Uma ideia na cabeça ainda vale mais que obedecer ao algoritmo

Para alguns criadores, não importa o algoritmo, somente o conteúdo

Daniel John Furuno Publicado por Daniel John Furuno
Uma ideia na cabeça ainda vale mais que obedecer ao algoritmo Na foto: Chris Tex

Uma câmera na mão e uma ideia na cabeça.” Você já deve ter ouvido a frase muitas vezes, mas talvez não saiba qual a origem ou contexto. Ela foi cunhada pela turma do Cinema Novo, movimento que surgiu no país na virada das décadas de 1950 e 60. Era seu lema: uma exortação à atitude de arregaçar as mangas, cortar custos e filmar com os meios disponíveis, bem como uma celebração ao trabalho autoral, brasileiro e, sobretudo, político.

Seus integrantes eram críticos da influência dos Estados Unidos — ela estava presente na adoção do modelo comercial hollywoodiano por parte dos estúdios nacionais, como Atlântida e Vera Cruz, e na atuação dos distribuidores norte-americanos, que reinavam no mercado. Em tal cenário, os cinemanovistas sabiam que, além da câmera e da ideia, precisavam dos outros elos da cadeia.

Assim, alguns deles se juntaram para fundar a produtora Mapa e a distribuidora Difilm, responsáveis por alguns dos principais longas-metragens do Cinema Novo, como os clássicos Terra em Transe (1967) e O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro (1969), ambos dirigidos por seu expoente maior, o baiano Glauber Rocha.

Outros tiveram papel decisivo no avanço da estatal Embrafilme, fundada em 1969 e que, de certa forma, foi embrião da Ancine, a atual agência do governo federal para fomento à indústria, criada em 2001.

O impacto do movimento foi enorme: sua linguagem, experimentação, temática e estética continuam inspirando cineastas. E mais de 60 anos depois, muitas das discussões propostas por eles seguem relevantes, seja no âmbito artístico (cinema autoral versus comercial, identidade brasileira, a Sétima Arte como crítica social) ou mercadológico (imperialismo cultural, a importância das companhias independentes, o papel do Estado no incentivo ao segmento).

Isso tudo sem falar na filosofia do “faça você mesmo”, cada vez mais viável. Afinal, agora bastam um smartphone, um aplicativo de edição e acesso à internet para criar e difundir um filme. As grandes plataformas não só contribuem para que uma obra chegue a quase todos os cantos do planeta como oferecem a possibilidade de retorno financeiro a seus criadores.

Por sinal, é seguro afirmar que nunca houve tantos deles: a cada minuto, 500 horas de vídeo são transferidas para o YouTube, sejam produtos de grandes corporações, projetos indie ou filmagens/edições amadoras.

Não surpreende, portanto, que muitos dos que hoje se aventuram na produção audiovisual o façam mirando exclusivamente a distribuição online. Só que o que deveria ser uma ferramenta facilitadora pode se tornar um empecilho.

É fácil se perder em algoritmos e métricas e acabar dedicando mais tempo à busca por alcance e engajamento do que ao desenvolvimento do conteúdo propriamente dito. Prova disso é que se tornaram comuns os exemplos de YouTubers e influenciadores vítimas do burnout, o esgotamento resultante da pressão constante (e, em muitos casos, autoimposta) por atualizações, inscrições, visualizações e comentários.

Mas é possível navegar nessas águas sem ser tragado pelo vórtice digital.

Rodrigo Fernandes inicialmente tinha outros planos antes de criar, em 2004, o Jacaré Banguela, blog de humor depois expandido para um canal no YouTube. Segundo ele:

“Quando assisti Cidade de Deus [2002], pirei na ideia de fazer filmes. Eu morava em Sinop [MT], e até hoje não há curso de cinema no estado. Pesquisei sobre o diretor, Fernando Meirelles, e vi que ele vinha da publicidade. Então, fui para Cuiabá para fazer esse curso.”

O sucesso do Jacaré Banguela, no entanto, o levou a outros caminhos. Rodrigo passou a se dedicar ao trabalho na internet, atuação em peças de teatro, programas de TV e filmes, gravação de especiais de comédia stand-up e até publicação de livros.

Mesmo com a carreira bem-sucedida, ele não pensou duas vezes na hora de dar uma guinada e realizar o antigo sonho. Em 2019, arrumou as malas e se mudou para os Estados Unidos, onde ingressou no curso de cinema Harold Ramis Film School, oferecido pelo célebre The Second City, grupo baseado em Chicago e que compreende trupe teatral e escola.

“No final do curso, eles pedem um curta-metragem de até oito minutos como trabalho de conclusão. Como eu já tinha uma boa noção de produção, quis treinar formatos mais longos”, explica. O resultado é o longa-metragem Second Date, comédia romântica sobre um sujeito divorciado que topa um encontro às cegas.

