Review | Hellblade: Senua’s Sacrifice

Uma bela, filosófica e assustadora viagem pela mitologia nórdica e pela mente humana

Jefferson Sato Publicado por Jefferson Sato
Review | Hellblade: Senua’s Sacrifice

Por melhores que sejam, poucos jogos são capazes de deixar uma impressão forte no jogador depois de acabar, daquelas que você fica pensando por horas ou dias sobre o que você vivenciou durante aquela jornada e qual é o significado disso tudo. Hellblade: Senua’s Sacrifice consegue.

A desenvolvedora Ninja Theory é conhecida por jogos como Heavenly Sword, Enslaved: Odyssey to the West e DmC: Devil May Cry, todos do gênero hack’n’slash. Embora Hellblade beba desta mesma fonte, é uma experiência própria focada na narrativa que coloca o jogador no centro da ação e da mente da protagonista.

Batalha contra o próprio inferno

A história acompanha Senua, uma guerreira celta que decide ir até os pontos mais profundos de Helheim, o equivalente ao inferno da mitologia nórdica, para confrontar a deusa da morte Hela, em busca de uma forma de salvar a alma de seu amado.

Senua, no entanto, sofre de psicose, um distúrbio mental marcado por alucinações e ilusões, que podem ser tão belas quanto perturbadoras. Ela não apenas precisa enfrentar os desafios e perigos sobrenaturais de Helheim, como também terá que superar sua própria mente.

Durante todo o jogo, vemos o mundo através dos olhos de Senua e essa é justamente sua característica mais marcante. O estúdio fez uma pesquisa profunda com profissionais e pessoas afetadas pelo distúrbio para tentar retratar esta experiência da maneira mais fiel possível. Você pode conferir mais detalhes sobre isso em um curto documentário que está incluso no jogo — é altamente recomendável.

Assim como é comum em pessoas que sofrem com psicose, a protagonista ouve vozes, e o design de som coloca você na cabeça da personagem lodo no início. Aliás, é também recomendável usar um fone de ouvido porque aumenta muito a imersão. Essas vozes, várias delas, comentam eventos que acontecem, às vezes ajudando o jogador com alguma dica ou tentando inibi-lo pelo medo.

hellblade-deuses

Tudo o que você vê, ouve e toca é influenciado pelas alucinações de Senua, questionando o que é real e até que ponto ela é capaz de ir sozinha – assim como nós mesmos. “As batalhas mais difíceis são lutadas dentro da mente”, comenta uma das vozes na cabeça dela.

Olá, minhas vozes

Hellblade não conta com interface gráfica como mapas ou barra de vida. Também não há setas ou linhas imaginárias indicando o caminho para onde você deve ir, comprovando que tudo isso é opcional se o jogo tiver um bom design. A navegação, por exemplo, é auxiliada pelas vozes em sua cabeça, que dão dicas como “o que é aquilo?”, “tem uma porta ali” e “isso parece perigoso, vá embora!”.

No combate, as vozes ajudam com dicas de última hora, pedindo para você desviar de um golpe frontal ou avisando que há um inimigo atrás quando você estiver prestes a ser atacado — o que é útil, já que eles surgem do nada sem fazer nenhum som. Os inimigos também não têm barras de vida, tudo sendo indicado por seus estados físicos ou pelas vozes comentando que ele está perto de ser derrotado.

Aliás, como citei anteriormente, o combate tem grande influência de hack’n’slash, sendo possível combinar golpes fracos e fortes para formar ataques diferentes. No entanto, não tem a mesma variedade e é mais técnico, sempre exigindo que você fique atento ao movimento de todos os inimigos ao redor. Morrer é fácil e se cair no chão uma vez, significa que sua vida está em risco.

Em geral, a campanha é bastante linear, embora seja possível explorar certos locais em busca de trechos de lendas nórdicas, o colecionável do jogo. Os quebra-cabeças também costumam acontecer em grandes áreas, mas podem ser um pouco repetitivos, como o mais comum, no qual é preciso encontrar um símbolo mudando sua perspectiva em determinados objetos e formas que encontra.

Uma realidade diferente

Embora possa ter pouca variedade na jogabilidade e nas atividades, isso não passa de um pequeno incômodo nas partes mais avançadas, já que Hellblade não é muito extenso. Sendo assim, nada disso ofusca suas principais qualidades: narrativa e apresentação.

O jogo é uma experiência bela e também assustadora por um ponto de vista único que a maioria de nós normalmente não pode nem imaginar como é. Isso não é apenas um ponto importante na trama e seus eventos, mas também é algo para se pensar no mundo real, que pode mudar um pouco conceitos preconceituosos sobre distúrbios mentais. Às vezes, as pessoas apenas vivem em realidades diferentes, incluindo eu e você, e isso pode não ser nada fácil.


Hellblade: Senua’s Sacrifice está disponível para PC e PlayStation 4.