Ghost of Tsushima | Review

Novo jogo da Sucker Punch entrega um mundo aberto competente, viciante e recheado de conteúdo opcional

Tayná Garcia Publicado por Tayná Garcia
Ghost of Tsushima | Review

Ghost of Tsushima é o equilíbrio perfeito entre as muitas maneiras de se criar jogos de mundo aberto. O jogo se inspira em elementos já estabelecidos antes — como a liberdade de Zelda: Breath of the Wild e o sistema de missões de The Witcher 3 — e os altera para aplicá-los de uma maneira própria, dentro das particularidades e da filosofia de seu universo. E olha… não poderia ter dado mais certo!

Ambientado na Ilha de Tsushima, o game é baseado na primeira invasão mongol no Japão, em 1274. O jogador controla Jin Sakai, um samurai que está decidido a derrotar e expulsar os mongóis da ilha para defender o povo japonês, que vê seus lares sendo saqueados e destruídos.

Com essa premissa, Tsushima não demora para lançar o jogador dentro de seu universo e deixá-lo livre para explorar. É você quem dita o ritmo e a ordem de sua jornada, descobrindo como as mecânicas funcionam e o que está acontecendo na narrativa.

O mapa é dividido entre três grandes áreas: Izuhara, Toyotama e Kamiagata. Todas são recheadas de missões da história principal, missões secundárias, pontos de interesse e postos de inimigos.

A campanha é, curiosamente, o elo mais fraco do jogo. Não por ser ruim — muito longe disso! –, mas por ser muito curta, quando comparada aos outros conteúdos. Contudo, apesar de apresentar profundidade, questionando os códigos de honra dos samurais e até brincando com a percepção do jogador (que fica na dúvida se está fazendo o correto), vários momentos caem no previsível e soluções acontecem sem muita construção.

Os gráficos não são impressionantes apenas nas cutscenes, já espere por vistas de encher os olhos durante o gameplay

O maior diferencial da campanha fica para a jogabilidade, já que força o jogador a sair da área de conforto e tentar abordagens diferentes, oferecendo atividades mais específicas, como superar áreas obrigatoriamente na furtividade pelos telhados, duelos contra personagens importantes e confrontos com hordas (muito) maiores de inimigos.

A liberdade de uma Tsushima em chamas

O verdadeiro ponto forte de Ghost of Tsushima acaba ficando para a quantidade massiva de conteúdo opcional, que oferece histórias paralelas mais densas e inúmeras áreas de exploração — aprofundando na cultura japonesa, no realismo e na imersão do universo.

Essas side quests são chamadas de “Contos de Tsushima” e “Contos Míticos”, dando espaço para personagens secundários contarem suas histórias. Isso resulta em missões que exploram narrativas à parte, que realmente são surpreendentes e bem construídas, sendo divertidas e emocionantes em um nível equilibrado.

Já os pontos de interesse são áreas especiais que recompensam a curiosidade de exploração do jogador com recursos e itens adicionais. Elas consistem em encontrar e seguir raposas (e o mais importante: fazer carinho nelas!), banhar-se em águas termais, escrever haikus (poesias japonesas) e rezar em santuários xintoístas.

Com cenários diferentes e variados, o jogo consegue contornar a sensação de cansaço que eventuais tarefas repetitivas possam causar. Além disso, algumas áreas ainda são difíceis de alcançar, forçando o jogador a escalar e encarar puzzles de salto.

A beleza de cada paisagem ainda auxilia na imersão. Tudo é visualmente impressionante, tanto que perdi as contas de quantas vezes me peguei deixando o cavalo para trás só para explorar cada cantinho a pé. E isso porque nem sequer mencionei as 10 horas que gastei apenas no Modo Foto. O mais interessante é que o visual dos mapas condiz com a história principal, parecendo refletir os sentimentos do protagonista.

O Modo Foto oferece filtros de todos os tipos, que adicionam gradações diferentes, mudam a expressão facial de Jin e adiciona logos do jogo

Também há surpresas no caminho da exploração. Às vezes, os pontos de interesse não estão exatamente do jeito que você espera, e ainda é possível participar de atividades que não ficam marcadas no mapa, como seguir rastros de sangue e salvar uma vila que está sendo atacada.

Mas nada disso funcionaria se Tsushima não oferecesse um mundo aberto em que a liberdade do jogador é prioridade. Praticamente, não há pontos de referência no mapa. Eles aparecem apenas ao se aproximar ou conquistar áreas específicas, dando o necessário para o jogador se sentir motivado a continuar explorando (e sem testar a paciência).

Ainda há maneiras orgânicas de encontrar os pontos, usando a natureza como guia. Seguir um pássaro amarelo, um bando de aves brancas e até mesmo o vento resultará na descoberta de um lugar novo — se preferir não dar nenhuma espiada no mapa.

