Logo do Jovem Nerd
PodcastsNotíciasVídeos
Além da nostalgia: como a realidade tornou o retorno de Matrix uma boa ideia
Filmes

Além da nostalgia: como a realidade tornou o retorno de Matrix uma boa ideia

Mais do que uma aposta em lucro certo, Matrix Resurrections chega em um momento oportuno

Gabriel Avila
Gabriel Avila
10.set.21 às 12h23
Atualizado há mais de 3 anos
Além da nostalgia: como a realidade tornou o retorno de Matrix uma boa ideia

O anúncio de que Matrix ganharia um quarto filme foi recebido com um misto de alegria e descrença pelo público. Isso porque a indústria cultural vive um momento de retorno a franquias já estabelecidas para lucrar em nome da nostalgia. Essa estratégia não é segredo — e certamente tem certa influência na volta de Neo e companhia —, mas Matrix Resurrections é um caso raro em que isso pode ser, de fato, uma boa ideia.

Essa resistência com um novo Matrix não é coisa de “fã chato”, já que as próprias irmãs Wachowski, diretoras e roteiristas dos originais, passaram anos negando propostas para fazer o quarto filme. Lilly chegou a criticar como estúdios aprovam reboots e continuações pensando apenas em lucro, e disse que a ideia de voltar à Matrix era “particularmente repulsiva”.

Com o passar do tempo, a possibilidade pareceu mais atraente até que Lana aceitou retornar para a sequência com a bênção de Lilly, que não participa de Matrix Resurrections, mas diz ter esperanças de que o filme seja ainda melhor que o primeiro. Considerando que dinheiro nunca foi um problema, o que teria motivado as criadoras a mudar de ideia? Um forte indício está no fato de que a realidade também mudou, e criou o ambiente perfeito para que Matrix se faça relevante novamente.

Em primeiro lugar, nosso relacionamento com a tecnologia mudou. O Matrix de 1999 utilizava televisões de tubo e a novidade dos telefones celulares para tecer comentários sobre controle e ilusão. Mais de 20 anos depois, temos smartphones com possibilidades infinitas não apenas de comunicação, mas também de entretenimento, negócios e muito mais.

Além de trazer novas possibilidades narrativas, o avanço tecnológico também traz consigo os debates a respeito dos efeitos que os dispositivos podem causar nas pessoas. Temas como vício em tecnologia ou até o efeito de redes sociais na saúde mental dos usuários podem ser facilmente conectados em uma história em que a humanidade é controlada por máquinas.

O momento atual da tecnologia no mundo real também pode ser relacionado a outro tema forte em Matrix: a realidade. Em um dos diálogos mais icônicos da franquia, Neo pergunta a Morpheus se onde se encontram “é real”. Cheia de significados simbólicos para a trama em 1999, essa pergunta poderia facilmente ser recontextualizada para uma era, onde a verdade se tornou quase um detalhe.

Nos últimos anos, vimos a materialização da pós-verdade, conceito que segundo o dicionário da Universidade de Oxford é uma “situação em que as pessoas estão mais propensas a aceitar um argumento baseado nas próprias emoções e crenças do que em fatos”. Isso só foi possível graças à proliferação de fake news e algoritmos que lucram com desinformação ao ponto de pouco fazer para combatê-las.

Esse tópico, inclusive, chegou até Matrix na vida real. Recentemente, a extrema-direita tentou cooptar a pílula vermelha como símbolo para “despertar para a verdade” como forma de propagar negacionismo disfarçando como uma “verdade dura”. Personalidades como o bilionário Elon Musk, Ivanka Trump, filha de Donald, e até o ex-Ministro da Educação do Brasil, Abraham Weintraub chegaram a fazer referência a isso. Nas três oportunidades, Lilly Wachowski — que descreveu a trilogia original como metáfora para pessoas trans — fez questão de responder: “vai se f@$*&”.

Sendo o conceito de realidade e verdade temas muito importantes para a franquia, seria quase lógico se eventos como esse servissem de inspiração para o novo filme. Em uma das mais icônicas cenas do filme original, Morpheus explica a Neo como o sistema da Matrix faz de tudo para se proteger, inclusive seduzir os próprios humanos para protegê-la. Isso tudo décadas antes de redes sociais e algoritmos chegarem ao ponto de interferir em tantos aspectos das nossas vidas e até nas eleições.

O lado bom da tecnologia

Por outro lado, a evolução tecnológica pode ter trazido inspirações mais positivas para o novo Matrix. A computação gráfica também avançou de forma impressionante desde que a trilogia original chegou ao fim, o que por si só traz novas possibilidades que sequer existiam há duas décadas atrás.

Não que os primeiros filmes tenham um visual datado. Mesmo com o envelhecimento dos efeitos visuais da época, ainda é bastante impressionante assistir a cenas como a que Neo desvia de balas ou luta contra dezenas de Agentes Smith. Isso porque já na década de 1990, a produção soube equilibrar coreografias de luta, efeitos práticos e computação gráfica de primeira para a época.

Imagine então o que pode sair de um novo Matrix com recursos de uma época em que Hollywood gasta milhões de dólares em efeitos visuais por saber que o público é atraído por esse fator. Tenha em mente que Matrix Revolutions (2003) é anterior a filmes como Avatar (2009), a nova trilogia de Planeta dos Macacos, franquias bilionárias como o Universo Cinematográfico da Marvel e também os novos episódios de Star Wars, que foram aclamados por trazer avanços na criação de seus universos fantásticos.

O fator humano

Por fim, há também uma boa razão para Matrix voltar sem relação com tecnologia: o retorno triunfal dos filmes de ação. Não que o gênero tenha caído na obscuridade, ele sempre esteve por aqui, rendendo bilheterias astronômicas e fazendo o nome de astros como Dwayne Johnson, Vin Diesel, Jason Statham e muitos, muitos outros.

Porém, é inegável que o gênero ganhou um novo fôlego recentemente com a chegada de dublês na cadeira de direção. Em filmes como Atômica (2017), Deadpool (2016), Resgate (2020) e tantos outros, Hollywood voltou a trabalhar porradaria com mais cuidado e carinho. Aos poucos os embates cheios de cortes gravados com câmeras trêmulas deu lugar a uma limpeza que priorizava um melhor aproveitamento das coreografias de ação.

E é claro que o grande precursor desse tipo de filme é a franquia John Wick, que não apenas trouxe os holofotes de volta para Keanu Reeves, como também influenciou toda a forma de se pensar e filmar ação. O fato de que o primeiro filme foi co-dirigido por dois ex-dublês de Matrix reforça não apenas o quanto a franquia fez bonito nos anos 1990, como também cria grandes expectativas para que o novo filme eleve ainda mais o patamar do gênero.

Desde sua concepção, Matrix soube transformar zeitgeist, o "espírito de sua época", em arte. É até curioso como conseguiram encapsular em duas horas esperanças, temores e gostos que permeavam a cultura ocidental na virada do milênio. Considerando a forma como a tecnologia se tornou ainda mais presente — e cada vez mais intrometida —, parece uma boa hora para Neo despertar novamente.

Veja mais sobre

Encontrou algum erro neste conteúdo?

Envie seu comentário

Veja mais

Utilizamos cookies e tecnologias semelhantes para melhorar a sua experiência em nossas plataformas, personalizar publicidade e recomendar conteúdo de seu interesse. Ao continuar navegando, você concorda com estas condições.
Para mais informações, consulte nossa Política de Privacidade.
Capa do podcast