Coluna | Ah, que saudade dos tempos de Lan House!

Um relato sobre o auge das lan houses e os primeiros passos do eSport no Brasil

Beto Estrada Publicado por Beto Estrada
Coluna | Ah, que saudade dos tempos de Lan House!

Eu me lembro que chegava no caixa e já de cara gastava R$3, valor que me renderia uma boa hora de diversão com vários amigos que estavam ali, e outros muito que eu iria fazer.

Sentava na máquina, já colocava meu nick e senha, e, tão logo o EasyCafe (o software mudava em cada lan-house) me apresentava os jogos disponíveis, imediatamente, entrava naquele Counter Strike 1.5, só pra esperar os amigos do DoD (Day of Defeat) chegarem e conseguirmos montar um time.

Onde eu jogava tinham 32 máquinas e existia uma camaradagem que fazia com que todos se juntassem em qualquer jogo, apenas pelo prazer de virar no ouvido do amigos do lado e gritar: “HEADSHOT”!

E que delícia era a sensação de apertar o TAB e ver que eu, nem sempre, tinha um número de “Kills” bem satisfatório.

Counter Strike
Counter Strike

Geralmente, nós começávamos no que a gente chamava de “piscininha” ou “fase da piscina”, a gloriosa “pool_day” que surgia entre uma Dust2 ou uma Aztec. Mapas estes que foram criados para se levar a sério: se houvesse camperagem por parte de algum newbie ou qualquer outro tipo de jogador mal intencionado, um pente inteiro de palavras de baixo calão era descarregado por quem o visse escondido atrás de um caixote qualquer.

E logo depois da pausa para o amendoim e coca-cola, o clima sempre diminuía um pouco enquanto todos escolhiam seus personagens no DOTA ALL-STARS. Era o silêncio que precedia o esporro!

Eu, com meu Pit Lord, me portava como um humilde cadete, nunca cheguei nem perto de ser um bom jogador de MOBAs, me orgulho de uma vez ter conseguido atingir um Mega-Kill, mas quando eu tinha oportunidade de ouvir algo era somente o tácito Killing Spree.

Dota: All Stars
Dota: All Stars

Mas, de repente, com uma morte lá pelo level 10, é que começavam os xingamentos, e nunca eram direcionados aos adversários: os acusados eram os companheiros de time que tinham todos seus planos bem definidos em suas cabeças e completamente mal compartilhados entre si…e não era essa a diversão?

Para aqueles que fumavam ao final de cada partida, havia ainda o momento de discutir, na porta da lan house, cada lance do jogo – com a empolgação digna de uma final de campeonato: todas as mortes eram lembradas como um gol! Lembre-se que o Ministério da Saúde adverte: fumar pode causar diversos tipos de doença.

Intervalo

Após o falecimento da última guimba tudo começava e o ritual se repetia de novo, e de novo, e de novo… Então chegava a hora do almoço!

Alguns iam para casa comer, outros se alimentavam de barras de cereais e mais cliques, muitos recorriam à boa e velha promoção no chinês que vendia salgado + suco por R$2.50. Os mais afortunados sempre recorriam a almoços competentes em um restaurante escolhido na hora.

E que saudade da época em que o Mc Donald’s fazia promoções em seus hambúrgueres!

Need For Speed: Underground
Need For Speed: Underground

Ao retornar, era padrão os gostos pessoais predominarem nas escolhas dos jogos, e, finalmente o clima dava uma acalmada. Dos fones de ouvido alheios, se ouvia motores dos carros de Need for Speed: Underground, sirenes policiais de GTA, torcidas cantando no FIFA e tiros e mais tiros daqueles que nunca largavam os FPS.

A “molecada” da escola começa a chegar e os grupos de trabalhadores em hora de almoço assumiam as cadeiras. Era uma barulheira setorizada, cada um no seu canto com servidores fechados e no balcão os “de sempre” se agrupavam para trocar uma ideia, falar sobre a vida e lembrarem que fora dali ainda existia um mundo.

(Menção honrosa para o video Frag or Die que era visto quase todo dia nessa hora)

Entre conversas sobre bebedeiras, partidas de RPG e a expectativa de lançamentos de novos jogos, todos se preparavam para retomarem seus lugares e tudo recomeçar.

Sempre por volta das 15h, a vida retomava ao rumo normal. E os perfis de jogadores se apresentavam como se fossem classes de um MMORPG: haviam aqueles que não aceitavam perder e batiam com o mouse na mesa a ponto de quase quebrá-lo (esses tinham a mania de culpar os outros pelos seus erros),; alguns que não jogavam com o time e sempre faziam o que achavam melhor; poucos que ficavam calados e só queriam se divertir um pouco; e a maioria que ria e se divertia entre uma partida e outra, transformando aquelas horas na lan house em uma bela fuga dos pesares da rotina!

O glamour das lan houses! Foto: Outer Space
O glamour das lan houses! Foto: Outer Space

Às vezes também tinham aqueles que faziam parte do time, que sofriam ao esperar uma máquina ou outra liberar para estarem juntos treinando para um campeonato que aconteceria no fim de semana. Era o sonho de muitos fazer parte do time, afinal era uma oportunidade de jogar de graça!

E a noite vinha, a hora de fechar se aproximava e permaneciam os clientes fiéis, aqueles que fechavam a loja junto com  o atendente, que ajudavam a catar o lixo, a arrumar as mesas e ainda esperavam do lado de fora para as luzes se desligarem e as portas de ferro se fecharem. Assim, ainda aconteceria o último papo da noite, que levava uns trinta minutos e guiava todos para suas respectivas casas.

Para os mais velhos isso tudo talvez soe como memórias de um tempo que não voltará mais. Afinal, hoje em dia, a maior parte das pessoas que jogam juntas estão separadas pelas conexões de internet, conversando através de TeamSpeaks e Skypes da vida, sem nunca precisar virar a cabeça para o lado buscando seus companheiros pois a única forma de vê-los é através da tela do computador.

E para os mais novos esse relato pode parecer meio descabido e sem sentido, mas foi exatamente assim que o eSport deu seus primeiros passos no Brasil!


*Beto Estrada cursou Letras, Comunicação e Game Design, mas abandonou tudo pra ser cofundador do Matando Robôs Gigantes e ter tempo de torcer pro Fluminense à vontade. 

Foto Vitrine: Xtreme Games Lan House