Wolfenstein: Youngblood | Review

Embora tenha alguns bons momentos, o jogo é uma experiência vazia e repetitiva que não faz jus ao legado da franquia

Jefferson Sato Publicado por Jefferson Sato
Wolfenstein: Youngblood | Review

Desde que o estúdio MachineGames assumiu o desenvolvimento dos jogos de Wolfenstein, a franquia tem passado por um renascimento positivo e, em geral, bem recebido. Sendo assim, a expectativa alta para Wolfenstein: Youngblood é natural entre os fãs. Comigo não foi diferente.

Gostei muito do último título, Wolfenstein II: The New Colossus (2017), então quando soube que a Arkane Studios, da franquia Dishonored, participaria do desenvolvimento de Youngblood, fiquei muito animado. Para mim, quase era a definição da expressão: “unir o útil ao agradável”.

No entanto, o que parecia uma frutífera parceria rendeu um produto mediano, com uma experiência cansativa e sem conseguir aproveitar o melhor do que cada uma das desenvolvedoras tinha para oferecer.

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É o que todos queremos saber…

As irmãs e um monte de Zé Ninguém

Uma das coisas que mais gosto na franquia atualmente é como ela tenta mostrar uma realidade paralela, em que os nazistas persistiram, de forma hilária, mas ainda assim intensa e sombria, ao mesmo tempo mantendo o balanço entre história e jogabilidade. The New Colossus, em particular, foi excelente nisso, e Youngblood parecia que ia seguir os mesmos passos, mas essa promessa não passou dos primeiros minutos.

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A história é essa: as gêmeas Jessica e Sophia fugiram de casa para encontrar o pai sumido delas, B.J. Blazkowicz, o protagonista dos outros jogos anteriores. As irmãs me pareceram interessantíssimas no começo. São jovens, inconsequentes e completamente malucas – bem parecidas com o pai. Me apaixonei imediatamente pelas personalidades das duas e pelas interações entre elas: meio sacanas, mas carinhosas entre si.

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Jess e Soph são divertidas e doidas. Adorei!

Seria maravilhoso acompanhar o desenvolvimento das duas ao longo da jornada, pensei. Mas este futuro promissor é interrompido rapidamente para dar lugar a missões e mapas repetitivos, um sistema de progressão cansativo e pouco foco nas gêmeas. Ou na história. Ou em qualquer coisa interessante, na verdade.

Assim que a primeira missão acaba, recebemos os próximos objetivos principais, mas é aí que começa o problema: não dá para concluí-los ainda, porque são tarefas de alto nível. Isso mesmo, como num RPG – um bem ruim, no caso. Logo de cara, Youngblood coloca o jogador na obrigação de ir atrás de (muitos) pontos de experiência para poder prosseguir na história. A coisa menos Wolfenstein que a franquia já teve.

O que se segue são horas de missões desinteressantes e sem sentido, que forçam o jogador a retornar aos mesmos mapas e matar os mesmos inimigos diversas vezes, tudo para ganhar alguns níveis, acessar as próximas missões insignificantes e assim por diante. Até mesmo contamos com objetivos diários e semanais para tentar acelerar o processo. Coisas como eliminar uma certa quantidade de um inimigo específico ou explodir um determinado número de carros nas ruas. A verdade é que tudo isso parece mais com o progresso maçante e repetitivo de um MMORPG genérico ou de um jogo mobile gratuito – não um título AAA no qual você pagou caro.

Mas tudo bem, porque se o processo for muito entediante, é fácil resolver: basta comprar itens que aumentam seus atributos ou seu ganho de experiência com dinheiro real. Afinal, era justamente de microtransações que este jogo precisava mesmo, não é mesmo?

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Vai um impulso de experiência diferenciado aí?

Quando a campanha finalmente decide prosseguir com a história, já dá logo de cara uma reviravolta, que espera surpresa e empatia do jogador. Mas nenhuma das personagens envolvidas foram desenvolvidas, não dá tempo de criar uma conexão com elas. Não dá para se importar ou se impressionar com o que elas fazem e com os acontecimentos.

O mesmo vale para os vilões. Enquanto os antagonistas dos títulos anteriores foram trabalhados para o jogador sentir raiva e querer vê-los falhar e cair, isso não acontece aqui. No lugar, temos inimigos megalomaníacos genéricos que provavelmente seriam muito interessantes e odiosos, caso tivessem tido mais tempo para serem explorados.

No fim da jornada me senti indiferente. Não parecia uma vitória importante contra um maluco opressor com uma visão deturpada do mal de seus feitos, que é o que as cenas finais tentam mostrar. Era só um fim de jogo. Só suba logo os créditos.

Antes mal acompanhada do que só?