Para não quebrar o ritmo de exploração e a sensação de liberdade, é possível fazer diversas missões ao mesmo tempo, conforme se explora as áreas. Isso inclui derrotar inimigos e encontrar itens que fazem parte de uma missão específica que nem sequer foi descoberta ainda, dando um toque de realismo ao mundo do game — que parece vivo, independentemente da presença do jogador.

As roupas não são usadas apenas para deixar Jin Sakai estiloso, mas elas também oferecem status extras

O realismo na dose certa de Ghost of Tsushima

Chegamos a um dos aspectos mais positivos de Tsushima: o realismo. Mas não é exatamente no sentido que você está pensando.

De fato, os cenários são bem realistas visualmente e há pequenos detalhes para os olhares mais atentos, como folhas que caem de uma árvore e seguem perfeitamente pela correnteza do rio, e raios em uma tempestade, que mostram primeiro a luz e só depois o jogador ouve o barulho do trovão (já que a luz é mais rápida que o som).

Apesar disso, os desenvolvedores decidiram que o jogo, afinal, é um jogo — e queriam que os jogadores sentissem o mesmo. Isso quer dizer que o título não sacrifica sua cadência para aumentar a imersão. Por exemplo, dá para coletar flores montado no cavalo e praticamente tudo que é explorável no mapa se transforma em um ponto de viagem rápida, facilitando a locomoção. Então existe um bom equilíbrio entre realismo e jogabilidade, que é difícil de encontrar nos demais títulos do gênero.

As armas de um samurai

As habilidades e as armas que o protagonista consegue usar são desbloqueadas de forma gradual durante o jogo, conforme o jogador coleta pontos de experiência para aumentar um sistema de níveis chamado de “Lenda” ao realizar missões, salvar reféns na estrada e capturar postos inimigos.

O combate de Ghost of Tsushima é relativamente simples, mas com muitos recursos (e estilos) à disposição.

A arma principal é uma katana baseada em quatro posturas diferentes. Cada uma é eficaz contra um tipo específico de inimigo. Por exemplo, se encontrar um mongol de escudo, opte pela Postura da Água para quebrar a defesa dele mais facilmente. Mas ao se deparar com um espadachim habilidoso, é melhor usar a Postura da Pedra — e por aí vai.

É também preciso trocar de posturas no meio do combate quando há uma horda de inimigos, o que requer um pouco mais de habilidade e destreza do jogador. Algo bem divertido de dominar.

Seja criativo na hora do combate: troque as posturas, use o arco e flecha em chamas no inimigos mais chatos, abuse de combos com a katana. É diversão na certa!

As possibilidades de combate são expandidas por arco e flecha, zarabatana venenosa e diversas habilidades especiais, como atear fogo na katana e adotar uma postura especial — que, acredite, é melhor deixá-la como surpresa para sua jogatina.

Ainda é possível optar por dois estilos de abordagem, os clássicos: direto ou furtivo. Só que não é uma simples escolha apenas para quem está com as mãos no controle, mas também para o protagonista do game, Jin Sakai. Isso porque ele vê a furtividade como uma traição aos valores dos samurais. É você quem decide seguir ou quebrar essa tradição na maior parte dos confrontos.

O combate furtivo, no entanto, deixa a desejar. A inteligência artificial dos NPCs é fraca, exigindo pouca habilidade para se virar com esse estilo. Os inimigos esquecem a localização do protagonista muito rapidamente e ficar em telhados praticamente deixa o jogador invisível, o que exige maior suspensão de descrença.

Já o combate direto é (muito) mais divertido, uma vez que as possibilidades são muito mais vastas — e, confesso, quebrar os valores dos samurais não me deixava lá muito confortável. É possível alterar entre posturas, acertar flechas na cabeça de inimigos, usar o gancho para saltar e realizar ataques aéreos, lançar mongóis de penhascos, atear fogo no chão para criar armadilhas momentâneas e vários outros recursos.

Os duelos são momentos especiais desencadeados por missões, que funcionam como uma luta de chefes, com foco em um único inimigo com uma grande barra de vida. Eles são focados apenas em combate com katanas, e são um charme à parte.

As suas habilidades de espadachim são colocadas à prova nos duelos, que são divertidos e tensos

Ghost of Tsushima é um jogo de mundo aberto extremamente competente, que entrega literalmente tudo que um título do gênero precisa para ser marcante — e um pouco mais. É viciante, divertido e prazeroso de jogar, além de ainda reinventar certos elementos dos jogos de mundo aberto.

Mesmo com alguns pequenos tropeços aqui e ali, o game consegue compensar na quantidade de conteúdo opcional, que não está ali apenas para marcar presença. Explorar segredos da ilha, emocionar-se com contos de monges e rir de piadas sem graça de um vendedor de saquê não estavam nos meus planos — mas que bom que pude me aventurar em Tsushima e viver essas experiências.


Ghost of Tsushima será lançado no dia 17 de julho exclusivamente para PlayStation 4. Este review foi feito com uma cópia do jogo cedida pela Sony.