Final Fantasy VII Remake | Review

O cuidado e dedicação investidos refletem positivamente na expansão de um universo tão querido, e fazem valer a longa espera

Priscila Ganiko Publicado por Priscila Ganiko
Final Fantasy VII Remake | Review

Quase não parece verdade, mas o remake de Final Fantasy VII realmente existe. Após anos de rumores e de espera, o lançamento do game é como um sonho se tornando realidade, um momento que pode ser mágico caso atenda às expectativas ou um pesadelo causado pela sensação de tempo perdido aguardando por ele.

Além do óbvio apelo à nostalgia, a Square Enix tinha a missão praticamente impossível de refazer um dos clássicos dos RPGs japoneses, tornando-o atraente não apenas para o público antigo mas também para o novo, composto de jogadores que estão acostumados com gráficos mais realistas, espetáculos visuais e ação frenética. Como se essa não fosse uma tarefa difícil o suficiente, a empresa separou o conteúdo em diversas partes, prometendo que cada uma delas contaria uma parte da extensa trama desenvolvida em diversos jogos, spin-offs e filmes desse capítulo específico da franquia, e que cada uma dessas partes funcionariam como um jogo independente.

Ao menos nesse primeiro episódio, posso dizer que funcionou.

Tanto no gameplay quanto na história, o remake consegue traduzir e atualizar o game original. Abandonando a necessidade de ser completamente fiel ao antigo, Final Fantasy VII inova ao fusionar a mecânica de combate por turno com a velocidade de jogos de ação. Mesmo não sendo algo completamente novo para a indústria de games, é uma escolha bem executada que não destoa tanto do original e dá uma identidade própria ao remake.

Alternando entre ataques, comandos e até mesmo entre personagens, o gameplay é recompensador. Conforme a dificuldade das lutas vai aumentando, torna-se cada vez mais essencial que você saia bem não só os comandos de ação e evasão, como também o uso de magias e habilidades com mais de um personagem ao mesmo tempo.

Além do personagem que você controla diretamente, é possível gastar as barras de comando dos outros membros

Ou seja: não é só apertar botões com Cloud e vê-lo destruir todos os inimigos — é necessário coordenar toda a equipe para sair vitorioso. Embora haja um limite de três personagens no time, senti como se estivesse regendo uma orquestra enquanto escrevia a partitura: prestando atenção em várias barras de progresso diferentes, analisando a possibilidade de explorar pontos fracos dos inimigos, desviando de golpes poderosos e escolhendo quem controlar para evitar que apenas um membro fosse focado.

Jogando na dificuldade normal, várias lutas se mostraram desafiadoras, mas nenhuma passou a sensação de injustiça — pelo contrário, as derrotas me motivaram a tentar novas estratégias.

Quem deseja uma experiência mais próxima do RPG por turnos pode optar pela dificuldade clássica, em que os comandos de ataque e defesa são ativados automaticamente e cabe ao jogador “apenas” usar magias, habilidades e itens — o que, sinceramente, já dá um belo de um trabalho. É possível fazer o upgrade das armas em uma opção independente dentro do menu, liberando mais atributos, resistências e espaço para equipar os orbes de materia. As materias continuam sendo muito importantes, e montar os combos certos de elemento e efeito pode determinar a vitória — ou a derrota.

Jogue de novo

A franquia Final Fantasy sempre foi muito marcada por sua trilha sonora. Além disso, o Final Fantasy VII em particular deu origem a uma das músicas mais famosas dos videogames — One Winged Angel, o tema e Sephiroth. Assim como o resto do jogo, as músicas do remake também ganharam novas versões atualizadas, e elas são incríveis. A trilha carrega boa parte da responsabilidade por deixar uma luta mais frenética, indo para uma vertente mais próxima da eletrônica nos temas de batalha, e também por pontuar os momentos mais emocionantes com as melodias que nos são tão familiares. Assim como as mecânicas de combate, as músicas conseguem evocar sentimentos de nostalgia e ao mesmo tempo dar um ar moderno e atual para o game.

