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Candyman está muito mais próximo do que parece
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Candyman está muito mais próximo do que parece

Diga o nome dele...

Anderson Shon
Anderson Shon
30.ago.21 às 18h01
Atualizado há mais de 3 anos
Candyman está muito mais próximo do que parece

Em 1984 nascia Candyman, personagem de Clive Barker antagonizando o conto The Forbidden. O conto fez parte do Livros de Sangue, coleção de contos do autor que rendeu algumas adaptações para o cinema, como O Mestre das Ilusões, A Maldição de Quicksilver e o mais famoso O Mistério de Candyman, lançado nas telonas em 1992.

O cenário dessa narrativa é um conjunto habitacional onde as pessoas vivem ancoradas na exclusão social e dependem da própria união para sobreviverem. A vizinhança é formada por negros e negras com trabalhos subalternos, não há luxo, mas sim a luta diária em busca do mínimo para sustentar suas famílias. Dominada por gangues, os moradores de Cabrini-Green convivem cotidianamente com a violência e com mortes inexplicáveis as quais atribuem a uma lenda urbana chamada de Candyman.

Existe aí uma crítica interessante à violência social, quando o governo não atua em determinado local, abre o espaço para um poder paralelo repressor. A fuga psicológica desse estado de caos pode vir de várias formas, nesse caso, se transfigurou em uma presença mítica que fica passeando entre o real e o irreal. Todos de Cabrini-Green sabem que Candyman existe, mas o leitor do conto é levado a essa dúvida constantemente.

Helen, a protagonista do conto, está fazendo uma pesquisa sobre grafites e vê em Cabrini-Green um local interessante para tirar fotos sobre a arte. Essa sua atenção a uma arte tida como marginalizada carrega o conceito de gentrificação, termo utilizado para explicar o comportamento de pessoas de classes mais altas que se aproximam de comunidades, moradias mais pobres, locais com degradação física com o intuito de utilizar daquele cenário como objeto de estudo, seja para ganho pessoal, ganho coletivo de uma determinada classe ou só por uma curiosidade.

Helen não tinha o objetivo de devolver nada para a comunidade de Cabrini-Green. Ela foi adentrando, investigando o local até conhecer os moradores e assim ficar sabendo de um tal de Candyman. O termo gentrificação não existe no conto, mas na adaptação de 2021 é verbalizado pelo protagonista ao discutir com uma crítica de arte.

Candyman...

O Mistério de Candyman, adaptação cinematográfica de 92, tem um roteiro bem fiel ao conto e acrescenta uma história de origem ao Candyman, dando um peso interessante a história, porém sem explorar mais do potencial que o próprio diretor gerou ao pensar em como a entidade nasceu.

Trecho do filme O Mistério de Candyman, de 1992 Trecho do filme O Mistério de Candyman, de 1992

Daniel Robitaille é o seu nome original, mas ele passou a atender por Candyman depois de sofrer uma cruel e horrível morte. Daniel era filho de escravizados, mas conseguiu escapar dessa vida de sofrimento por conta da sua habilidade com pinturas. Um rico fazendeiro o contratou para pintar um quadro com a imagem da sua filha.

Os dois viveram um intenso amor proibido, que resultou na gravidez dela e quando o seu pai descobriu, mandou torturar e matar Daniel. Os capangas do fazendeiro cortaram sua mão direita e enfiaram no local um gancho enferrujado, encheram o seu corpo de mel e liberaram abelhas, para que elas pudessem picá-lo até a morte. Mostrando total insensibilidade, as pessoas ao redor zombaram da cena chamando-o de "homem doce", ou melhor, Candyman.

"Eles amam o que fazemos, mas não a nós." A frase é dita pelo personagem William mostra como os fazendeiros amavam a arte de Daniel, mas não a ele. Ela traz um paralelo com a sociedade atual, pois a uma reverência aos turbantes, às danças, às músicas, à literatura, mas não necessariamente a quem as produz.

A substituição da mão que carregava um pincel por uma mão de gancho é simbólica, nos mostrando que, por mais habilidosos que sejam os negros, no fundo a sociedade quer tenta colocá-los como uma ameaça.

Candyman...

A história de Clive Barker tem um potencial de ser muito mais do que só um serial killer sobrenatural amarrado por uma lenda urbana. Candyman aparece quando falam o nome dele cinco vezes na frente do espelho, é uma espécie de loira do banheiro com cabelo crespo. Diferente de Freddy Krueger ou Chuck, Candyman apresenta um arcabouço histórico bem interessante e que merece um aprofundamento.

A prática de torturar negros (escravizados ou não) como exemplo do que o "mal comportamento" poderia gerar era cotidiano em fazendas e muitas vezes o fato só ocorria para demonstrar uma superioridade diante dos outros escravizados, como um modo de manter todos dentro da "rédea".

“Na sociedade escravista brasileira, em engenhos de cana-de-açúcar do nordeste e em fazendas cafeeiras do sul, as crueldades de senhores e feitores alcançam níveis extremos e incríveis: novenas e trezenas de matar”. O trecho do artigo do historiador Vilson Pereira do Santos mostra que a maldade sofrida por Candyman poderia ter acontecido em diversos pontos do mundo onde a escravidão era uma rotina. Nosso passado não tem nada de doce.

Candyman...

Há alguns temas que são delicados de serem trabalhados e até a arte, por mais libertária que seja, teme em tocá-los. O terror até usa boas alegorias para tratar de forma subjetiva temas espinhosos, mas essa subjetividade, por vezes, não deixa o pública enxergar além de uma primeira camada.

