Top Gun: Maverick | Crítica

Usando toda a força da nostalgia, continuação aproveita herança do filme original para superá-lo

Gabriel Avila Publicado por Gabriel Avila
Top Gun: Maverick | Crítica

Na literatura, é muito comum encontrar o arquétipo do “outsider”, uma expressão em língua inglesa usada para definir o indivíduo que não se encaixa em um determinado grupo – geralmente a sociedade. O cinema é cheio de outsiders, mas talvez nenhum deles tenha incorporado a definição com tanto charme e firmeza quanto Pete “Maverick” Mitchell, o personagem de Tom Cruise em Top Gun – Ases Indomáveis (1986).

A natureza instável de um piloto exímio que tinha como grande inimigo o próprio ego foi o fio condutor de um dos filmes de ação mais famosos dos anos 80. Responsável por apresentar a “perdida arte do combate aéreo” a toda uma geração, a produção levou mais de 30 anos até ganhar uma continuação com Top Gun: Maverick.

Lançado na era mais saudosista de Hollywood, em que os estúdios investem cada vez mais em continuações ou reboots de grandes sucessos, Maverick tinha a delicada missão de atualizar a franquia e se manter fiel ao que tornou o primeiro tão amado. A resposta encontrada pelo longa foi um mergulho sincero no passado para encaixar a fábula do outsider oitentista nos anos 2020 usando a herança de Top Gun como ponto de partida.

Quase quatro décadas depois, a produção mostra Pete Maverick treinando uma nova turma da Top Gun para executar uma missão difícil que pode custar a vida dos pilotos. Se essa premissa abre vários caminhos para a história trilhar, do revisionismo à paródia, o roteiro decide recriar a magia do primeiro filme ao pegar muitos de seus elementos emprestados.

Ao invés de subverter o que já se conhecia de Top Gun ou revisitar esse universo com um olhar crítico, a continuação está mais interessada em reviver um momento que foi tão marcante para o cinema de ação.

Sabendo que o fã da franquia vai voltar aos cinemas em busca da mesma adrenalina com toques de humor e romance, a continuação não tem o menor pudor ao recriar cenas inteiras da produção original. Desde a abertura épica até a repetição dos acordes do memorável tema “Danger Zone”, a continuação propõe rimas constantes com o original – ao ponto de que até mesmo uma personagem nova como Penny Benjamin (Jennifer Connelly) é, na verdade, um nome citado brevemente no longa original.

Esses paralelos chegam a um nível mais profundo, colocando o protagonista de volta à margem do sistema. Mais de 30 anos depois, Maverick segue tendo problemas com autoridade tanto na vida profissional quanto pessoal, um tema marcado pelos constantes lembretes que ele segue preso na patente de capitão, mesmo tendo toda a condição de evoluir e chegar aos mais altos cargos da marinha norte-americana.

É nesse ponto que a continuação encontra sua razão de ser. É claro que Pete poderia ter evoluído e crescido – profissional e mentalmente – como todos de sua turma fizeram, mas então quem restaria para arregaçar as mangas e ensinar o caminho das pedras para a nova geração? Um questionamento que se encaixa com o espaço que a franquia passou a ocupar na história dos filmes de ação.

Enquanto alguns de seus pares buscaram se atualizar para acompanhar as mutáveis sensibilidades do público através do drama, do comentário social ou até da autoparódia, Top Gun se recusa a mudar. E não faz isso com ar de birra, como quem diz que o passado é melhor e o mundo deveria ter parado lá – pelo contrário, a produção faz leva em consideração o mundo que a cerca hoje. Mas essa modernidade é usada para turbinar o resgate de uma experiência que só seus aviões velozes e pilotos obstinados poderiam proporcionar ao público.

É claro que essa recusa traz momentos abertamente bregas, como quando pilotos preferem ter discussões de relacionamento a bordo de máquinas que custam bilhões. Porém, a produção não tenta justificar essa cafonice, que também faz parte da identidade de Top Gun.

Nesse ponto, é importante ressaltar que mesmo usufruindo da herança deixada pelo filme de Tony Scott, a produção se destaca ao refinar suas qualidades para que o espetáculo fique ainda mais completo. Em primeiro lugar, a grande missão é estabelecida logo no início e seus grandes riscos tornam o desafio palpável e recompensador.

Um perigo que também dá o tom de gravidade para a nova história. Enquanto o primeiro trouxe a morte como um evento súbito e imprevisível, o segundo deixa sua sombra no ar desde a primeira cena, o que faz com que cada voo tenha uma dose extra de tensão. Especialmente quando o grande arco de Maverick inclui um acerto de contas com o passado, encarnado no piloto Rooster (Miles Teller).

Grande foco da produção, o relacionamento da dupla é uma das âncoras emocionais da história, que trazem um novo conflito para o protagonista. Ainda que Pete se recuse a mudar, agora ele é o adulto responsável, um papel que traz conflitos internos e externos que levam Top Gun: Maverick além da sombra do original.

Isso dá à direção de Joseph Kosinski (Oblivion) a chance de usar todas as técnicas cinematográficas aprimoradas desde os anos 80 para filmar sequências de ação aéreas impressionantes. Se Top Gun fez um trabalho primoroso ao dar vida a treinamentos e combates emocionantes, Maverick vai além e usa a tecnologia e o comprometimento de um elenco que chegou a fazer treinamento de aviação para ampliar as possibilidades do que pode ser colocado em tela.

É natural que o público, novo ou antigo, chegue a Top Gun: Maverick em busca da adrenalina de sobreviver a um combate aéreo ou do deslumbramento de viajar por paisagens estonteantes. Porém, o verdadeiro trunfo dessa produção é fazer tudo isso através da perspectiva de um outsider que conhece o seu papel e não tem a menor vergonha em desempenhá-lo. Se a gravidade não foi capaz de parar Pete Maverick, que chances o tempo teria?

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