One Winged Angel é o tema de Sephiroth e traz um coral inesquecível

Sabendo do amor que os fãs têm pela trilha sonora do jogo, a Square Enix decidiu transformar as músicas em itens colecionáveis. É possível coletar discos com as mais variadas versões falando com NPCs durante a aventura ou comprá-los em algumas máquinas selecionadas ao longo da aventura.

Esses colecionáveis são apenas um dos motivos para voltar ao jogo depois de terminar a campanha. Ao finalizar a história principal, uma nova dificuldade se torna acessível e uma nova opção no menu mostra o que o jogador coletou ou deixou de coletar. Para completar a lista, não é necessário fazer tudo de novo, do começo ao fim: é possível escolher o capítulo e jogá-lo independentemente.

História atualizada

Algo que esse primeiro episódio de Final Fantasy VII faz muito bem é brincar com o fato de que a história original foi lançada em 1997 e que ao menos uma parte das pessoas que vão jogá-lo já sabem o que esperar da história. Não chega a ser algo escancarado, mas alguns diálogos que mencionam mudar o destino me deram a impressão de que, ainda que os maiores e mais marcantes eventos do jogo permaneçam os mesmos, a forma com que os personagens chegam até eles pode ser diferente.

Por outro lado, justamente por contarem com o conhecimento prévio dos jogadores, há algumas aparições destacadas, mas não contextualizadas ou explicadas, o que pode frustrar quem está chegando agora.

O enredo principal não mudou: seguimos a história do mercenário Cloud Strife, que pegou um bico para ajudar a organização Avalanche a destruir um dos reatores da cidade. Tendo isso como ponto de partida, conhecemos figuras carismáticas como Jessie, Biggs e Wedge, além dos famosos Barrett e Tifa. Ao desenvolver não só os personagens mas também o mundo que os cerca, o game consegue gerar empatia com o universo apresentado, e até dá para esquecer que as mais de 40 horas do remake são apenas uma pequena fração do título original.

Outros personagens se unem à jornada depois de Midgar

Esse “recheio”, que vem na forma de missões secundárias, recompensa o jogador que as completa não apenas com conhecimento e imersão na franquia, mas também com itens que serão muito úteis nas batalhas. Mas, apesar de serem secundárias, não consegui deixar de fazê-las mesmo quando não estava muito a fim: o jogo fez com que eu me sentisse tão culpada por não ter terminado uma missão secundária que voltei em um save anterior só para completá-la antes de seguir em frente.

Um momento que não posso deixar de destacar é a nova sequência da Honey Bee Inn. Com minigame próprio, toda a missão é muito divertida e mostra que é possível colocar Cloud em um vestido com naturalidade e descontração.

Outro ponto de destaque é a amizade entre Tifa e Aerith, que têm personalidades bem exploradas e desenvolvidas no remake. As duas demonstram força, cada uma de seu jeito, e as interações entre elas certamente são alguns dos meus momentos favoritos do jogo.

Cumprindo a promessa da Square Enix de ser um jogo que faz sentido sozinho, o final é satisfatório. Obviamente há um gancho para a sequência, e ele não é sutil — uma frase dizendo que terá continuação aparece no meio da tela — mas o fim não é marcado por um cliffhanger terrível e doloroso que deixa tudo no ar. Até porque, ainda não há notícias sobre o andamento do segundo jogo, ou do número total de episódios que teremos que jogar para reviver a história do clássico.

O primeiro episódio do remake de Final Fantasy VII dá a esperança de que a decisão da Square Enix de fracionar o jogo em diversas partes não foi um erro. O cuidado e dedicação investidos no título refletem positivamente na expansão de um universo tão querido e aclamado, e fazem valer a longa espera — mas, agora que o direcionamento já está estabelecido, seria bom se o próximo episódio não demorasse uma geração de consoles inteira para sair.


Este review foi feito com uma cópia do jogo cedida pela Square Enix, e jogando no PlayStation 4.