Bom Dia, Verônica | Crítica

Série nacional da Netflix mostra que a violência está mais próxima do que podemos imaginar

Fernanda Talarico Publicado por Fernanda Talarico
Bom Dia, Verônica | Crítica

A história de Bom Dia, Verônica, nova série nacional da Netflix, já nasceu de maneira misteriosa, pois ela foi baseada no livro homônimo, lançado pela Editora DarkSide em 2016, escrito inicialmente sob um pseudônimo, Andrea Killmore. O verdadeiro nome da autora foi mantido em segredo até que, em 2019, foi lançada uma nova edição e os verdadeiros escritores da obra foram revelados: Ilana Casoy, conhecida criminalista e autora de títulos de true crime (entenda mais aqui), e Raphael Montes, um dos autores mais importantes de romances criminais do país.

A experiência com a crueza da realidade de Casoy, somada à prática e familiaridade de escrever ficção de Montes, criou uma trama violenta, de chocar até mesmo aqueles mais acostumados com as histórias do gênero. A narrativa acompanha Verônica Torres, uma escrivã do Departamento de Homicídio da Polícia que se vê envolvida em casos de violência doméstica e busca por justiça, seja pelo sistema judicial, ou por suas próprias mãos.

Ao se transformar em série, Bom Dia, Verônica manteve a sua essência, muito porque contou com Raphael Montes e Ilana Casoy no processo de adaptação, mas não se viu livre de alterações para poder funcionar melhor em uma mídia diferente.

Na série, Verônica, vivida por Tainá Müller, presencia o suicídio de uma mulher enganada por um homem na delegacia em que trabalha, começando assim uma cruzada para ajudar vítimas de violência doméstica. Ao dar uma controversa entrevista na televisão, a mensagem de empatia de Verônica chega até Janete, interpretada por Camila Morgado, uma mulher que sofre com os abusos do marido, o policial militar Brandão (Eduardo Moscovis). A trama se desenvolve a partir da relação de Janete e Verônica, principalmente quando a escrivã descobre que Brandão não é um criminoso comum, mas um serial killer que sequestra, tortura e mata mulheres.

Violência doméstica não é um assunto fácil de se tratar e, mesmo que estejamos acostumados a assistirmos títulos com bastante violência, este tema específico ainda é tabu. Isso porque está próximo demais da realidade brasileira — no Brasil, uma mulher é agredida a cada 4 minutos, segundo informações do Ministério da Saúde. 

Bom Dia, Verônica trata a questão com cuidado, fala sobre as vítimas e da ineficiência do sistema judiciário com o devido zelo e, por meio da personagem de Verônica, com empatia e com a sede de justiça que aflora naqueles que se chocam com atos de violência contra mulheres.

O arco de Janete e de Brandão é o principal ao explorar essas relações abusivas e traz de maneira verossímil as atitudes de um criminoso, onde o trato não é sempre agressivo, pois há momentos de ternura e carinho, que caem por terra durante explosões de ódio e violência extrema. A série ganha ao mostrar as diferentes faces de um relacionamento assim, além de mostrar ao público que este tipo de problema está mais perto do que podemos imaginar.

Mesmo com um assunto tão delicado sendo tratado de uma maneira tão preocupada, a produção não se poupa em ser explícita e violenta: Bom Dia, Verônica não é para qualquer tipo de espectador, pois mostra a todo momento a que ponto pode chegar a violência do ser humano, com cenas ou descrições de atrocidades.

O elenco principal parece ter sido escolhido a dedo, ou então, que os papéis foram escritos exatamente para eles. Morgado e Moscovis, veteranos do audiovisual, entregam atuações convincentes, orgânicas e naturais; eles conseguem trazer à trama momentos de tensão extrema, seja durante diálogos muito bem feitos, ou até mesmo no silêncio, apenas com a respiração descompassada de Janete com medo, ou com um olhar de Brandão desconfiado. Os atores têm uma química que chama atenção por transitar tão bem entre momentos de paixão e repulsa, causando sentimentos conflitantes no público.

Quanto à Verônica, Müller lida muito bem com o gênero e com o protagonismo, criando uma protagonista durona, curiosa e destemida; ao mesmo tempo em que lida com seus problemas pessoais, suas inseguranças e fantasmas do passado.

A personagem, fio condutor de toda a série, passa por diversas transformações durante os oito episódios da primeira temporada, deixando claro que “Bom dia, Verônica” não é apenas uma expressão, mas mostra o despertar de Verônica para o mundo, que é violento e injusto.

No entanto, a série não é inocente de apresentar que a descoberta deste lado sujo e corrupto da sociedade em que vivemos não muda a pessoa, ao contrário, pois, se por um lado Verônica se torna mais maliciosa e usa de todos os artifícios possíveis para a sua investigação, por outro, a sua vida pessoal e seu emocional são penalizados, portanto acompanhamos a ascensão e a degradação simultânea da protagonista, que consegue nos manter presos à trama não apenas pelos seus mistérios, mas pela ligação que sentimos por ela.

Bom Dia, Verônica é de extrema importância para o cenário audiovisual brasileiro, por mostrar que a produção nacional sabe entregar títulos de qualidade de gêneros que ainda não foram tão bem explorados, como o caso do policial.

Ao final de todo episódio, um aviso pede para que caso você passe ou conheça alguém que esteja em situação de violência doméstica, entre no site Wanna Talk About It e procure ajuda. Assim, mesmo que estejamos assistindo a uma obra de ficção, com atores e roteiro, somos lembrados que violência doméstica é um problema real e faz mais parte da nossa realidade do que imaginávamos.