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O Beco do Pesadelo | Crítica

Suspense noir de Guillermo Del Toro encanta e assombra em um longo estudo da podridão humana

Gabriel Avila Publicado por Gabriel Avila
O Beco do Pesadelo | Crítica

O diretor Guillermo del Toro construiu um currículo invejável com filmes que misturam fantasia e horror como poucos. Sua filmografia versátil, que vai de super-heróis a ficção histórica, é lembrada por ser povoada por alguns dos monstros mais memoráveis do cinema. Essa tradição é colocada de lado pela primeira vez em O Beco do Pesadelo, suspense noir elegante e chocante, que deixa faunos e vampiros de lado para estudar a monstruosidade que mora na podridão humana.

O filme conta como Stanton Carlisle (Bradley Cooper) foi de capataz no circo de Clem Hoatley (Willem Dafoe) a figura importante na elite graças a um famoso talento sobrenatural. Durante sua ascensão, ele acaba se aproximando da psicóloga Lilith Ritter (Cate Blanchett), relação que coloca Stan em um caminho perigoso que pode trazer glória ou desgraça.

Primeiro filme comandado por del Toro desde A Forma da Água (2017), o longa é uma adaptação de O Beco das Ilusões Perdidas, livro de William Lindsay Gresham publicado na década de 40, que foi levado aos cinemas um ano após a publicação. Na época, o conteúdo de ambas as obras foi fonte de assombro e reflexão graças a um conjunto de características que caem como uma luva com o estilo do diretor mexicano, acostumado a usar horror fantástico para refletir sobre a condição humana com doses de comentários sociais.

O diretor, que co-escreve o roteiro em parceria com Kim Morgan, se apropria da história de Stanton Carlisle para fazer essa reflexão ao mesmo tempo em que homenageia o cinema noir. Mais do que pequenos acenos, a produção presta reverência ao recriar os anos 30 e 40 com paixão, utilizando circos precários e prédios luxuosos para uma viagem no tempo que cria o palco perfeito para esse tributo.

Não é por acaso que Stan surge como uma incógnita que mais ouve do que fala. Através dele, o filme desbrava o mundo do circos de aberrações com um olhar curioso e sempre disposto a absorver cada detalhe. O local surge deslumbrante e imponente, convidando o personagem a decifrar seus segredos e, quando menos se percebe, está dando as cartas e definindo os rumos desse conto.

Na primeira metade, a produção ostenta um design de produção que mistura a magia de truques e atrações com a precariedade do início do século passado. Um terreno fértil para sonhos e pesadelos que cria grande com os rumos da segunda parte, quando a história leva seu protagonista para os luxuosos hotéis, consultórios e mansões da parte rica de Chicago. Inicialmente antagônica, a relação entre os dois locais passa a ser complementar à medida que o protagonista descobre e passa a explorar falhas que surgem onipresentes nas várias classes sociais – ainda que algumas delas tenham recursos para maquiar a própria podridão.

Conforme Stan avança e suas chances de vencer na vida crescem junto com a própria ganância, O Beco do Pesadelo estabelece uma atmosfera de tensão que acompanha seu protagonista por onde quer que vá. Lentamente, a história adota a inquietação de uma bomba relógio, fazendo com que momentos triviais como jantares e conversas íntimas sejam capazes de tirar o fôlego pela iminência de algo terrível.

Em contrapartida, esse caminho abre mão de qualquer esforço para surpreender o público. Talvez por se tratar de uma nova versão de uma história consagrada na literatura e no próprio cinema, o roteiro se mostra pouco interessado em criar surpresas e constantemente escancara o que vem a seguir na história, convidando o público a testemunhar tragédias anunciadas.

Essa escolha se mostra arriscada e faz com que o filme caminhe em uma corda bamba, especialmente ser conduzido em um ritmo indeciso. Há momentos em que a história ganha contornos contemplativos, em que os acontecimentos se desenrolam sem a menor pressa, para em seguida resumir eventos importantes de forma corrida.

Um resumo, aliás, que também prejudica os personagens. O texto deixa a desejar ao fazer simplificações que reduzem alguns a meros recursos para levar o protagonista do ponto A ao B. Isso ocorre em diferentes graus, mas a grande prejudicada, de longe, é Molly, que se torna quase um recurso e desperdiça tanto uma das personagens mais ricas da obra original, quanto a refinada performance de Rooney Mara.

Aos trancos e barrancos, o resultado final é satisfatório o suficiente para desembocar em um terceiro ato marcado pela espiral de horror sangrenta que justifica sua construção, mas não sem que a paciência do espectador seja testada pela autoindulgência de Guillermo del Toro. Ainda assim, o cineasta é competente e apaixonado demais pela história que está contando e não deixa que a megalomania tome conta da produção.

Isso porque O Beco do Pesadelo conta com um interesse genuíno pelo espetáculo, que pode ser visto em cada aspecto da produção. Seja no soberbo design de produção e figurinos, na grandiosa trilha sonora orquestral de Nathan Johnson (Entre Facas e Segredos), ou no fabuloso elenco que aproveita cada oportunidade para elevar a produção com performances hipnotizantes.

Bradley Cooper cai como uma luva para a versão de Stanton Carlisle planejada pelo roteiro. O ator transmite naturalidade ao dar vida a um personagem que se esconde em uma fachada de malandro e se revela através de olhares e expressões que escapam. O mesmo pode ser dito sobre as figuras que aparecem e mudam os rumos do personagem, como é o caso dos circenses Clem (Willem Dafoe), Zeena (Toni Collette) e Pete (David Strathairn), além do ricaço cruel Ezra (Richard Jenkins).

Nesse sentido, a produção destaca um espaço especial para Cate Blanchett. Um espetáculo por si só, a atriz faz o que sabe de melhor como a psicóloga Lilith Ritter, uma mulher elegante e misteriosa capaz de se fazer ameaçadora sem nunca levantar a voz ou a mão. Não é exagero dizer que ela rouba todas as cenas em que aparece, dando um desafio a mais para Bradley Cooper, que precisa suar para não ser engolido pela colega.

Com a união de tantos talentos, O Beco do Pesadelo justifica a própria existência ao trazer uma perspectiva moderna a um clássico do cinema noir, gênero que aos poucos foi deixado de lado por Hollywood. E o faz sem a pretensão vaidosa de resgatar ou salvá-lo, mas sim aproveitando sua forma para discutir um tem que é tão caro para seu realizador. Se a mensagem de que o homem é o “verdadeiro monstro” já ficou cansada e óbvia, Guillermo del Toro volta a bater nessa tecla para construir uma sinfonia imperfeita, mas memorável.

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