiser saber mais sobre o universo de Valorant não vai precisar esperar muito tempo. “Temos tudo escrito, é só uma questão de quão rapidamente vamos liberar isso”, garantiu Donlon, que estava empolgada em expressar seu carinho pelos personagens.

Atualizações

Valorant, assim como League of Legends, será um jogo em constante mudança, adotando a mesma filosofia de aplicar atualizações esporádicas com balanceamento de personagens e correção de bugs.

Por ser gratuito, a monetização ficará por conta de itens cosméticos como visuais alternativos para as armas, sprays para usar durante as partidas e outras opções que ainda não estavam implementadas. O empenho na produção desses itens será o mesmo utilizado na criação de skins do LoLzinho, e afirmo que, levando em conta alguns dos modelos de skin de arma que vi no teste, podem ficar animados.

Valorant será um jogo gratuito e será lançado para PC ainda em 2020.


A jornalista viajou para Los Angeles a convite da Riot Games.