Bastidores de Second Date, Rodrigo Fernandes (créditos: Thaís Souza)
Bastidores de Second Date, Rodrigo Fernandes (créditos: Thaís Souza)

Embora realizada com mais técnica e conhecimento do que um projeto 100% amador, a empreitada mantém o espírito DIY, com elenco de amigos, improvisos e soluções caseiras, especialmente em meio à pandemia. Rodrigo explica:

“Era para ter sido filmado em cinco locações diferentes, mas acabou sendo rodado no meu apartamento. Tive de reescalar vários papéis. O protagonista, por exemplo, não era eu. Só que o ator pulou fora duas semanas antes de começarmos as filmagens, então assumi seu lugar e reescrevi o roteiro, adaptando o personagem para mim.”

Com a obra pronta, Rodrigo pôde tirar algum proveito da audiência de mais de 500 mil inscritos em seu canal, lançando um trailer que obteve milhares de views. Já o filme completo foi disponibilizado (de modo pago) em seu próprio site. E sem perder tempo, já emenda o próximo projeto: ele está dirigindo seu segundo longa, intitulado Rushed Submission.

É claro que nem todo mundo conta com um público de antemão. Pelo contrário: a maioria precisa partir do zero.

Recém-saído da faculdade de cinema no início da década de 2010, o paulista Elvis DelBagno tinha um plano ambicioso para seu primeiro filme: uma história do Homem-Morcego, inspirada no longa Batman: o Retorno (1992), de Tim Burton, e no filme feito por fãs Batman: Dead End (2003), de Sandy Collora.

“Assisti aos dois e pensei que conseguiria fazer algo semelhante, com menos efeitos, orçamento baixo, mais focado na atmosfera noir, como a da graphic novel Guerra ao Crime (1999), do Alex Ross e do Paul Dini”, diz, admitindo que escolheu o herói tanto por ser fã quanto por achar que atrairia a atenção do público.

Com o roteiro tomando forma, o que seria um curta virou um longa. O tempo de produção também se estendeu: a já limitada verba, tirada do próprio bolso, foi consumida por calotes, problemas no desenvolvimento do figurino e outros percalços. Foi só em 2014, depois de quatro anos, que Um Conto de Batman: Na Psicose do Ventríloquo pôde ser finalizado.

Um Conto de Batman: Na Psicose do Ventríloquo, de Elvis DelBagno
Um Conto de Batman: Na Psicose do Ventríloquo, de Elvis DelBagno

Se a falta de experiência talvez tenha atrapalhado certos aspectos da realização, com certeza prejudicou a promoção. O trailer, compartilhado nas redes um ano antes, conseguiu gerar burburinho. Porém, com a demora no lançamento, o interesse foi diminuindo. Quando o filme enfim ficou pronto, não alcançou a repercussão desejada. Para piorar, foi recebido com frieza no circuito de festivais nacionais, aumentando a frustração de seu autor.

Outros dois longas vieram na sequência, feitos mais com o intuito de exercitar o ofício do que de emplacar. Por isso, ambos tiveram budget ainda mais modesto: O Homem da Cabeça de Laranja (2016), adaptação do conto Os Assassinos, de Ernest Hemingway, e o terror psicológico A Suíte Epifânica de Luiza (2017).

Firme em seu propósito, Elvis tem encarado tudo como aprendizado. “Acho que meu maior erro foi ter deixado de pensar grande e ficado só no laboratório [com os dois últimos trabalhos]”, avalia. No momento, ele tem quatro novos roteiros prontos e, ao mesmo tempo, investe em um estúdio próprio, a fim de reduzir gastos com locações. Quanto ao próximo projeto, faz mistério: revela apenas que voltará ao gênero em que se lançou, desta vez, com um super-herói original e brasileiro.

Ambição e persistência, por sinal, parecem ser virtudes obrigatórias nessa área. Especialmente a segunda.

Há quatro anos, Chris Tex encerrou as filmagens de seu projeto. Segundo o cineasta paulista:

“Desde então, estou na pós-produção infinita, pedindo favores e encontrando profissionais que tenham tempo e disposição para trabalhar comigo. Ainda falta muita coisa, mas nunca parei. Devagar e sempre acabou se tornando o meu lema.”

O filme em questão é Wind Princess, curta-metragem que combina live action e CGI, ambientado no mesmo universo do anime Nausicaä do Vale do Vento (1984), de Hayao Miyazaki.

Cena de Wind Princess, de Chris Tex
Cena de Wind Princess, de Chris Tex

A ideia nasceu em 2016, quando Chris estava em busca de material que lhe permitisse explorar seu amor por sci-fi, cinema de ação e cultura japonesa. Ele flertou com adaptações do mangá Akira, de Katsuhiro Otomo, e da série de games The Legend of Zelda, da Nintendo, até chegar a Nausicaä.

