A Fera do Mar | Crítica

Nova animação da Netflix cativa com história divertida, ainda que peque pela falta de ousadia

Pedro Siqueira Publicado por Pedro Siqueira
A Fera do Mar | Crítica

Em um primeiro olhar, você certamente já viu essa história antes. Um protagonista valente e calejado pela vida, mas que nem por isso perde o bom coração, precisa se virar com uma criança prodígio a tiracolo em altas aventuras. A partir da premissa, A Fera do Mar, nova animação da Netflix, tenta se destacar com uma aventura divertida, ainda que peque pela falta de ousadia.

Dirigida por Chris Williams (Operação Big Hero), a trama acompanha o caçador de monstros Jacob Holland (Karl Urban) a bordo do imponente navio Inevitável. Sob o comando do Capitão Corvo (Jared Harris), a tripulação cruza os mares combatendo as tais feras. Os monstros habitam as profundezas e estão em guerra com os humanos há gerações.

O contraponto e alívio cômico chega na forma da pequena órfã Maisie (Zaris-Angel Hator). A garota sonha tanto com a vida em alto-mar que acaba entrando de gaiata no navio. O grupo então parte à caçada da Bravata Vermelha, descrita como a mais temida e feroz das feras.

O pano de fundo bebe de produções como Piratas do Caribe, e também não há como ver as pelejas dos monstros gigantes sem lembrar de King Kong ou Godzilla trocando bordoadas com outros bichões.

O diferencial em A Fera do Mar é que a ação utiliza as influências assumidas de forma eficaz, investindo em sequências que conseguem divertir, apesar de não transmitir sensação real de perigo. Mesmo enfatizando o poder destrutivo das criaturas, o visual fofinho dos bichos (principalmente a Bravata) deixa claro a quem você deve se afeiçoar.

Nesse sentido, a animação perde em não proporcionar um visual mais único para os monstros. A opção narrativa contrasta com a naturalidade na movimentação e caracterização dos personagens humanos, além das já citadas sequências de ação.

É na construção dos personagens, inclusive, que o longa brilha. Urban equilibra o tipo bruto (sem brincadeiras com o personagem do ator em The Boys), mas amável. A “ranzinzice” do herói, em contraponto à empolgação infantil de Maisie, rende as melhores interações e momentos cômicos da trama.

Também aí que, mesmo no já citado clichê da figura paterna relutante, a trama coloca os dois em uma dinâmica interessante, ainda mais considerando também a relação paternal de Jacob com o capitão Corvo. De um lado, o marinheiro se vê confrontado a repensar muito do que tomava como certo graças ao olhar lúdico da garota espevitada sobre a vida. Do outro, se apega à necessidade de honrar o compromisso ao capitão e aos companheiros de mar.

Não seria exagero considerar Corvo, Jacob e Maisie como três gerações de uma mesma família, com o personagem de Karl Urban sendo a balança que tenta equilibrar os traços que herdou da figura paterna que nunca parece aberta à mudança, e a sabedoria, inusitada até para ele mesmo, do olhar da criança.

Considerando isso, é um pena que a simplicidade do roteiro também cobra um preço no desenvolvimento da rivalidade entre o Capitão Corvo e a Bravata. O embate remete logo à relação de ódio entre Ahab e Moby Dick, no livro de mesmo nome, e talvez a mais clara inspiração de A Fera do Mar. O homem do mar é, desde o início, definido pelo ódio irracional à criatura. Mas nunca entendemos de forma clara o que, de fato, o move.

Este potencial acaba sendo até desperdiçado ao pensar que o capitão poderia ser justamente a figura mais interessante e complexa da trama, muito devido à atuação de Jared Harris (Chernobyl), excelente como um homem resignado, ainda que imponente.

Corvo caminha sempre a linha tênue do anti-herói bem intencionado, mas perdido. O conforto é buscado apenas em repetir sua obrigação e código, sem considerar que mesmo os heróis, por vezes, podem errar.

O paralelo, de certa forma, pode se aplicar até mesmo à própria trama. A Fera do Mar tenta honrar sua história e a das obras referenciadas, mas esquece justamente do espírito desbravador que norteia os marinheiros.

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