Crítica | Power Rangers

Apesar de falhas e ritmo inconsistente, filme consegue divertir e agradar principalmente os fãs da série original

Jefferson Sato Publicado por Jefferson Sato
Crítica | Power Rangers

Como muitos de vocês, eu era apenas uma criança no começo dos anos 90 e, como tal, cresci assistindo séries japonesas como Jaspion, Changeman, Kamen Rider e outras. Então surgiram os Power Rangers, que buscavam trazer estes programas de uma forma mais ocidental. Mesmo naquela época eu já compreendia como estes super-heróis coloridos e cheios de poses exageradas eram coisas bobas, mas ainda assim fui cativado e virei um fã.

Assisti Power Rangers por mais tempo do que gosto de admitir. Vi até mais ou menos metade de Power Rangers no Espaço, mas pulei boa parte do Zeo, porque achava horrível. Gostava bastante do Turbo, por algum motivo que não sei identificar. Mas meu preferido era, sem dúvidas, o primeiro: Mighty Morphin Power Rangers.

Então eu naturalmente fiquei intrigado quando anunciaram um filme que recontaria a primeira série, mas com uma nova cara. Mesmo sendo um antigo fã, não fiquei muito preocupado, porque o programa original era tão bobinho que era impossível estragar com um reboot. Fui assistir ao longa sem esperar nada de especial, mas acabei surpreendido com alguns elementos que deram certo, mesmo que vários outros tenham dado muito errado.

power-rangers1

É hora de morfar

O filme começa 65 milhões de anos no passado, quando os dinossauros reinavam na Terra. Mas no planeta há visitantes: os membros da geração passada de Power Rangers, que foram derrotados no meio de uma guerra. Isso faz com que o Ranger Vermelho anterior enterre as Moedas do Poder, esperando o próximo grupo de escolhidos que enfrentarão o mal que os destruiu.

O filme então pula para os dias atuais, quando conhecemos os cinco jovens que eventualmente se tornarão os super-heróis. O longa tenta abordar os personagens clássicos de uma forma mais realista. Eles não são mais os adolescentes legais e politicamente corretos que víamos na série. Eles agora são mais verossímeis, com problemas que encontramos todos os dias. Alguns são fáceis de lidar, outros nem tantos. Cada um tem suas peculiaridades e os roteiristas entenderam bem isso.

power-rangers3

Não que todos sejam bem escritos. Muitos detalhes foram deixados de fora ou modificados para a conveniência do roteiro, que é cheio de furos, e diversas vezes os personagens fazem coisas que não fazem sentido ou não condizem com quem eles são. Mas, de modo geral, o elemento realista destes adolescentes existe o bastante para que o espectador possa se identificar.

Um bom exemplo é a Trini (Becky G), uma garota de atitude que mantém todo mundo afastado e ela não gosta de se envolver com ninguém. Eventualmente ela revela seu “problema” nas entrelinhas de uma conversa, fazendo com que espectadores que já passaram por isso ou são próximos a alguém com esta mesma dificuldade assimilem imediatamente o sentimento.

power-rangers6

Meu personagem preferido foi Billy (RJ Cyler), que depois se torna o Ranger Azul. Ele é o clássico garoto inteligente e recluso que sofre bullying na escola, mas existe algo mais. Ele tem um tipo de autismo, o que naturalmente gera algumas situações inconvenientes. Mas ele é de longe o mais carismático da equipe, aquele que anima todo mundo e que une o grupo. Ele contrasta com os companheiros mostrando como ele é diferente, mas ao mesmo tempo igual a todos os outros, o que é muito legal.

power-rangers7

Inclusão social sempre existiu em Power Rangers (na época acharam que era o bastante ter personagens de várias etnias juntos), mas o novo filme tenta abordar esse tipo de coisa de uma forma mais atual e relevante. E ele realmente se esforça para isso, mesmo que nem sempre consiga.

Ai ai ai ai ai

Essa abordagem social é bastante legal no conceito, mas na execução este elemento ajuda a aumentar o maior problema do filme: o ritmo. A verdade é que ele não sabe o que ele quer ser, inclusive dando a impressão de que ele não quer ou tem vergonha de carregar o nome dos Power Ranger.

O longa tem momentos verdadeiramente engraçados e divertidos, enquanto outros tentam ser realistas e sombrios. Estas mudanças de tom vão acontecendo de forma brusca ao longo da trama, não existe uma transição, fazendo com que o ritmo fique bastante inconsistente.

Mas vamos ser honestos: Power Rangers era um programa galhofa e é difícil imaginar uma versão realista dando certo. Este filme comprova isso. Para que este nome faça sentido, precisamos ter elementos importantes da série e às vezes eles não combinam com o tom geral.

Apenas nos momentos finais o título é justificado, o que é uma pena. As pessoas no cinema chegaram a aplaudir de empolgação quando este trecho começa, mostrando a potência da cena e o quão forte é o sentimento de nostalgia. No último ato, os heróis finalmente assumem suas identidades e vão para a ação, com Zords, frases de efeito e vários elementos bobos. Nesta parte, vemos um filme disposto a não se levar tão a sério, algo que devia ter acontecido durante todo o longa.

Por exemplo, uma das melhores coisas que vemos no meio do filme é a Rita Repulsa. A atriz Elizabeth Banks fez uma performance altamente exagerada, cheia de caras e bocas. Isso normalmente seria algo ruim em um filme comum, mas neste é um dos pontos altos. É algo que esperamos de uma vilã como ela, que é má de forma caricata em tudo o que faz e fala.

power-rangers5

Outros momentos em que o filme deixa de se levar a sério e que acabam sendo algumas das melhores cenas são as diversas referências à cultura pop. Tem Homem-Aranha, Homem de Ferro, Transformers. Até mesmo Duro de Matar é citado em um trecho bastante divertido, o que pode parecer uma escolha estranha no começo, mas aí fica mais claro que o filme é mais direcionado para crianças de outra época, não exatamente para as atuais.

power-rangers4

O filme ainda deixa um gancho para uma eventual sequência e realmente acredito que se a produção se permitir abraçar mais o legado dos Power Rangers, a continuação pode dar bastante certo.

Feito para fãs

Este reboot dos Power Rangers não é de forma alguma uma obra-prima. Ninguém deve entrar no cinema esperando uma grande produção ou um filme profundo. Ele tem uma tonelada de furos no roteiro, inconsistências frequentes no ritmo e vários outros defeitos pequenos que atrapalham a construção geral.

Entretanto, o filme tem seu valor e acerta em outros pontos, conseguindo ser legitimamente agradável, especialmente quando ele abraça seu lado galhofa e infantil. Neste sentido, o longa pode ser divertido para crianças novas, mas será ainda melhor para os fãs da série original.

Power Rangers já está disponível nos cinemas.