Logo, Tratar temas como a escravidão em narrativas que não sejam dramáticas é um desafio, talvez por isso a escolha de fazer do Candyman um negro livre, pois o autor Clive Barker - um homem branco - pode não ter se sentindo à vontade em mexer nesse vespeiro... Ou melhor, nessa colmeia, já que, além do gancho na mão direita, Candyman tem seu peito preenchido por abelhas.

Suas vítimas não tem relação com sua origem, no filme de 1992 ele esquarteja uma mulher negra só para enlouquecer e acabar de vez com a vida de Helen. É mais um desperdício de profundidade que pode ser explicado pelo fato de Bernard Rose, diretor do filme, e Clive Barker, autor do conto, não serem negros, fato que pode ter impedido que uma visão mais visceral emergisse na hora de construir uma entidade sombria que carrega tanta ira em si. A figura de um homem negro com um gancho na mão e um passado atormentado pelos fantasmas da escravidão já me suscita tantas ideias que seria difícil ficar na superficialidade com um personagem que abre tantas possibilidades.

Candyman...

A Lenda de Candyman (2021) é uma sequência direta do filme de 1992. Há um diretor hollywoodiano que não perderia a oportunidade de trabalhar com um personagem tão mergulhado em questões raciais... Quem será? Se você chamar Jordan Peele cinco vezes na frente do espelho, ele aparece dirigindo, roteirizando ou produzindo alguma obra audiovisual com temática sociorracial.

Trecho do filme A Lenda de Candyman, de 2021 Trecho do filme A Lenda de Candyman, de 2021

Jordan fez seu nome na comédia, mas sua paixão por terror vem de cedo, nasceu em um acampamento com amigos, quando passaram a noite contando histórias macabras. A reação dos ouvintes encantou Jordan, mas, já na escola de artes, ele preferiu a comédia por não enxergar representação negra no terror, o que dificultaria sua entrada no mundo das artes cênicas. MadTv foi sua primeira grande chance na TV, onde ele se destacou por causa da sua capacidade de imitação de celebridades negras. O sucesso veio mesmo em Key & Peele, programa de comédia que lhe rendeu um Emmy.

Com reconhecimento de crítica e público, Peele se sentiu mais a vontade de tirar as antigas ideias da gaveta e com a ajuda do produtor Sean McKittrick estreou com Corra!, filme que custou pouco mais de quatro milhões e rendeu mais de duzentos milhões, ainda conseguindo quatro indicações ao Oscar e a vitória em roteiro original. Jordan Peele não é só um diretor de sucesso, seu faro para grandes obras o levou a produzir Infiltrados na Klan, Lovecraft Country e Twilight Zone.

A Lenda de Candyman chegou aos cinemas com o "carimbo Peele" de produção e roteiro, que responsabilidade! Dirigido por Nia daCosta - a diretora escolhida para dirigir de The Marvels, continuação de Capitã Marvel -, o longa terá exatamente o que faltou no conto e no filme de 1992; negros no processo criativo da obra.

A inserção de pessoas que leem melhor o personagem pode ser vista na nova narrativa que traz em si um debate antirracista que tem como foco o enfrentamento. Candyman, diferente do original, não mata negros, pois o alvo de sua ira tem a pele alva.

Suas mortes são providenciais; o agente de arte que se portava como se entendesse mais da arte de um negro do que o próprio negro, a crítica de arte que via arte suburbana como algo inferior, as garotas populares da escola que faziam bullying com a menina negra e os policiais corruptos prontos para enforcar alguém até a morte. Candyman aparece como uma figura vingadora, ele não é somente Daniel Robitaille, ele é o Emmett Till, é o João Alberto Silveira Freitas, é o George Floyd, é a Kathlen Romeu...

Falar que o racismo é o principal vilão do filme é chover no molhado, mas é preciso fazer essa ressalva como concordância ao que foi dito anteriormente; o personagem foi muito bem construído, mas mal utilizado, pois faltava melanina ao seu autor para entender realmente o seu papel. Essa crítica é feita sutilmente no novo filme, há um agente de arte com o nome de Clive, um homem branco arrogante que acha que entende da arte de um pintor negro mais do que o mesmo. Clive é o nome do autor do conto.

A relação de ancestralidade do personagem principal com o Candyman é característico de tribos africanas e religiões de cultura afro. No novo filme, A Lenda de Candyman, ele não está só associado ao espelho, não é um chamamento pueril, é uma convocação para que aqueles que continuam se sentindo superiores, só por conta da cor da pele, possam pagar por isso.

Candyman nasce ao ser exposto como exemplo do que negros não podiam fazer e retorna para utilizar a mesma dor sofrida como arma para mostrar como brancos não devem agir. Vale a ressalva que a violência utilizada na narrativa é um aparato ficcional para propor reflexão, ninguém é a favor do uso de violência como forma de resolver problemas. O ódio só gera ódio.

O baixo orçamento do filme - U$12 milhões - é um aspecto positivo para a modalidade de terror renascida pelo Jordan Peele. Se tem alguém que pode tocar em assuntos mais espinhosos relacionados ao povo negro é ele, assim como as séries Them e Lovecraft Country fizeram com bastante coragem ao construirem um cenário ficcional de horror onde já se tinha um cenário real de horror; a década de 1950 no sul dos EUA.

A Lenda de Candyman pode trazer pra luz um personagem que guarda em si debates bem interessantes sobre negritude e mostrar como assuntos difíceis, como a escravidão, podem ser utilizados a partir de vários gêneros, logicamente, se construídos com responsabilidade e bom senso.

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