Quem é o Tutu, o que é o Corpo-Seco e outras questões de Cidade Invisível

Especialista em folclore, Andriolli Costa nos ajudou a responder as principais perguntas sobre a série

Fernanda Talarico Publicado por Fernanda Talarico
Quem é o Tutu, o que é o Corpo-Seco e outras questões de Cidade Invisível

A série Cidade Invisível chegou à Netflix no último dia 5 de fevereiro e trouxe diversas lendas do folclore brasileiro. Envolta em mistérios, a produção foi criada por Carlos Saldanha e estrelada por Marco Pigossi, Alessandra Negrini, Jessica Córes, Jimmy London e Julia Konrad.

Por tratar de um assunto tão rico como as tradições populares do Brasil, diversas dúvidas foram surgindo entre os espectadores. Para te ajudar a se situar no que é abordado em Cidade Invisível, o NerdBunker conversou com o pesquisador, jornalista e doutor em folclore brasileiro, Andriolli Costa.

[ATENÇÃO: O texto abaixo contém SPOILERS da primeira temporada de Cidade Invisível]

Quem é o Tutu?

Tutu, vivido por Jimmy London em Cidade Invisível (Créditos: Netflix)

O Tutu, personagem vivido por Jimmy London na série, causou bastante confusão entre os espectadores: afinal, qual é a lenda que ele está representando? Segundo Andriolli Costa, a confusão que aconteceu com o personagem se derivou do fato de todos os outros mitos apresentados terem nomes de humanos na série: Iara é Camila, Cuca é Inês, Saci é Isac… No entanto, no caso de de Tutu, é apenas Tutu!

A lenda do Tutu Marambá vem da “família” dos Papões – a mesma da Cuca –, e alguns especialistas acreditam que sua verdadeira origem seja africana. “Tutu viria de Quitutu, que no idioma Quimbundo significa justamente ‘comer’. É de onde vem a palavra Quitute, por exemplo”, explicou Costa. Assim, o que é dito no mito de Tutu é que ele é um devorador, mas sem uma forma definida. No entanto, em Cidade Invisível, escolheram uma versão menos conhecida, na qual ele teria a forma de um porco do mato.

Muitos achavam que se tratava do Boitatá, mas Costa acredita que a bagunça aconteceu por causa da semelhança entre “tata” e “tutu”.

O que é o Corpo-Seco?

A expressão se refere a uma pessoa que cometeu atos horríveis durante a sua vida e, por isso, nem mesmo a terra quer o corpo depois de morto. Com isso, a alma não consegue ir nem para o céu, e nem para o inferno, e vaga como uma espécie de morto vivo na Terra.

No entanto, segundo Costa, a série mudou um pouco a lenda, pois ele se tornou um “espírito possessor capaz de roubar almas, ou seja, um corpo seco sem corpo”. Em Cidade Invisível, isso acontece pois Antunes, vivido por Eduardo Chagas, é morto pelo Curupira depois de matar animais que não deveria, na floresta.

O Saci morreu de verdade?

Um dos acontecimentos mais comentados das série é a morte de Isac, o Saci vivido por Wesley Guimarães, no penúltimo episódio de Cidade Invisível. Muitos se perguntaram se ele pode voltar à vida, mas infelizmente, isso parece bem difícil de acontecer, afinal todas as outras lendas que foram mortas pelo Corpo-Seco, não voltaram.

Qual lenda é o Eric?

Ao final da primeira temporada de Cidade Invisível, é explicado por Gabriela (Julia Konrad), que Eric, o personagem vivido por Marco Pigossi, agora também é uma lenda. Como o policial é filho do Boto, o Manaus (Victor Sparapane), é provável que ele assuma o papel de seu pai. “Na série, tudo indica que não existem vários mitos do mesmo tipo, porque as pessoas não falam que a Inês, por exemplo, é ‘uma Cuca’, mas ‘a Cuca'”, explica Costa.

