Batman | Crítica

Espetáculo de ação e suspense apresenta uma das melhores versões do herói da DC no cinema

Gabriel Avila Publicado por Gabriel Avila
Batman | Crítica

É impossível analisar a importância do Batman na cultura pop sem passar pela trajetória do herói nos cinemas. Essa jornada, que começou há quase 80 anos, solidificou a figura do Homem-Morcego de forma que cada nova versão deve não apenas se bastar, mas também trazer uma perspectiva inédita que justifique sua existência. Para superar esse desafio, Batman (2022) vai na contramão e inova justamente por abraçar o passado em um espetáculo grandioso que reapresenta o Cavaleiro das Trevas em grande estilo.

Para que esse recomeço seja convidativo tanto para novos espectadores, quanto para fãs antigos, o filme de Matt Reeves (Planeta dos Macacos: O Confronto) resgata o que deu certo no passado através de uma nova perspectiva. Isso fica claro desde os minutos iniciais, quando decide pular a origem do personagem por saber que o público é familiar à história do garoto que jurou combater o crime após perder os pais durante um assalto.

Dessa vez, a aventura se passa no segundo ano do Batman (Robert Pattinson) como vigilante de Gotham. Por um lado, essa escolha economiza um tempo precioso ao trazer um Batman pronto para a ação sem gastar tempo com questões periféricas – como a criação do uniforme, desenvolvimento de tecnologias e afins. Por outro, ainda acompanha um justiceiro iniciante e vulnerável, o que aumenta os riscos da cruzada contra os criminosos.

Enquanto luta para livrar a cidade dos bandidos, o Homem-Morcego precisa lidar com a chegada do Charada (Paul Dano). Fio condutor da reconstrução da mitologia do herói nesse novo contexto, a caçada ao vilão finalmente coloca em evidência nos cinemas o lado detetive do herói, que passa a conhecer os segredos de seu próprio lar.

Gotham surge encantadora e ao mesmo tempo aterrorizante, ganhando vida com uma estética anacrônica. Seus prédios, becos e boates misturam uma arquitetura gótica e antiga com brilhantes telões e letreiros em neon que criam o ambiente perfeito para o desenrolar de um thriller cheio de ação.

Como de costume, a cidade tem como figuras-chave mafiosos como Pinguim (Colin Farrell) e Carmine Falcone (John Turturro). Mais do que inimigos para o herói derrotar e prender, eles têm o claro objetivo de mostrar como banditismo e poder costumam andar de mãos dadas. Assim, a luta solitária e idealista do Batman ganha tons de cinza ao gradativamente abandonar o maniqueísmo simplista de “bem contra o mal”.

Nesse quesito, a presença da Mulher-Gato (Zoë Kravitz) se destaca por ser uma das relações que mais forçam o Morcego a deixar a zona de conforto. A personagem surge em uma de suas melhores versões graças a uma identidade complexa que é resultado de objetivos e problemas independentes do Batman. Isso dá força tanto à dinâmica instável carregada de tensão sexual dos dois, quanto à constrição do próprio herói, que se vê constantemente colocado diante do espelho.

Consciente de que o Batman é dono de uma das mais famosas galerias de vilões da ficção, o filme é esperto ao usar figuras como a própria Mulher-Gato e Charada como reflexos do herói. A história promove embates filosóficos interessantes que aproveitam a luta do Homem-Morcego contra o crime para colocá-lo em uma análise constante. São vários os momentos em que os símbolos do herói são jogados contra ele em situações que questionam de forma respeitosa e celebram seu legado.

Dentro da proposta, Robert Pattinson se mostra uma escolha certeira para o papel. Para fugir da interpretação clássica, que usa a persona pública de Bruce Wayne como fachada, o ator vai para o outro oposto e transmite toda a solidão e inadequação de alguém que abriu mão de tudo para focar única e exclusivamente em vingança.

Passando a maior parte do filme vestindo o capuz, ele encontra uma assinatura própria que aparece tanto nos momentos de drama, fúria descontrolada e até nos alívios cômicos causados pela falta de humor do vigilante.

Esses elogios são merecidos também pelo restante do elenco, que não se deixa intimidar pela tarefa de viver personagens que já foram mostrados nas telonas antes. Zoë Kravitz aproveita a complexidade de sua Mulher-Gato para uma construção charmosa e firme. Mesmo distante da versão colorida e espalhafatosa dos quadrinhos, o Charada de Paul Dano se destaca graças a um misto de descontrole e meticulosidade. O ator aproveita essa mistura para mostrar por que se tornou um dos grandes atores de sua geração.

O Pinguim de Colin Farrell é um show à parte graças a uma combinação de carisma e exageros, que traz novas cores para o lado mafioso de Gotham. Núcleo esse que é brindado por uma atuação sublime de John Turturro, que aproveita cada minuto em tela para construir uma figura imponente e de meter medo sem nunca levantar a voz.

Por mais maduro que o filme se mostre tanto em seu tema, quanto em sua execução, Batman se destaca por nunca se deixar seduzir pela tentação de ser realista demais. Por mais que o sucesso da trilogia de Christopher Nolan tenha provado que essa estratégia pode dar bons frutos, para funcionar ela acaba cortando vários elementos que tornaram o Cavaleiro das Trevas tão icônico.

É claro que colocá-lo na caça de um Charada fortemente inspirado em serial killers da vida real confere uma sobriedade digna das versões mais pé no chão, mas a produção não se furta de incorporar elementos mais fantasiosos ou até ridículos que fazem parte do DNA do Homem-Morcego.

Com isso, o filme encontra um tom próprio ao apostar nesse meio-termo. Há sim uma grande influência de obras sóbrias como Todos os Homens do Presidente (1976) e Seven – Os Sete Crimes Capitais (1995), mas ela convive em harmonia com uma aventura clássica de super-heróis aos moldes do primeiro Batman (1989), por exemplo. Dessa forma, há o casamento entre um suspense cativante e cenas de ação empolgantes.

O esforço para honrar o legado do Batman pode ser visto especialmente nas sequências de ação. O longa faz bonito tanto nos momentos de porradaria, que mostra de forma clara e dinâmica as coreografias de luta, quanto no uso do Batmóvel. Mais que uma ferramenta, o carro surge quase com personalidade, fazendo com que sua participação curta se torne memorável.

O ponto fraco do filme está em sua necessidade de constantemente parar a história para explicar o que está acontecendo ao espectador. Por si só, expositividade não é um problema, mas chega a ser frustrante quantas vezes o roteiro faz questão de mastigar as coisas para o espectador assim que elas acontecem. Parece haver um certo grau de descrença na capacidade do público de acompanhar a trama, minando a força da narrativa com a utilização de muletas desnecessárias.

Ainda assim, Batman chega ao fim de suas quase três horas como um épico que faz jus à grandiosa história do herói nos cinemas. Com grande orgulho do legado que se propôs a levar adiante, o filme de Matt Reeves encanta justamente por celebrar o que mantém de pé esse universo que já dura mais de oitenta anos. Em uma trama que busca maturidade sem abrir mão da diversão, fica a certeza de que não havia forma melhor de voltar para Gotham.


Para curtir ainda mais o filme, leia as HQs de Batman não tão conhecidas.

div-ad-vpaid-1
div-ad-sidebar-1
div-ad-sidebar-halfpage-1