Review | Final Fantasy XV

Embora ambicioso, o retorno da franquia sofre com mecânicas básicas ruins e história pouco desenvolvida

Jefferson Sato Publicado por Jefferson Sato
Review | Final Fantasy XV

Originalmente anunciado em 2006, Final Fantasy Versus XIII seria um spin-off de Final Fantrasy XIII para PlayStation 3. O jogo passou por diversas mudanças ao longo dos anos, eventualmente se tornando um título da franquia principal e recebendo o nome de Final Fantasy XV em 2013.

O aguardado título acabou se tornando muito maior do que originalmente planejado e ganhou um lugar no coração cheio de expectativa dos fãs, com o objetivo de rever os conceitos da franquia e, como a própria introdução do jogo diz, conquistar jogadores novos e antigos. Mas que tipo de experiência a Square Enix conseguiu entregar e de que forma seu conturbado desenvolvimento deixou marcas no produto final?

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De príncipe a rei

O jogo acompanha a jornada de Noctis Lucis Caelum, Príncipe de Lucis, que deixa seu lar para se casar com a jovem Lunafreya Nox Fleuret, amiga de infância do protagonista e conhecida como Oráculo, por conseguir falar com os deuses. Na aventura, o jovem rapaz é acompanhado por três companheiros: Gladiolus, Prompto e Ignis.

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No entanto, o reino de Lucis, que atualmente está em guerra com Niflheim, sofre um ataque surpresa dos adversários quando se encontram para assinar um suposto tratado de paz. O incidente desencadeia os eventos que vemos no jogo e a jornada de Noctis para se tornar um rei digno para seu povo.

A premissa é bastante típica de Final Fantasy, principalmente com um mundo que mistura elementos de fantasia medieval com tecnologia contemporânea (olá, smartphones!) e também futurista. Tudo isso cria um cenário de beleza singular, como um gigante meteoro que caiu e se tornou fonte de energia para a população ou Altissia, uma cidade com cachoeiras e rios suspensos que compõem um dos momentos mais bonitos do jogo.

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A beleza do cenário é melhor aproveitada com as missões paralelas, que levam Noctis a diversos locais exóticos. Felizmente, o mundo é enorme e conta com muitas atividades para serem feitas, como caçadas, corridas de chocobo, resgates e mais. O fato de Prompto ser apaixonado por fotografia também ajuda, sugerindo que o grupo visite diversos pontos para que a paisagem possa ser melhor apreciada e até registrada.

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O jogo também tem uma trilha sonora ótima que combina com o clima da aventura. Você pode ainda escutar as músicas de jogos antigos da franquia durante as viagens de carro do grupo, o Regalia. Lá é possível escutar clássicos como a música de batalha de Final Fantasy VII e o tema de VIII enquanto aprecia a vista.

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Tudo isso é acompanhado por uma relação divertida de Noctis e seus companheiros, que têm personalidades bem definidas, com conversas descontraídas e engraçadas que ajudam a estabelecer a amizade entre os quatro.

Mas, infelizmente, para por aí.

O jogo tem um ritmo lento na maior parte do tempo, com poucos detalhes da história sendo revelados e poucos acontecimentos que realmente impactam o desenvolvimento da trama. Por conta disso, os personagens secundários são pouco explorados e acabam tendo uma importância menor do que poderiam.

Há diversos momentos que deveriam ser emocionantes, com personagens secundários protagonizando grandes eventos que impulsionam Noctis e companhia, mas o jogo falha em transmitir essa emoção: eles têm um desenvolvimento fraco e o jogador tem pouco motivo para se envolver com o que acontece, exceto a indicação do jogo de que aquilo foi importante na trama.

Os próprios companheiros de Noctis têm alguns momentos assim, com eles deixando o grupo temporariamente para “cuidar de assuntos”. Quando voltam, estão mudados por causa de algum grande evento que aconteceu nos bastidores, mas ninguém nunca explica o que realmente aconteceu.

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E se na primeira parte do jogo o ritmo da história é lento e os jogadores podem fazer as coisas de forma não-linear para explorar o mundo, a segunda metade é o exato oposto. Quando os eventos principais começam a acontecer, eles são apresentados de forma apressada e pouco desenvolvida.

As motivações dos personagens neste momento são pouco explicadas e às vezes você se pergunta por que estão fazendo aquilo? O que é uma pena, uma vez que o jogo tem diversas cenas cinemáticas lindas de se ver, mas que acabam sendo utilizadas para contar superficialmente uma trama preguiçosa.

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A própria reviravolta nos momentos finais é jogada de qualquer jeito no colo do jogador e fazem pouquíssimo sentido, dando poucos motivos para se impressionar com as revelações.

Nesta parte, tudo fica mais linear também. Até é possível retornar a Lucis para continuar explorando ao dormir e chamar o cãozinho Umbra para “retornar ao passado”. Esta função, no entanto, é oferecida em poucas ocasiões e não faz sentido na história, além de ficar parecendo um recurso adicionado de última hora para que o jogador tivesse mais opção do que fazer.

