Conversamos com Matias Liebrecht, animador brasileiro de Tim Burton e Wes Anderson

Animador já trabalhou em Frankenweenie, Kubo e as Cordas Mágicas, Boxtrolls e Ilha dos Cachorros

Marina Val Publicado por Marina Val
Conversamos com Matias Liebrecht, animador brasileiro de Tim Burton e Wes Anderson

Stop-motion é uma técnica utilizada desde os primórdios do cinema, por volta de 1890, que envolve fotografar cenas quadro a quadro para contar as mais diversas histórias. Um minuto de animação nesse estilo pode demorar várias semanas para ser filmado. Entretanto, mesmo com o avanço da tecnologia e o surgimento de novos métodos que demandam menos tempo, ela continua sendo utilizada. Um dos longas mais recentes nesse estilo é Ilha dos Cachorros, do cineasta Wes Anderson.

Na equipe de animadores há um brasileiro: Matias Liebrecht, responsável por dar vida aos protagonistas felpudos. Ele topou conversar com a gente durante o 26° Anima Mundi, em São Paulo. Matias já trabalhou em outras produções de grande orçamento e cuidou de bonecos muito complexos, como a Macaca, do filme Kubo e as Cordas Mágicas, e o Sparky, de Frankenweenie. Este último, segundo ele, foi um dos maiores desafios da carreira, mas foi justamente isso que o instigou:

Quando eu comecei no filme Frankenweenie, do Tim Burton, tinha o cachorrinho pra animar e ele é um dos bonecos mais complexos que eu já animei na minha vida. Ele é minúsculo e tem mil e uma juntas, então ele é muito difícil de animar e muito difícil para controlar e é o que eu queria na hora. […] Tudo que parece incontrolável, me dá vontade de animar.

O animador comentou também sobre as diferenças entre trabalhar com produtoras específicas de animação stop-motion, como a LAIKA (Kubo e As Cordas Mágicas; Os Boxtrolls) e diretores que transitam entre live-action e outras técnicas, como Tim Burton e Wes Anderson.

Pelo fato da LAIKA e outras produtoras serem específicas de animação, existe um cuidado bem específico com isso. Com as sutilezas de atuar vistas por dentro, por um animador. Enquanto com diretores que também atuam em outras áreas, como live-action, e com outras técnicas, às vezes não é tão específico. Eles [Burton e Anderson] têm um olhar mais geral, vendo aquilo como um filme como qualquer outro.

Matias Liebrecht Frankenweenie
Matias Liebrecht animando bonecos de Frankenweenie – Foto: Divulgação

Novos projetos

Ilha dos Cachorros foi lançado há pouco tempo, mas Matias já trabalha em um novo projeto. Ele não pôde falar muito sobre o que é, mas envolve colocar tanques de guerra para dançar Cancan em stop-motion“Uma pesquisa profunda sobre como aplicar movimentos antropomórficos a máquinas”. Por enquanto, não há data de lançamento ou mesmo um título anunciado, mas não dá pra negar que parece interessante.

O animador também deve iniciar dois outros projetos, aqui no Brasil, ainda neste ano — um deles animado e outro não.

Dicas para quem está começando

Para começar a fazer um stop-motion não é preciso um setup muito grande, com bonecos detalhados ou um equipamento de cinema. É possível fazer em casa com um uma câmera e um computador ou até mesmo diretamente no celular, usando aplicativos próprios para isso. Os personagens podem ser um objeto qualquer, uma bolinha de massinha ou até você mesmo e quadro a quadro a sua ideia vai tomar forma.

Mesmo Matias, antes de trabalhar em projetos internacionais com diretores renomados, passou por esse começo com experimentações. O animador explicou, por exemplo, uma técnica que utilizava para estudar reflexos sutis que fazemos quase involuntariamente, mas que irritava qualquer um que ousasse assistir a filmes com ele:

Eu pausava e ia vendo frame a frame no meio de uma cena de um filme não animado, série ou qualquer coisa que passava. Eu queria entender esses movimentos na atuação, pequenas sutilezas, pequenos movimentos com os olhos, ações secundárias que a gente faz.

Matias Liebrecht em Os Boxtrolls
Matias Liebrecht animando um personagem de Os Boxtrolls – Foto: Divulgação

Claro que não é preciso ir direto em detalhes tão complexos. Se você estiver apenas curioso com a área, o animador comenta que o importante é saber os seus próprios limites:

Saber o que você pode e o que não pode. Saber o que você consegue e o que não consegue. Isso é muito importante. Tem gente acha que quer trabalhar com animação a vida inteira, mas meia hora depois de pôr a mão em um boneco descobre que não quer. E o contrário também acontece. Então eu gosto de dar essa inspiração para quem acha que quer e também para quem acha que não quer, pois é muito abrangente. Eu conheço muita gente dessa área que começou de um jeito totalmente diferente do que imaginava.

E se você ficou interessado nesse universo, mas ainda precisa de um empurrãozinho para começar, no próprio Anima Mundi existem workshops gratuitos, como o de pixilation, massinha e desenho animado. Não há necessidade de inscrição prévia ou experiência e as oficinas ficam disponíveis até domingo, dia 5 de agosto, no Memorial da América Latina.