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Nollywood é uma potência cinematográfica que você precisa conhecer
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Nollywood é uma potência cinematográfica que você precisa conhecer

Entenda mais sobre essa indústria e alguns filmes nigerianos de destaque

Anderson Shon
Anderson Shon
20.nov.21 às 12h00
Atualizado há mais de 3 anos
Nollywood é uma potência cinematográfica que você precisa conhecer

Round 6 é um sucesso inegável e já podemos colocá-la como uma das séries mais relevantes de 2021. O hype contagiou pessoas de diversas idades, invadiu jogos online e as roupas viraram peças obrigatórias nas festas à fantasia. Todo esse sucesso é maravilhoso, mas fica ainda melhor se percebemos que isso vem como uma resposta da descentralização do audiovisual, movimento que a Netflix ajudou a impulsionar, mas que não foi iniciado por ela.

Quem cresceu na década de 70, 80, 90 tinha a péssima ideia de que cinema só existia em Hollywood. A língua inglesa, os armários nas escolas, os bailes de formatura, a forma como encarar a vida e vivê-la era muito norte-americana. Que criança nunca quis ter uma casa na árvore? Isso era um sonho pra mim, mesmo eu morando num condomínio que sequer tinha uma árvore. Vejo Round 6 repetir o sucesso de Parasita, dando um nocaute certeiro naqueles que ainda tinham suas dúvidas sobre o potencial do audiovisual do leste asiático.

Porém, essa descentralização precisa chegar a universos em que o cinema já é algo bem estabelecido, e nós conhecemos muito pouco. Deem boas vindas à Nollywood, terceira maior indústria cinematográfica do mundo em número de produções, atrás apenas de Bollywood e Hollywood.

As origens de Nollywood

A ideia começou de maneira bem simples; um comerciante tinha um estoque enorme de fitas e precisava vendê-las. Ele achava uma boa ideia oferecê-las por um dólar, mas podia gravar algo nelas e, além de aumentar o valor, seria mais fácil convencer as pessoas a comprarem. Deu muito certo. Esse modelo de home video existe até hoje, pois os filmes produzidos vão direto para as casas dos nigerianos, já que há pouco mais de dez salas de cinema no país inteiro.

A relação dos nigerianos com os filmes é bem parecida com a dos brasileiros com as novelas, até os temas se parecem, sempre com um foco para gêneros como drama, comédia ou policial. Esse cenário fértil e a demanda ávida por mais filmes, fez do país um dos principais polos de cinema do mundo. Porém, por que você nunca soube disso?

As histórias não são um primor de criatividade e inventividade, assim como em Hollywood ou em Bollywood. Se analisarmos, faz algum tempo que vemos as mesmas histórias contadas de formas diferentes nas mãos dos mesmos atores e diretores. Por exemplo, o filme Um Legado em Sete Dias (2019), do diretor Toshin Igo, conta a história de um jovem irresponsável que herda os empreendimentos do pai, mas só poderá colocar a mão na herança se passar sete dias em um bairro muito pobre.

Um legado em Sete Dias Cena de Um legado em Sete Dias, que está disponível na Netflix

O enredo do playboy que aprende a ser humilde após alguma imersão longe do seu contexto é super clichê, mas se torna diferente quando vemos isso com outra roupagem, outro background. Percebam que o que entendemos por clichê são histórias que quase sempre foram contadas a partir de uma ótica ocidental, branca e hétero. Ser um playboy negro em Lagos é bem diferente do que ser um playboy branco em Nova York.

Realidade parecida com a nossa

Temos em Nollywood filmes que falam de uma realidade que é muito mais parecida com a brasileira. Em Lionheart, filme da diretora e atriz Genevieve Nnaji, é possível ver as relações de machismo impedindo que uma empresária do ramo de logística ascenda profissionalmente dentro da empresa. A busca pela aprovação através das qualidades profissionais, os questionamentos familiares, as relações patriarcais são similares, infelizmente, à rotina de uma mulher brasileira que tenta o seu lugar ao sol.

Mesmo com tantas qualidades e similaridades, os filmes nigerianos não são consumidos no nosso país e no resto do mundo. Por quê? O debate é muito complexo. Primeiro, é necessário entender que o boom do cinema nigeriano é recente e questões básicas ainda precisam de lapidação.