Logo no início, é preciso escolher algumas armas e habilidades iniciais, além de com quem deseja jogar: Jess ou Soph. Não há diferença nenhuma entre as duas, já que ambas têm acesso às mesmas armas e habilidades. Quem você não selecionar continuará seguindo sua personagem e “ajudando” ao longo da campanha, seja controlada pela inteligência artificial (que é péssima, por sinal) ou por outro jogador online. O trabalho em equipe pode ser essencial em algumas situações, então imagine só qual das duas opções é melhor.

Um bom exemplo é que, ao perder toda a saúde, as personagens caem no chão, permitindo que a outra a “reviva”. Caso as duas sejam derrubadas juntas, a equipe perde uma vida de um total de três. Se todas as vidas acabarem, a dupla precisará recomeçar a missão. Neste tipo de situação, é natural a pessoa ainda de pé correr para ajudar a outra – uma urgência que a inteligência artificial não parece entender muito bem.

Aliás, descobri da pior forma possível (morrendo) que o jogo não pausa quando abrimos os menus. Por ser um game online, o título continua rodando, independente do seu menu estar aberto. O que faz sentido, é claro. O problema é que é impossível parar o jogo mesmo no modo off-line. Então boa sorte, caso precise fazer algo importante no meio da jogatina.

Falhas à parte, uma boa notícia: a jogabilidade durante o tiroteio é bem sólida – como era de se esperar da franquia. Há bastante armas para brincar, incluindo algumas velhas conhecidas, e usá-las é bastante satisfatório. Mas ainda assim há problemas.

Desta vez, os inimigos têm defesas específicas, sendo cada uma vulnerável a um tipo de munição distinto. Essa mecânica provavelmente foi adicionada para incentivar o uso de diferentes armas, mas senti que isso tirou minha liberdade e acabei me atendo a apenas algumas. Afinal, é difícil parar para pensar em como vai matar um inimigo em particular quando você está levando tiros de todos os lados.

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Acho que uma arma laser gigante deveria ser efetiva contra qualquer coisa…

As habilidades que podemos comprar conforme passamos de nível também me pareceram, na maioria, inúteis. Tirando aumentar a vida e a armadura máxima ou comprar melhorias para as armas, vi pouco incentivo para usá-las.

Inclusive, há umas poucas habilidades de furtividade, e não dá para entender por que elas existem. Há pouquíssimas oportunidades para usá-las, já que o jogo não encoraja esse tipo de abordagem. Além disso, assim que alguém o vê (o que acontece, basicamente, sempre), o alarme magicamente é acionado e você precisa lidar com hordas de adversários diretamente.

Fora das batalhas, a coisa fica ainda pior. Como comentei anteriormente, é obrigatório passar pelos mesmos mapas inúmeras vezes. Aliás, é normal terminar uma missão e voltar para a base, só para receber outra tarefa pedindo para que você retorne nesse mesmo local de novo. Muito empolgante…

Uma das grandes qualidades da Arkane Studios é sua abordagem para level design, ou seja, como os ambientes são construídos. A desenvolvedora ficou famosa por isso, apresentando fases abertas que incentivam a exploração e diferentes abordagens possíveis para um mesmo problema. Youngblood tenta fazer o mesmo, mas falha. E muito.

Para começar, embora os mapas sejam abertos para serem explorados, é normal encontrar inimigos superpoderosos que não podem ser derrotados com um nível baixo ou locais que só são acessíveis com o progresso da história.

Também não há incentivo nenhum para explorar estes lugares. Eles são todos visualmente parecidos e desinteressantes. Existem vários colecionáveis escondidos, mas não há nenhuma recompensa relevante por encontrá-los, a menos que queira fazer o jogo 100% ou esteja interessado em artes conceituais e outros conteúdos do tipo. Em termos de jogabilidade, no entanto, não há vantagem.

Nas Catacumbas, que é sua base de operações, onde você tem um tempo para respirar entre uma missão e outra, é igualmente entediante. Esta devia ser a oportunidade de desenvolver as personagens secundárias da Resistência e suas relações com as gêmeas, mas isso não acontece. Tudo o que dá para fazer no local é conseguir mais missões e brincar nas máquinas de Arcade com versões alternativas do clássico Wolfenstein 3D – uma distração que achei muito mais divertida do que a campanha principal.

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Os clássicos sempre são bem-vindos!

Wolfenstein, mas não muito

Todas essas reclamações podem fazer parecer que é um jogo ruim. Não é. Ele tem seus momentos, matar nazistas continua divertido e as irmãs gêmeas, nos poucos momentos em que são trabalhadas, são ótimas personagens.

Mas como sucessor de Wolfenstein, é um título decepcionante e não faz jus ao que a franquia construiu nos últimos anos. Vale a pena jogar se a oportunidade surgir, principalmente se for para curtir com um amigo. Caso contrário, não se preocupe muito, porque não está perdendo nada excepcional.


Wolfenstein: Youngblood está disponível para PC, Nintendo Switch, Xbox One e PlayStation 4. Este review foi feito com uma cópia para PlayStation 4 cedida pela Bethesda.