Eric e Márcia descobrindo o corpo do Boto (Créditos: Netflix)

Outro ponto interessante levantado pelo pesquisador, é o da série indicar que todos as lendas eram humanos, até se tornarem seres encantados. “Curupira e Cuca, por exemplo, nunca tiveram narrativas de origem, e Cidade Invisível criou para eles. Então é de se supor que o Boto também fosse um humano depois tornado em encantado.”

A Gabriela também é uma lenda?

Gabriela, a esposa de Eric, morre logo no começo do primeiro episódio ao se encontrar com o Corpo-Seco que está possuindo a filha, Luna (Manuela Dieguez). Como a produção mostra, esse espírito do mal não matou nenhum outro humano, portanto, há a suposição de que Gabriela também seja uma “entidade”, mas ainda não é possível afirmar.

Eric com a filha Luna (Créditos: Netflix)

No entanto, Andriolli Costa aponta para um ponto interessante: o colar de proteção que Gabriela deixou para a filha. “É um muiraquitã, um amuleto de origem indígena, com registros arqueológicos, mas que sobre os quais a fantástica popular fez surgirem narrativas de origem. E uma dessas histórias diz que os Muiraquitãs foram criados pelas guerreiras Icamiabas, também registradas como Amazonas (em referência ao mito grego). Na série dizem que é o ‘amuleto das guerreiras da lua’, o que é um jeito muito genérico de falar de algo que existe tanto no mundo concreto quanto no imaginário.”

Qual a lenda do Curupira?

Camila, Iberê e Isac (Créditos: Netflix)

Em Cidade Invisível, o Curupira é Iberê, vivido por Fábio Lago. A série mostra que ele é bastante poderoso e o alvo principal do Corpo-Seco. Sua lenda é uma das mais antigas registradas no Brasil, em 1560, por Padre José de Anchieta. “Ele é um protetor das matas, não seu dono – afinal o sentido de propriedade é muito colonial. Exige respeito e cumpre a função reguladora: se você mata mais do que precisa pra comer, mata fêmeas grávidas, e uma série de outros interditos que promovem a regulação da relação do homem com a mata, ele castiga”, explica Costa.

Caipora aparece em Cidade Invisível?

Não! A lenda ainda não está presente na série. Muitos espectadores se questionaram sobre a possível aparição do mito, mas Costa acredita que a confusão aconteceu justamente por causa do Tutu: “Como Caipora costuma ser descrito montado em porco do mato, viram um porco lá, e acharam que que era ele!”.

A Cuca não era um jacaré?

A Cuca é representada na série por Inês, personagem vivida por Alessandra Negrini. No entanto, diferente do imaginário popular, ela não é representada como um jacaré. Isso acontece porque, assim como o Tutu, a Cuca também é da família dos “Papões” e, por isso, não tem forma. “Quando você canta a música para as crianças ‘nana neném que a cuca vem pegar / desce tutu de cima do telhado’, a criança na primeira infância não precisa de uma aparência para temer o monstro. Ela só precisa compreender que a criatura come gente. Então, na música e suas variantes, nunca se fala em uma aparência para a Cuca”, explica Costa.

Alessandra Negrini como Cuca em Cidade Invisível (Créditos: Netflix)

A ideia de que a lenda seja um jacaré deriva bastante das histórias de O Sítio do Pica-Pau Amarelo, do Monteiro Lobato, onde ele criou que a Cuca dorme uma vez a cada sete anos e a descreve com cara de jacaré e garras de gavião.

Além disso, a Cuca de Cidade Invisível se transforma em borboleta, pois, segundo Costa, a produção optou por entendê-la como bruxa. “No folclore brasileiro, a bruxa tem elementos específicos. Normalmente é a sétima filha mulher depois de seis outras mulheres, que na puberdade assume a maldição. Elas são capazes de assumir formas de bicho, entre eles a borboleta ou a mariposa.”

Eric sendo visitado pela Cuca (Créditos: Netflix)

Cidade Invisível terá segunda temporada?

O segundo ano ainda não foi confirmado pela Netflix, mas em entrevista ao Nerdbunker, o criador Carlos Saldanha indicou que é possível: “Entidades do folclore é o que não falta, são mais de 300. […] Tem muita história para contar!”.