Uma delas é o roteiro, assim como o movimento do Cinema Novo revolucionou o audiovisual nacional ou a chegada de Allan Moore e Frank Miller fez os quadrinhos irem para outro nível. Há vários fatores para Nollywood ainda não ser grandioso fora dos muros africanos, o racismo é um deles? Sim, afinal de contas, muita gente ainda nem sabe da existência da indústria de cinema que está no Top3 em quantidade de lançamentos anuais. E, nós sabemos, esse desconhecimento não tem relação com roteiro, iluminação ou coisas do tipo.

Outra é que o nosso imaginário coletivo de cenário urbano nos leva a bairros decorados com cercas brancas, as escolas das nossas cabeças apresentam armários e líderes de torcida, assim como os piqueniques têm cestas de fibras e panos longos quadriculados em vermelho e branco. Todas essas características nascem de um resultado de influências que nos acompanham desde os nossos primeiros minutos na frente da TV, são os tais "enlatados dos U.S.A., de nove as seis" que Renato Russo anunciava.

Os cenários dos filmes nollywoodianos podem soar estranhos, mas estão muito mais próximos dos nossos passeios pelos bairros brasileiros do que as comemorações do Dia de Ação de Graça. Toda característica que possa ser adjetivada como "ruim" à primeira vista, é somente uma nova experiência para um novo mercado audiovisual, é necessário alguma persistência para romper a barreira do novo. É como se você almoçasse sempre arroz com ovo e, de repente, te apresentam uma feijoada. Variar o cardápio é fundamental.

Porém, eu já falei muito e há uma maneira mais simples de chegarmos a um denominador comum (ou não) sobre as obras do cinema nigeriano. Aqui estão algumas sugestões de filmes nollywoodianos para o seu final de semana:

Lionheart (2018)

Cena do filme Lionheart, disponível na Netflix

Ser uma mulher e tentar crescer profissionalmente num ambiente extremamente machista é um desafio grande. É isso que a protagonista Adaze (Genevieve Nnaji) precisa enfrentar para provar que é capaz de salvar a companhia de transporte da família.

Após o pai sofrer um mau súbito, Adaze vê seu tio tomar o cargo de liderança da empresa, apesar dela ser a mais qualificada para o cargo. Isso não a faz abaixar a cabeça, pois a empresa tem um dívida bancária milionária e ela precisa pensar em uma estratégia que possa salvar o império do pai antes do prazo estipulado pelo banco.

Vale destacar que Genevieve Nnaji é protagonista e diretora do filme e que Lionheart, por alguns meses, foi o longa mais bem avaliado da Netflix.

Your Excellency (2019)

Cena de Your Excellency, disponível na Netflix

Um candidato à presidência, Olalekan Ajadi (Akin Lewis), é utilizado como bode expiatório para que um grupo político receba mais verba de gabinete. Porém, seu jeito informal, humor nonsense e linguagem pouco rebuscada o aproxima das camadas mais pobres da Nigéria e o que era somente uma piada passa a ser um grande concorrente para as eleições do país.

O filme mostra como as redes sociais podem transformar pessoas desajustadas em verdadeiras celebridades e como todos, de alguma forma, acabam ficando refém disso. Como plano de fundo, vemos um casal em constante briga por conta da falta de privacidade ao ter seu cotidiano exposto 24 horas na internet e o candidato da oposição tentando se esquivar das mulheres interessadas em suas fotos e vídeos na academia.

Your Excellency pede para não ser levado a sério o tempo todo, mas, e isso é ótimo, falha nesse quesito, ao nos apresentar personagens muito críveis fazendo dancinhas ridículas para ganhar votos e likes.

Por Uma Vida Melhor (2020)

Imagem promocional de Por Uma Vida Melhor, disponível na Netflix

Uma jornalista se infiltra na rotina das garotas de programa de Lagos para denunciar uma rede de crime sexual existente na cidade. A empreitada coloca Òlòtūré (Sharon Oopa) em perigos constantes ao se aproximar cada vez mais do submundo de Lagos.

O filme expõe uma realidade cruel que é financiada por políticos, empresários e turistas, que veem uma espécie de fetichismo em corpos negros, os objetificando e contribuindo para uma indústria que de tráfico humano que rende cento e cinquenta milhões de dólares anualmente.

O final deixa um nó na garganta que é difícil desatar, mas o grande destaque é para a cena onde as garotas de programa passam por um ritual preparatório para uma viagem para a Europa, com direito a sangue de galinha, fumaça de charuto e uma simulação da própria morte.

O longa é baseado em fatos e inspirado na experiência vivida pela repórter nigeriana Tobore Ovuorie.

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