Por que o Oscar criou a categoria de Melhor Filme Popular?

Mudanças foram feitas por conta da audiência das transmissões

Cesar Gaglioni Publicado por Cesar Gaglioni
Por que o Oscar criou a categoria de Melhor Filme Popular?

Nesta semana, a Academia de Ciências e Artes Cinematográficas dos EUA anunciou algumas mudanças para a cerimônia de entrega dos Oscars. Além de diminuir a duração da transmissão (que, em 2018 durou 3h53min), a instituição quer acrescentar uma nova categoria: a de Melhor Filme Popular, para entregar os troféus a títulos como Star Wars, Os Vingadores, Logan e outros blockbusters.

Em 1929, na primeira edição da cerimônia, já existia uma divisão parecida: a Academia tinha duas categorias principais, a de Filme de Maior Destaque e a de Filme de Maior Contribuição Artística, visando entregar troféus tanto para o longa que mais de destacou e para o qual, de alguma forma, contribuiu para o avanço da linguagem cinematográfica. No ano seguinte, a separação foi abolida e apenas a indicação de Melhor Filme se manteve no evento.

Mas, por que acrescentar uma nova categoria agora, 90 anos depois?

Audiência

Nos últimos anos, a audiência das transmissões do Oscar tem caído ano após ano. Em 1997, ano em que Titanic levou 11 estatuetas, a cerimônia foi assistida por 57,3 milhões de pessoas, só nos EUA. Já em 2018, a menor audiência de todos os tempos, o prêmio conseguiu que apenas 26,5 milhões de pessoas assistissem à transmissão.

Audência Oscar
Fonte: Orange County Register

As razões para as quedas são muitas: a longa duração do prêmio é uma delas — em uma época onde a atenção das pessoas é dividida em diversas coisas ao mesmo tempo, segurar alguém por quase quatro horas de blá, blá, blá é uma tarefa quase hercúlea. O fato de que a TV perdeu o seu monopólio absoluto de principal forma de entretenimento da civilização ocidental também contribuiu para isso.

Pressão da Disney

Conforme apurou uma reportagem da Variety, a Academia foi pressionada a criar a categoria de Melhor Filme Popular por conta de uma grande pressão por parte da Disney, que é dona da ABC, canal que transmite a cerimônia nos EUA.

A Disney é, atualmente, o estúdio mais rentável de Hollywood. Em 2017, a empresa arrecadou US$ 6 bilhões em bilheterias ao redor do mundo pelo segundo ano consecutivo. Apesar dos filmes do conglomerado serem um sucesso de público, eles não tiveram um grande reconhecimento da Academia recentemente: a última indicação que eles receberam ao prêmio de Melhor Filme foi em 2010, com Toy Story 3. Em 2009, a Pixar também foi indicada ao troféu com Up – Altas Aventuras, mas, antes disso, o Mickey só apareceu na categoria principal do Oscar em 1992, com A Bela e a Fera.

As estatuetas que a Disney acumulou nos últimos anos sempre foram de categorias vistas como “menores” dentro da indústria, como Melhor Animação, Melhor Canção Original e Melhor Trilha Sonora. Com a criação da nova categoria, o estúdio pode deslanchar nos prêmios, levando troféus para franquias como os filmes da Marvel e o gigante universo de Star Wars, algo que, certamente, valorizaria ainda mais as marcas.

Blockbusters são algo menor?

O fato de, em 2018, a Academia querer criar uma categoria de Melhor Filme Popular no Oscar, indica que a instituição não vê valor artístico nos blockbusters que estão sendo produzidos atualmente. Em comunicado oficial, a organização explicou que os filmes que concorrerem na categoria de Melhor Filme Popular poderão, também, aparecer na lista dos indicados a Melhor Filme. Porém, mesmo com essa condição, é bem possível que longas como Pantera Negra e Os Incríveis 2 acabem indicados apenas a Melhor Filme Popular, já que os membros da Academia terão seus votos divididos em duas categorias e, potencialmente, preferirão não repetir suas opões em ambas, dando à cerimônia um leque maior de longas com estilos diferentes concorrendo às estatuetas.

Apesar do que parece, o Oscar tem um histórico de premiar blockbusters, mas isso normalmente acontece quando eles apresentam alguma relação com outros gêneros que já se tornaram consagrados entre os votantes: é o caso de Titanic, que traz um grande romance; O Senhor dos Anéis – O Retorno do Rei, que lembra de alguma maneira grandes épicos como Ben-Hur, Cleópatra e Coração Valente; e o próprio A Forma da Água, que homenageia os filmes de monstros produzidos entre as décadas de 1920 e 1950 — a Academia adora quando um filme celebra a própria história do Cinema.

A adição da nova categoria parece ser, acima de tudo, uma estratégia para trazer para a cerimônia um público mais jovem, que assistirá ao prêmio para torcer por seu filme favorito. Mas não deixa de causar polêmica porque reforça a ideia de que filmes populares não são “cinema de verdade”, que são dignos no máximo para serem premiados dentro de uma subdivisão — ainda que essas obras reflitam o momento sociocultural da época em que foram produzidas, sem deixar de dialogar com grandes públicos.