Durante toda a sua vida, John Ronald Reuel Tolkien, criador da Terra-média e de O Senhor dos Anéis, foi fascinado por mitos. Para ele, essas histórias transmitiam, através da ficção, verdades maiores do que a própria verdade em si. Agora, 46 anos depois da morte do autor, a Fox Searchlight lança Tolkien, uma cinebiografia que cria um mito para o escritor, mas que acaba se esquecendo do ser humano por trás de Frodo, Bilbo e Gandalf.
Ambientado majoritariamente nas primeiras décadas do século 20, o filme mostra como os eventos da vida de J.R.R. Tolkien, como sua experiência na Primeira Guerra Mundial, foram cruciais para a criação da Terra-média. O grande trunfo do longa é recriar, de maneira quase fidedigna, o cenário sociopolítico e cultural da Inglaterra da época, mostrando como suas obras são reflexo daquele tempo. Porém, ao fazer isso, o filme comete seu grande deslize: creditar o surgimento da Terra-média a episódios de genialidade repentina.
O trabalho de esculpir a Terra-média foi árduo e longo, com Tolkien pensando e lapidando o mundo que criou por muitos anos, nunca completamente satisfeito com o resultado. Esse aspecto da trajetória do autor se reflete no já icônico episódio do bloqueio criativo que ele teve durante a escrita de A Sociedade do Anel, quando, ao chegar nas Minas de Moria, não sabia para onde a história deveria caminhar, deixando o livro de lado por quase um ano.
O longa, por sua vez, retrata uma versão do autor que simplesmente conseguia olhar ao seu redor e ter ideias brilhantes, como, por exemplo, transformar os soldados alemães com lança-chamas no icônico dragão Smaug, deixando de lado todas as idas e vindas necessárias para se chegar à Terra-média do jeito que conhecemos.
Com tanto tempo investido em construir um mito para a criação da obra do autor, o filme acaba entregando uma trama genérica, com um personagem bidimensional, sem toda a complexidade inerente à qualquer vida humana. O ator Nicholas Hoult é o que salva a versão de J.R.R. Tolkien apresentada no longa. O astro consegue dosar bem a seriedade acadêmica do autor com seu despojamento e bom humor, amplamente documentado em suas biografias.
Mas o grande destaque do elenco fica com Lily Collins, que interpreta Edith Bratt, a futura esposa de J.R.R. Tolkien. Muito mais do que criar uma personagem que é apenas uma musa inspiradora para o escritor, a atriz constrói uma figura complexa e tridimensional, que mesmo inserida no contexto do começo do século 20, anseia por independência e vida própria para além da vida doméstica.
Não autorizado pela família do autor, o longa se apresenta como um filme genérico, sem personalidade e sem um arco dramático definido. É a criação de um mito para Tolkien, o autor, que deixa de lado todas as nuances de John Ronald, o ser humano.