Contos de fadas nunca são apenas histórias de magia, inocência e encantamento. Há algo de sombrio nas narrativas que crescemos lendo, ouvindo e assistindo, como se estivéssemos diante de um sonho que, ao menor deslize, pode se transformar em um pesadelo. Há uma lição de moral que geralmente parte do lado “vencedor” da fábula, mas muito fica pelo caminho sem o devido contexto, deixando lacunas que são preenchidas pela nossa imaginação.
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Talvez por isso seja bastante comum ver teorias e releituras desses contos partindo do ponto de vista de outros personagens, ou explorando detalhes que não foram aprofundados na versão original. Esse é o caso de Wicked, novo filme que se inspira no mundo de O Mágico de Oz para contar a origem da famosa Wicked Witch of the West, popularmente conhecida por nós brasileiros como a Bruxa Má do Oeste.
Ou seja, estamos falando de um filme que é a interpretação mais recente de um fenômeno cultural que já dura mais de um século - o conto original do Mágico de Oz foi publicado em 1900 - e que passou por todo tipo de mídia e abordagem ao longo desse caminho.
Wicked faz jus a esse legado? Está à altura das expectativas da enorme comunidade de fãs? Essas respostas, assim como a Bruxa Má do Oeste, merecem um pouco mais de contexto.
Um mundo verde e rosa

Wicked conta a história de Elphaba (Cynthia Erivo), uma garota que desde pequena sofreu muito preconceito por ter nascido com a pele verde. Mas essa não é a única característica singular dela: Elphaba é também dotada de incríveis poderes mágicos, que nunca foi capaz de controlar muito bem devido à instabilidade de suas emoções.
A realidade da bruxinha verde se transforma por completo quando ela se torna aluna de uma renomada escola de magia e, meio que por acidente, é obrigada a dividir o dormitório com Glinda (Ariana Grande), outra nova estudante que é, em vários níveis, o exato oposto de Elphaba. Extremamente popular, rica e totalmente alheia a adversidades, Glinda vive em um mundinho cor-de-rosa que entra de imediato em rota de colisão com a vida de trauma e isolamento da sua nova companheira de quarto.
A maior parte da força de Wicked está nessa dualidade e no desenvolvimento dos conflitos e da relação de duas pessoas tão distintas. Aos poucos vamos percebendo nuances que vão muito além das caricaturas. Talvez Glinda não seja apenas uma narcisista mimada e egoísta, e Elphaba seja muito mais do que os julgamentos e cicatrizes que lhe impuseram. O desenrolar dessa dinâmica é cativante, divertido e emocionante, algo que só é possível graças à química que Cynthia Erivo e Ariana Grande demonstram em cena e à compreensão que as duas têm das personagens e do universo ali proposto.
A partir dessa premissa, o filme desenvolve um típico drama colegial, com todos os temas e arquétipos conhecidos do gênero, como inseguranças da adolescência, necessidade de aprovação, triângulos amorosos e até a clássica cena do baile da escola - sequência particularmente marcante do filme, inclusive. Ao longo da produção, a tensão central da relação entre Glinda e Elphaba evolui, gerando uma constante sensação de que o próprio mundo não é tão perfeito quanto pode parecer a princípio.
Uma longa estrada de tijolos amarelos

É importante frisar para quem nunca teve contato com Wicked que essa é a adaptação de uma obra extremamente popular, principalmente nos Estados Unidos. A história original de Elphaba foi contada no livro Wicked: The Life and Times of the Wicked Witch of the West, escrito por Gregory Maguire e publicado em 1995. O sucesso dessa nova interpretação do mundo de Oz fez com que o livro fosse adaptado para um musical da Broadway em 2003, se tornando um dos espetáculos mais aclamados e cultuados do século 21.
O filme é uma adaptação direta dessa versão da Broadway, e não abre mão da estrutura de um musical, formato esse que não é tão popular atualmente em Hollywood. A diferença aqui é que a gigantesca comunidade de fãs de Wicked já espera que qualquer adaptação que se preze traga no pacote um rearranjo das músicas do espetáculo. Diferente do recente Coringa 2, Wicked é um filme musical que tem nas canções boa parte do seu apelo comercial.
Tais performances não só funcionam perfeitamente dentro da narrativa, como são incrivelmente bem executadas. A presença de Ariana Grande inevitavelmente rouba a cena nesse quesito, especialmente porque, além de entregar muito cantando, ela também parece muito segura criando sua versão de Glinda. As coreografias que acompanham esses momentos são hipnotizantes e tudo é favorecido pela a direção de arte, ainda que visualmente o filme acabe muitas vezes pecando pelo excesso.
O humor, muito presente no musical original, também funciona muito bem aqui. Existe uma leveza que nos faz sorrir - e muitas vezes rir de fato - mas ela é frequentemente invadida pelo drama. O tom do filme acompanha as características das personagens principais e da própria estrutura dos contos de fadas. Nunca é apenas lúdico e engraçado, assim como não se permite ser apenas trágico e sombrio.
Lute como uma bruxa

Como fica evidente pela ideia de preconceito com pessoas verdes, Wicked é um filme que busca transmitir algumas mensagens sociais. A mais óbvia é contra o preconceito racial, trazendo no estigma da bruxa verde um comentário sobre o modo como as pessoas são hostilizadas pelo tom de pele. Mas, a partir desse tema, a história explora outras possíveis consequências da xenofobia e da intolerância.
O mundo de Oz é retratado como uma sociedade que só se entende como perfeita no momento em que consegue excluir e afastar o diferente. Além de Elphaba, existem muitas outras vítimas dessa opressão velada, como é o caso dos animais falantes, que estão perdendo direitos civis e ficando cada vez mais marginalizados.
A história de Elphaba também pode ser entendida como a biografia trágica de uma pessoa com aspirações revolucionárias, uma liderança anarquista em meio à indignação dos grupos mais vulneráveis. Como acontece em toda luta política, é preciso ter cuidado com o equilíbrio entre raiva e esperança, um conflito que está sempre presente no subtexto da não tão má Bruxa do Oeste.
Um ponto importante a ser citado é que essa adaptação para os cinemas foi dividida em duas partes, com a conclusão prometida para outro filme em 2025. Essa decisão favorece a narrativa em alguns aspectos, como na possibilidade de desenvolver com mais calma alguns trechos, mas acaba prejudicando a reta final. O clímax do filme parece abrupto e expositivo, deixando a impressão de que precisou ser encaixado aqui apenas para chegar no gancho desejado para a sequência.
Um novo passo para os musicais

Wicked é uma das melhores surpresas de 2024 e, se me permite o trocadilho, é um filme capaz de enfeitiçar. É hipnotizante a forma como ele transita entre o humor, o espetáculo visual e o drama, tudo isso com uma explosão de cores, estímulos e canções. É como se fôssemos tomados pela euforia de uma criança que acabou de comer meio quilo de açúcar, sentindo até que precisamos de um tempo para processar um filme cuja história central é relativamente simples.
O formato adotado faz com que seja difícil mensurar o legado dessa adaptação sem a segunda parte da história. O primeiro filme, no entanto, consegue funcionar isolado e é capaz de deixar a melhor das impressões em um novo público que talvez não esteja tão habituado a musicais que não sejam animações de princesas com poderes de gelo.
A receita do sucesso aqui é rápida e prática: para cada xícara de verde musgo, adicione a mesma dosagem de rosa choque e misture bem, de preferência com uma pitada de purpurina dourada.
Wicked chega aos cinemas brasileiros em 21 de novembro.
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