Além de dispor de todos os elementos que procurava, a obra o atraiu também em virtude da mensagem ambiental oportuna e do fato de ser pouco lembrada até pelos fãs do Studio Ghibli. “Uma joia rara na qual ninguém estava de olho”, define.

Após trabalhar no roteiro, ele convocou um time de amigos e colaboradores habituais, com quem foi filmar tanto em locação — as sequências ambientadas no deserto foram rodadas em Farol de Santa Maria (SC) — quanto diante do fundo verde em um estúdio em São Paulo. Parte das cenas e das artes conceituais pode ser vista no trailer, que tem gerado ótima repercussão, com impressionantes 4 milhões de visualizações.

O hype no YouTube não se converteu em grana ou oportunidades na indústria. Todavia, trouxe outro tipo de ganho. “Conheci profissionais muito talentosos. Alguns, inclusive, trabalham em filmes da Marvel. Muitos estão me ajudando a finalizar o curta”, aponta.

Toda ajuda, aliás, é bem-vinda, já que o projeto é custeado pelo próprio cineasta e não tem fins lucrativos: uma vez finalizado, será disponibilizado gratuitamente. O objetivo de Chris, afinal, é abrir portas para si, para a equipe e para o sci-fi no Brasil. Mas ele confessa que se daria por satisfeito se conseguisse “apenas” apertar a mão do mestre Miyazaki.

Em contrapartida, há aqueles com pretensões — e números — bem mais humildes.

Contabilizando os sete episódios disponíveis até agora, a websérie Foi pro Espaço tem pouco mais de mil views no total. O que está longe de surpreender ou incomodar seu idealizador, Marcelo Machado. Segundo ele:

“Não é um produto de massa, creio eu, e ainda não tive a sorte ou competência de fazer viralizar. Mesmo porque ainda não compreendo bem a lógica de conteúdo do YouTube. Esse é um universo muito novo para mim.”

Websérie Foi Para o Espaço, de Marcelo Machado
Websérie Foi Para o Espaço, de Marcelo Machado

Jornalista com passagens por redações de grandes veículos, o mineiro não tinha muita experiência em audiovisual, fora as videoaulas que grava e edita em sua ocupação atual. Mas o acesso aos meios, possibilitado pela tecnologia, o incentivou a meter a cara e realizar o desejo antigo de criar para o segmento. “É possível fazer algo com muito pouco. Mesmo que não haja recurso financeiro, dá para levar o sonho na raça mesmo”, observa.

Bota raça nisso. Marcelo faz tudo: escreve, produz, cria cenário e figurino, filma, edita. E apesar de sua evidente falta de talento dramático, atua, dando vida ao Capitão Fu, um astronauta que desiste da vida na Terra e parte em viagem intergaláctica. “Uma amiga atriz quis dar uns pitacos no início, mas deixei claro que sou canastrão assumido”, ressalta.

Isso, somado à opção consciente (e econômica) por um visual datado, inspirado em séries antigas como Buck Rogers, Flash Gordon e Perdidos no Espaço, contribui para a estética trash. Um lance “meio Ed Wood, meio Tommy Wiseau”, na descrição do autor, em referência ao dito “pior diretor de todos os tempos” e ao responsável pela pérola do humor não intencional, o filme The Room (2003).

Apesar da atitude despretensiosa, Marcelo não considera a atividade exatamente um passatempo. Ele brinca:

“Talvez até seja um hobby, mas não um qualquer. Porque tudo isso pode resultar em algo. Com o conhecimento adquirido, posso prestar serviços na área. E, de repente, alguém acaba gostando do trabalho autoral. Aí eu teria meus 15 minutos de Ed Wood.”

A turma do Cinema Novo provavelmente torceria o nariz para tudo isso: filmes de heróis, inspiração hollywoodiana, dependência de gigantes estrangeiros na distribuição. Ao mesmo tempo, poderia se identificar com a árdua tarefa de conquistar espaço para vozes dissonantes.

Em um artigo de 1967, chamado Teoria e prática do cinema latino-americano, Glauber Rocha reconhece que “o produto cultural, para existir e circular, necessita de mercado” — expandi-lo, portanto, seria não somente necessário, mas benéfico para a própria arte. “À medida que o mercado se dilata para um novo tipo de filme, o novo tipo de filme se desenvolve”, completa o cineasta.

Cada realizador retratado aqui tem sua própria abordagem, intenção e experiência. Mas todos têm ao menos duas coisas em comum: são motivados pelo impulso de realização pessoal e encaram as plataformas como veículos, não finalidade.

Desnecessário dizer que trabalhar em audiovisual online com um olho no roteiro e outro no algoritmo é uma escolha perfeitamente válida. Porém, no fim das contas, o mais importante é sempre aquilo que se cria: o conteúdo, seja crítica literária/cinematográfica, gameplay, receita culinária, paródia, esquete de humor, musical ou curta experimental.

As lições estão por toda parte. A câmera, na palma da mão. Vale a pena se concentrar na ideia.

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