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The Witcher | Conheça a trajetória de Andrzej Sapkowski, o “Tolkien polonês”

Em 2015, a CD Projekt Red lançou The Witcher 3: Wild Hunt, terceiro game da franquia, que obteve sucesso de crítica e público no mundo todo. O que muita gente não sabe, é que a série de jogos é baseada em uma coleção de oito livros (um ainda inédito no Brasil) escrita por Andrzej Sapkowski, autor que, na Europa, é considerado o “Tolkien polonês”.

Apesar de The Witcher não ter muitas semelhanças diretas com a Terra-média de O Senhor dos Anéis, a comparação coloca Sapkowski no posto de o maior escritor de fantasia de seu país, sendo um produto cultural extremamente importante para os poloneses — em um nível tão alto que fez com que o Primeiro Ministro Donald Tusk presenteasse Barack Obama com uma edição autografada do primeiro livro como um símbolo da cultura nacional quando o presidente dos EUA visitou a Polônia em 2011.

De onde saiu Geralt?

A história de The Witcher (ou Wiedźmin, na língua original) começou em 1985. Na época, Sapkowski era um vendedor de roupas de pele e passava boa parte de seu tempo viajando pela Polônia. Como distração nos longos percursos, ele devorava livros de fantasia, com The Chronicles of Amber, de Roger Zelazny, sendo seus favoritos. Naquele ano, Andrzej decidiu participar de um concurso de contos fantásticos promovido pela revista Fantastyka.

Ele tinha 30 páginas para contar uma história. Em entrevista ao EuroGamer, Sapkowski conta que queria mexer com o público polonês de alguma maneira, mas não sabia como fazer isso em um espaço tão limitado. “Eu escrevia cartas de amor maiores do que isso”, conta, “eu era muito bom em escrever cartas de amor, elas sempre amavam as minhas palavras. Mas era muito difícil estar confinado a só 30 páginas”.

A ideia de Geralt surgiu a partir de um velho conto de fadas polonês que conta a história de um sapateiro pobre que acaba matando um dragão que estava aterrorizando seu vilarejo. Sapkowski partiu desse princípio, imaginando um mundo onde existiria uma profissão dedicada à eliminação de monstros.“Sapateiros fazem bons sapatos”, diz, “eles não matam monstros. Soldados e cavaleiros? Eles são idiotas. Sacerdotes? Eles querem dinheiro e adolescentes. Então quem está matando os monstros? Os profissionais. Você não chamaria um sapateiro para isso, chamaria um profissional. E eu inventei o profissional”, conclui.

Foto da revista Fantastyka que publicou o primeiro conto de The Witcher (Foto: Sieradz.pl/Reprodução)

O escritor não ganhou o prêmio máximo do concurso, mas ficou em terceiro lugar e seu conto foi publicado na Fantastyka. Os leitores da revista ficaram empolgados com a história de Geralt de Rívia e começaram a pedir por mais contos. Sapkowski não pretendia escrever mais sobre o Bruxo, mas por conta da demanda, decidiu continuar as aventuras dele.

Ao todo, doze contos foram escritos e posteriormente compilados em dois livros: O Último Desejo e A Espada do Destino. O sucesso foi imediato, e o autor percebeu que seus leitores estavam em busca de uma grande saga de fantasia polonesa para lerem. Com isso em mente, Sapkowski passou a escrever romances com a saga de Geralt de Rívia, que foi finalizada em cinco volumes, publicados entre 1994 e 1999.

O sucesso na Polônia foi imediato, com os livros se tornando best-sellers no país. Em 2001, na trilha do lançamento de O Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel, o estúdio Vision Film decidiu produzir um filme baseado na obra de Sapkowski. No ano seguinte, a empresa lançou uma série de TV focada nas aventuras de Geralt, trazendo de volta o elenco e a equipe criativa do longa. Além disso, na mesma época, a editora MAG lançou um RPG de mesa ambientado no Continente.

O contato com a CD Projekt e o sucesso mundial de Geralt

Pouco depois das primeiras adaptações, o autor começou a conversar com a CD Projekt, que ofereceu “um saco cheio de dinheiro” para ele, negociando os direitos dos livros para transformá-los uma série de jogos. Ele aceitou o acordo, e, em 2007, o estúdio lançou The Witcher para PC e Mac, sendo elogiado pelo público e pela crítica, principalmente por seu sistema de escolhas que alterava a narrativa conforme a vontade do jogador. Duas sequências do game foram feitas: The Witcher 2: Assassins of Kings, de 2011; e The Witcher 3: Wild Hunt, ambas com o mesmo sucesso, fazendo com que a obra de Sapkowski se tornasse famosa mundialmente.

Apesar de terem sido essenciais para o sucesso global de sua obra, o autor detesta os games. “Os jogos são muito bem feitos”, ele disse à EuroGamer, “o sucesso é merecido, e os criadores merecem toda a glória e as honras. Mas de nenhuma maneira eles podem ser vistos como uma versão alternativa ou continuação para as histórias de Geralt, porque elas só podem ser contadas pelo criador de Geralt, um certo Andrzej Sapkwoski”, concluiu. Em outras ocasiões, o escritor deixou claro que acredita que videogames num geral “são estúpidos”.

Em 2013, Sapkowski lançou Sezon burz, romance ainda inédito no Brasil que traz uma nova aventura de Geralt ambientada entre os dois primeiros volumes da série. O livro será publicado nos EUA em 2018, e deve chegar por aqui nos próximos anos. Em breve, uma nova adaptação de The Witcher será lançada: uma série da Netflix com Henry Cavill vivendo o protagonista. Sapkowski servirá como um consultor de roteiro para o projeto.

Para os poloneses, o grande trunfo de Sapkowski foi ter trazido elementos do folclore do país, como, por exemplo, os nomes das runas ser baseado em deuses eslavos, para sua trama, que tinha o mesmo escopo e atmosfera de clássicos da fantasia como as aventuras de Conan, o Bárbaro; os livros de J.R.R. Tolkien na Terra-média e as histórias de Elric de Melniboné, de Michael Moorcock.

De vendedor de roupas de pele a escritor de fantasia, Sapkowski colocou a Polônia sob os olhos dos nerds do mundo todo, mostrando que, com uma visão certeira e um toque de autenticidade, é sempre possível inovar, mesmo em um gênero tão marcado por clichês e fórmulas que se repetem várias e várias vezes.

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