A Way Out | Review

Uma grande jornada entre dois amigos em busca da liberdade

Flávio Priori Publicado por Flávio Priori
A Way Out | Review

Na última edição da E3, uma das gratas surpresas anunciadas foi A Way Out, projeto desenvolvido pela Hazelight, cuja autoria é de Josef Fares — mente responsável pelo ótimo Brothers: A Tale of Two Sons, de 2013. Fares novamente traz uma proposta diferente, na qual jogabilidade e narrativa se ligam de maneira única, mas agora de forma muito mais ousada do que em seu trabalho anterior.

A Way Out é uma experiência que deve necessariamente ser jogada por duas pessoas ao mesmo tempo, ambas avançando juntas pela campanha e dividindo a mesma tela, seja online ou localmente. Esse sistema certamente é bem diferente ao qual estamos habituados, mas é exatamente isso que torna esse jogo algo especial. Aliás, se você quiser saber um pouco mais sobre os bastidores do jogo, conversamos com Josef Fares.

Uma jornada inesperada

Como um game que demanda uma dupla de jogadores, recrutei minha namorada para dividir essa tarefa comigo. Ela assumiu o posto de Leo Caruso, explosivo, piadista e já preso por seis meses de uma pena de oito anos. Eu incorporei Vincent Moretti, hábil com as palavras, reservado e condenado a 14 anos de prisão. O jogo se passa em 1972 e começa exatamente no dia da chegada de Vincent à prisão.

Os personagens são muito bem construídos e embora a evolução deles seja algo contínuo ao longo da história, algumas passagens inicias já bastam para começarmos a criar um vínculo com suas histórias. Vincent, por ser um novato, é mais comedido, mas capaz de pegar pequenos detalhes e usar isso ao seu favor. Leo, por outro lado, é o típico cara que bate primeiro e pergunta depois, fazendo com que algumas das cenas mais engraçadas venham dele.

Logo nos primeiros momentos já arrumamos boas confusões

Assim, os dois protagonistas vão aos poucos se unindo, movidos por objetivos em comum. Inicialmente, esse plot até pode parecer meio clichê, mas antes da primeira hora de jogo minha namorada e eu já havíamos sacado que não estávamos diante de um game cooperativo qualquer. Os pontos de vista e o gameplay divididos logo no início de A Way Out ajudam a impactar os jogadores os fazendo entender que a campanha trará algo especial. As mudanças de enquadramentos das duas telas e a ótima direção de arte ajudam muito nesse aspecto.

A compreensão do que realmente Josef Fares quer dizer com sua obra ficou mais evidente quando tive a percepção de que eu não tinha o controle de tudo. A condução do game não depende de uma pessoa só, mas da dupla. Essa dependência do outro é o que ajuda a estabelecer uma das mensagens centrais de A Way Out: confiança. Dentro da história, Leo e Vincent vão aos poucos compreendendo que só podem alcançar o que desejam ao trabalharem em equipe.

É divertido ver seu amigo arrumando confusão de graça, assim como é angustiante vê-lo em perigo e não poder fazer nada. Ao mesmo tempo, certas sequências dependem do trabalho em conjunto dos dois jogadores. Essas alternâncias criam ótimos momentos compartilhados só por aquelas duas pessoas jogando. E isso torna a experiência de jogar A Way Out extremamente memorável.

Sol nascendo quadrado nunca mais!

Rota de Fuga

A magia de A Way Out funciona não só por seu enredo e personagens, mas também por suas partes de gameplay. A jogabilidade do game conversa muito bem com a narrativa e o mundo concebido pela Hazelight.

No geral, temos o revezamento entre momentos estratégicos (com quebra-cabeças e situações que envolvem um planejamento) e sequencias de ação (de brigas até perseguições em estradas). A alternância entre esses dois momentos é muito bem-feita, com mecânicas novas inseridas constantemente e sendo usadas somente quando o necessário. O ritmo de progressão é digno de parabéns, tornando o ato de jogar algo divertido do começo ao fim.

Algo que me chamou atenção nos quebra-cabeças foi que além de alguns terem mais de uma solução, o mesmo plano pode ocorrer de diferentes formas, dependendo do personagem que executar as ações: enquanto Vincent tem sempre uma boa lábia, as alternativas de Leo geralmente acabam com alguém desmaiado no canto da sala.

Os dois personagens têm total liberdade para se moverem e interagirem com NPCs

Ao longo da campanha existem diversos NPCs que nos propiciam pequenas linhas de diálogo. Na maior parte dos casos não há uma função prática para essas conversas, mas elas ajudam a dar mais vida ao universo de A Way Out. Algumas expõem mais das personalidades de Vincent e Leo, outras simplesmente geram momentos engraçados. E é bem divertido ver como cada protagonista reage de forma bem distinta das mesmas situações.

Além desses diálogos, outro bom motivo para explorar os cenários são os diversos mini games espalhados por eles. Novamente o jogo me surpreendeu pela quantidade e variedade desses passatempos que servem unicamente como uma diversão extra. É muito legal simplesmente parar tudo e tirar um contra no arremesso de ferradura, por exemplo. E mostrar pro seu amiguinho quem é melhor, é claro.

Nunca deixe de tirar um som quando a oportunidade surgir

Amigo é coisa para se guardar

Além do cooperativo local, A Way Out também oferece a opção on-line, que também tem um funcionamento bem específico. Não há matchmaking, companheiros de jogo só podem ser chamados por convite da lista de amigos da plataforma. Contudo, o game traz um recurso chamado Friend Pass, que permite convidar um amigo mesmo que ele não tenha o título. Com uma só cópia duas pessoas podem jogar por toda a campanha.

No papel, a ideia é ótima. Infelizmente, não consegui testar essa funcionalidade pois o acesso estava travado pela PSN. Isso ocorreu, pelo que entendi, pois o jogo não havia sido lançado oficialmente (já que tivemos acesso antecipado). Vale citar que pelo que foi divulgado, ambos os jogadores deverão ser assinantes da PlayStation Plus ou Xbox Live Gold, serviços que permitem o multiplayer online nos respectivos consoles.

Se a canoa não virar eu acho que chego lá

Um sonho de liberdade

A Way Out surgiu como um projeto inusitado, com muitas dúvidas e desconfianças especialmente por ser um game que só pode ser jogado por duas pessoas, sempre com a tela dividida. O que poderia ser só um chamariz barato se mostrou totalmente justificado. Não poderia ser diferente para criar o impacto que a obra se propõe a trazer. Tudo foi desenvolvido em cima da premissa de dois jogadores juntos.

Josef Fares soube criar uma história com ótimos personagens em uma trama que gira em torno da amizade ao mesmo tempo que encontrou uma forma de transpor isso para os jogadores. Junto a isso soube equilibrar o fluxo do gameplay, não o deixando repetitivo e sempre nos instigando a avançar para o próximo passo.

A ideia do desenvolvedor era resgatar o bom e velho “multiplayer de sofá” e foi exatamente isso que ele conseguiu. Fico feliz que essa aposta tenha dado certo.


A Way Out está disponível para PC, Xbox One e Playstation 4. Esse review foi feito com uma cópia para PS4 cedida pela EA.