“Vi o sofrimento de Joe pelos olhos dele”, diz roteirista de HQ sobre criador do Superman

Julian Voloj conversou com o NerdBunker sobre a HQ A História de Joe Shuster

Cesar Gaglioni Publicado por Cesar Gaglioni

Em 1938, a editora National Allied Publications, lançava uma revista que mudaria a cultura pop para sempre: a Action Comics #1. A revista trouxe o Superman, que se tornou o favorito das crianças da época e inaugurou o gênero dos super-heróis. Criado pelo roteirista Jerry Siegel e pelo artista Joe Shuster, o Superman imediatamente se tornou uma febre nos EUA, e logo se tornou conhecido no mundo todo.

Enquanto a National Allied Publications, que se tornaria a DC Comics, lucrava milhares e milhares de dólares com o personagem, a dupla travava disputas legais com a empresa para receber o crédito pela criação do herói e os royalties que lhes eram devidos. Para Shuster, o impacto dos processos foi ainda maior, já que Siegel, por ser o criador do conceito do Superman, acabava recebendo mais atenção da mídia e dos leitores, enquanto o ilustrador passava por dificuldades financeiras e familiares, e ficava no escanteio dessa história toda.

O roteirista Julian Voloj decidiu contar a história do ilustrador por trás do Homem de Aço e lançou, no começo do ano, a HQ A História de Joe Shuster: O Artista por Trás do Superman, que chega  às lojas brasileiras através da editora Aleph. “Eu sempre fui fascinado pela origem dos quadrinhos americanos”, contou Voloj em entrevista ao NerdBunker, “e sem Joe Shuster e o Superman, não teríamos o Batman, o Homem-Aranha, o Deadpool, nem nada”.

Julian conta que não tinha planos para contar a história da origem do Superman pelos olhos de Joe Shuster, mas que ao ler documentos escritos pelo próprio artista, decidiu que ele seria o centro do projeto. “Jerry Siegel sempre aparecia mais, por ser o roteirista”, explica, “era sempre ele que falava sobre tudo que estava acontecendo, era o porta-voz”.

Além de ter acesso a esses documentos, Julian também visitou a cidade de Cleveland, no estado de Ohio, onde Shuster nasceu e cresceu. “Gosto de ver as coisas com os meus próprios olhos”, diz Voloj, ao contar que visitou a escola onde Shuster e Siegel estudaram e o restaurante que frequentavam.

Também visitei a biblioteca pública de Cleveland, eles têm lá um acervo digital bem grande, se você for lá, pode ver o jornal estudantil que os dois escreviam, pode ver as cartas que Joe mandou para o FBI e que foram respondidas por J. Edgar Hoover, tem muito material disponível.

Para Voloj, o processo de escrever a HQ se tornou muito pessoal, principalmente ao contar os meandros legais da batalha judicial que Shuster e Siegel travaram contra a DC Comics a partir de 1946, quando a dupla tentou recuperar para si os direitos autorais do Superman, além de entrarem em um acordo com a editora para receberem parte dos lucros provenientes da HQ, sem sucesso. Nos anos que se seguiram, os dois tentaram diversos recursos. Em 1975, pouco antes do lançamento do primeiro filme do herói, Shuster e Siegel entraram em acordo com a Warner Bros., que aceitou creditar o nome de ambos em todas as histórias do Superman, além de dar a eles um salário anual de US$ 20 mil, valor que cresceu ao longo dos anos.

“Vi o sofrimento de Joe pelos olhos dele e isso mexeu comigo”, conta Julian, “ser artista é sempre algo difícil, você sempre está na luta, ainda mais em uma cidade como Nova York. E naquela época, os artistas não eram reconhecidos”, completa, explicando que acredita que a principal diferença entre a indústria de quadrinhos da época de Shuster e Siegel e a atual é que hoje em dia as equipes criativas por trás das HQs são reconhecidas. “Hoje em dia você vê filas gigantes nas Comic Con’s, as pessoas admiram esses artistas”, diz”, “com Frank Miller ou Alan Moore, por exemplo, os fãs compram os quadrinhos por serem deles, não tanto por causa do Batman ou do Monstro do Pântano, é um negócio muito grande”, conclui.

Apesar de ter entrado em um contato profundo com o Superman durante o processo de se escrever a HQ, Julian diz que não é um grande fã do herói e nem da cultura pop mainstream num geral. “Eu gostava mais quando era criança”, diz, “o Superman hoje não representa muita coisa para mim, não sou uma pessoa que precisa ver todos os filmes de super-heróis que são lançados, e nem sou um fanático pela cultura pop”, completa.

Sou muito mais interessado em graphic novels com grandes tragédias, com dramas, com questões humanas, gosto de ler e contar a história dos renegados, dos artistas renegados, é isso que me interessa mais.

Julian conta que já tem planos para mais uma biografia em quadrinhos de outro artista, e revela que está trabalhando em uma HQ sobre o grafiteiro e pintor Jean-Michel Basquiat, figura importante do neoexpressionismo, movimento artístico surgido na Alemanha durante os anos 80. “Ele teve uma vida fascinante e acabou morrendo cedo demais, vou lançar uma biografia dele no ano que vem”, diz.

A História de Joe Shuster: O Artista Por Trás do Superman já está disponível nas lojas brasileiras.