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Jordan Peele volta a criar sua versão da história com um final feliz em Não, Não Olhe!
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Jordan Peele volta a criar sua versão da história com um final feliz em Não, Não Olhe!

Continuando o foco no terror racial, diretor presenteia os fãs com mais uma obra digna de atenção

Camila Sousa
Camila Sousa
17.set.22 às 10h00
Atualizado há mais de 2 anos
Jordan Peele volta a criar sua versão da história com um final feliz em Não, Não Olhe!

Tudo o que é bom precisa ser bem dosado. Por isso sei que, apesar da minha vontade de sugerir uma petição para que Jordan Peele lance um filme por ano, isso não é o ideal. Por enquanto, me contento com a genialidade de Não, Não Olhe! (NOPE, no original). O terceiro filme do diretor continua apostando forte no terror racial, gênero que ele desenterrou com Corra! (2017), e que já tem ganhado outros adeptos, como Nia DaCosta, Misha Green, entre outros nomes.

Em Não, Não Olhe! encontramos elementos parecidos com Corra! e Nós (2019), mas nada soa repetitivo, pois ainda há um campo fértil para ser explorado quando falamos de tirar os estereótipos da figura da pessoa negra no cinema. Se antes vimos uma metáfora sobre a exotização do negro, com uma reflexão perante o submundo que essa comunidade precisa habitar para resistir, agora vemos uma analogia intensa, que tem como foco o processo de escravização e o otimismo de Jordan Peele em como ele gostaria que fosse o desfecho desse capítulo vergonhoso da humanidade.

Certa vez, vi uma imagem na internet com um cavalo amarrado a uma cadeira de plástico. Por desconhecer a própria força e ter sido doutrinado a uma ideia de inferiorização, o mesmo sequer sai do lugar. No filme, o rancho Haywood - nome dado em homenagem ao homem negro que estrelou a primeira sequência de imagens do mundo - aluga cavalos para sets de filmagem e um dos animais, que atende ironicamente pelo nome de Lucky, mostra que não aceitará ser subserviente. Se ele é mais forte, por que deve ser incomodado por mais fracos? É aqui que começam os paralelos à época da escravização.

Creio que não seja preciso explicar que, em certo momento do mundo, era legalizado a compra e venda de pessoas negras para fins particulares. Esse é o resumo do resumo do processo de escravização envolvendo os negros africanos mas, se você ainda não sabe disso, é melhor voltar para as aulas de história e, se puder, com docentes negros. Nessa época, era comum usar um escravo como bode expiatório. Vários deles foram enforcados e esfolados quando capturados, como um aviso para manter os outros longe de qualquer tentativa de fuga ou rebelião.

A citação bíblica utilizada no início do filme (Naum 3:6 - Eu jogarei imundície sobre você, e a tratarei com desprezo; farei de você um exemplo) já indica o contexto metafórico em que os personagens irão transitar. Além disso, o formato da entrada da casa dos protagonistas remete às gigantescas moradias de coronéis, com suas botas e mãos sujas de sangue. Esses elementos são formas de antecipar e de nos transportar para o que realmente está sendo criticado. O que mais te assusta: a possibilidade de ser escravizado por alienígenas ou por outro ser humano?

Daniel Kaluuya em Não, Não Olhe!

É provável que, estudando a história ou vendo filmes e documentários, você já tenha se perguntado: "por que os negros, que eram maioria, não se revoltaram e mataram todo mundo?". E a resposta é que a presença dos brancos na consciência dos negros era algo além do quantitativo. Era como se eles estivessem em todo lugar, uma espécie de nuvem pairando que sabia exatamente cada passo de cada um. Já no filme, ao identificarem uma nuvem parada "olhando" para eles, os irmãos Haywood tiveram sua existência completamente perturbada. Não era só alguém ou algo parado, vendo cada movimento, era uma presença monumental e esmagadora, que engolia tudo que achava que servia para si, e repelia o que julgava não prestar.

[Cuidado com spoilers leves de Não, Não Olhe! a partir daqui]

Como dito anteriormente, Jordan Peele não gosta de finais em que os negros não sejam os heróis. Afinal, já existem muitas produções com negros retratados como vítimas de slashers ou coisas do tipo. Matar pessoas vestidas com máscaras de Carnaval é fácil perto do desafio dos irmão Haywood. Aquela nuvem guardava algo que, inicialmente, se mostrou como uma nave espacial, mas já era o próprio monstro, transmorfo, adaptável às situações, daqueles que parecem algo em um primeiro momento, mas se desnudam em uma aparência inabalável. De repente, a criatura se transforma em um gigantesco véu branco que serviria para, no mínimo, umas 10 mil roupas da Ku Klux Klan, e se move como um fantasma que persegue gerações e gerações.

Não é fácil derrotar um inimigo desse tamanho. É necessário expô-lo, fazer sua maldade ser vista com o mesmo tamanho que enxergam sua imponência. Por isso as câmeras são fundamentais. Tem que ser na base da estratégia e força e, por vezes, negros não tem o direito de pensar, só de agir. Por isso é importante entender o calcanhar de Aquiles de quem quer te consumir. Às vezes é a sede pelo poder, às vezes é a ira de perceber que a equidade está chegando, mesmo que seja em passos lentos.

A nuvem que aterroriza o rancho Haywood

O monstro branco que aterrorizou o rancho Haywood queria engolir tudo e todos, queria ir o mais alto que pudesse, para poder, quem sabe, vigiar o maior número de pessoas, ter o controle de tudo, abrir todas as portas, talvez até controlar a gravidade, se assim ele se entendesse digno. E enfim, termina o espetáculo que a dominação sempre acha necessário. Por que partilhar de uma vivência se posso subjugá-la? E, depois disso, o opressor entende-se no direito de fazer piada com tudo que ousar “ferir” a sua existência.

Porém, na já citada narrativa otimista criada por Peele, em algum momento as coisas saem do controle, ou melhor, voltam para as mãos das quais não deveriam ter saído. Por isso Não, Não Olhe! também é um filme sobre a retomada de rédeas, sem se importar se isso fará o dominador correr para debaixo da mesa com cara de espanto, ao perceber que as coisas não estão mais sob seu controle.

Para Jordan Peele, há um final feliz. E ele vem na figura de um negro na contraluz em cima de um cavalo, exalando imponência e heroísmo. Para o público, também, esse final vem em mais uma obra genial do autor que está mudando a realidade das obras audiovisuais afrocentradas. Não, Não Olhe! é para todo mundo ver, entender, olhar... sim, sim, olhe!

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