Felizmente, após terminar o jogo é possível acessar novos lugares, enfrentar outros desafios ou continuar fazendo as missões opcionais para voltar a aproveitar o que o título tem de melhor.

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Os problemas estão só começando

Infelizmente, a história não é o único defeito do jogo, que tem algumas mecânicas bastante falhas e frustrantes, embora não fique claro se são bugs ou simplesmente foram feitas de forma errada. Durante o combate, por exemplo, é possível travar a mira em um inimigo, mas a opção não é nada confiável. Frequentemente ela é desbloqueada, sem nenhum motivo aparente. A câmera nas batalhas também é um problema constante, principalmente quando elas acontecem em corredores fechados ou locais com muitas árvores, ambas situações frequentes.

É um pesadelo...
É um pesadelo…

O level design dos calabouços é completamente sem inspiração, com corredores todos parecidos, uma navegação ruim e locais pouco memoráveis. O cenário frustrante também não incentiva a exploração, raramente recompensando o jogador por se aventurar. É comum o jogo levá-lo para uma porta só para mostrar que ela está trancada e depois indicar a posição exata da chave.

Fazer algumas ações simples também pode ser frustrante. Quando Noctis está correndo, por exemplo, é comum que ele simplesmente pare e comece a andar, sendo necessário ativar a corrida novamente. Não estou falando dele estar cansado, e sim de um erro no jogo. Mas, o fato de que ele realmente cansa depois de um determinado tempo, o que é comum em muitos jogos, só faz com que vire uma maratona de apertar o botão constantemente.

Outra tarefa simples que pode virar um estorvo é ativar as coisas, seja um diálogo com NPC ou recolher um item, o que é feito com o mesmo botão de pulo. Mesmo de frente para o alvo, o comando às vezes não aparece e você fica saltando. É curioso notar que, quando Noctis está NO ALTO nestes momentos, o comando de ativar às vezes aparece na tela (mas não funciona, claro).

Tudo no jogo também é lento e parece feito para atrasar o seu progresso. Por exemplo: viajar de noite é perigoso, porque a escuridão atrai demônios de nível alto. Ao tentar entrar no carro depois que o dia acaba, uma conversa é iniciada com Ignis, que avisa do perigo e pergunta se você quer continuar. Isso acontece todas as vezes que você tentar fazer isso, sem a opção de pular ou desativar o diálogo. O mesmo problema se repete com diversas outras cenas.

E por falar no Regalia, ele é uma decepção e mais uma oportunidade perdida. Se o jogo dá um carro, o mínimo que o jogador espera é poder controlá-lo. É necessário notar que, ao entrar nele, é possível deixar no automático (Ignis dirigirá) ou no manual, com Noctis no comando. No entanto, mesmo assim ele segue “trilhos” e não pode sair da pista. A única decisão no modo manual é decidir se vai virar para a esquerda ou direita, o que torna viajar assim um trabalho desnecessário.

O Regalia também é lento. Muito lento. E para um mapa tão grande quanto o de Final Fantasy XV, isso é um problema sério. Você pode, por exemplo, pôr no modo automático e fazer outra coisa enquanto espera, às vezes por quase dez minutos, até chegar ao objetivo. Também é possível ir instantaneamente para alguns pontos do mapa, mas o jogo na verdade incentiva o uso do carro ao dar Pontos de Habilidade e Experiência durante as viagens.

Essa lata velha me ultrapassou!
Essa lata velha me ultrapassou!

Outra oportunidade desperdiçada são as tradicionais invocações (summons). Elas têm um grande papel na história do jogo, mas são pouco aproveitadas nas batalhas. Para começar, elas são obtidas em momentos avançados, quando o jogo começa a correr com a história. Segundo porque elas só aparecem nas lutas em condições muito específicas e geralmente são desnecessárias. Isso é uma pena, porque elas são um show à parte e dá gosto assisti-las causando a destruição dos adversários com poderes estrondosos.

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Apesar dos problemas…

É importante dizer que Final Fantasy XV não é, de forma alguma, um jogo ruim. De modo geral, mesmo com todos estes problemas, ele na verdade é muito bom e realmente consegue entreter fãs antigos e jogadores novos com atividades interessantes, um mundo belíssimo e muitas horas de gameplay.

Mas o jogo tem um potencial de game design mal aproveitado e comete alguns erros graves em mecânicas e elementos fundamentais, o que acaba atrapalhando demais a experiência com situações frustrantes e são imperdoáveis, principalmente para um título que levou tanto tempo sendo desenvolvido, foi adiado diversas vezes e criou muita expectativa para os fãs.

Final Fantasy XV foi lançado em 29 de novembro para PlayStation 4 e Xbox One. Esta análise foi feita com uma cópia do jogo para PlayStation 4 cedida pela Square Enix.