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Chernobyl | Conheça a história real por trás da série da HBO

Desastre é uma das maiores tragédias da história recente

Era a madrugada de 26 de abril 1986. A cidade de Pripyat, no norte da Ucrânia, à época parte da União Soviética, dormia tranquilamente. Nos laboratórios da Usina Nuclear de Chernobyl, físicos, engenheiros e outros funcionários, realizavam testes de segurança no Reator 4, quando uma cadeia de eventos acabou resultando em uma explosão, o epicentro de uma das maiores tragédias das últimas décadas.

O desastre está sendo recontado na minissérie Chernobyl, produzida pela HBO, que se tornou a produção televisiva mais bem avaliada no IMDb.

01:23:45

A Usina Nuclear de Chernobyl começou a ser construída em 1972, quando a União Soviética já era uma potência no uso de energia nuclear. Foi erguida com quatro reatores do tipo RBMK, um dos mais avançados para a época, por conta de seu sistema de resfriamento à água, e era capaz de gerar cerca de 10% da energia de toda a Ucrânia.

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A Usina de Chernobyl antes da explosão (USA Today/Reprodução)

Naquela noite de 26 de abril, exatamente às 01h23min45s, o Reator 4 da Usina Nuclear de Chernobyl sofreu um pico de energia, causado por falhas humanas por parte dos operadores, bem como por falhas intrínsecas no design dos reatores RBMK.

Os sistemas de segurança do Reator 4 estavam intencionalmente desligados, por conta dos testes que estavam sendo realizados. O pico de energia causou um aumento das temperaturas do RBMK. Os operadores do local tentaram realizar procedimentos de emergência, mas não conseguiram.

Um segundo pico, que chegou a 33 mil MW de potência, aumentou ainda mais as temperaturas, resultando em uma explosão de vapor que destruiu a cuba nuclear do reator, liberando na atmosfera material radioativo equivalente a 400 bombas de Hiroshima.

As horas seguintes

Uma série de procedimentos começou a ser realizada imediatamente após a explosão: a tentativa de se apagar o incêndio e a evacuação da cidade. Todos os bombeiros de Pripyat foram convocados para o local, acreditando se tratar de um incidente simples. “Nós não sabíamos que era o reator, ninguém nos disse”, relembrou um dos envolvidos em entrevista à National Geographic. Os bombeiros foram aqueles que foram mais atingidos pela radiação.

A vítima mais emblemática que estava entre a brigada é Vasily Ignatenko, bombeiro que subiu no telhado do prédio em chamas para tentar apagar o incêndio, morrendo duas semanas depois, após uma série de hemorragias internas e externas, além de tosses que faziam-no expelir pedaços de seus próprios órgãos internos. Na série, ele é interpretado por Adam Nagaitis (The Terror). No fim das contas, 28 bombeiros morreram nas semanas seguintes à explosão, e mais de 200 desenvolveram diversos tipos de câncer e outras doenças por conta do ocorrido.

Já a evacuação da cidade começou tardiamente. No momento da explosão, os moradores de Pripyat não tinham noção da dimensão do problema, e continuaram suas vidas normalmente. Na manhã do dia 27 de abril, cerca de 36 horas após o incidente, os civis começaram a deixar o município. Alguns já sentiam os primeiros sintomas da contaminação pela radiação, incluindo dores de cabeça e um gosto metálico na boca.

Em um primeiro momento, apenas as cidades vizinhas a Pripyat foram evacuadas. Dez dias depois da explosão, toda a região, em um raio de 30 km a partir de Chernobyl, estava completamente vazia, e segue assim até os dias de hoje.

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Pripyat abandonada (The Atlantic/Reprodução)

As consequências

Pelos documentos oficiais do governo russo, 31 pessoas morreram imediatamente por conta da explosão. Cerca de 600 pessoas estavam trabalhando na Usina no momento da explosão, e dessas, 134 tiveram envenenamento radioativo.

Em 2006, a ONU e a Organização Mundial da Saúde encomendaram um estudo que estimava que 3.940 pessoas morreram indiretamente pela explosão de Chernobyl, desenvolvendo tipos de câncer a partir da exposição à radiação. A pesquisa também estimou a possibilidade de outras 4 mil pessoas, de uma amostragem de 600 mil, desenvolverem doenças graves até o fim de suas vidas. Apesar dos levantamentos, ainda há debates sobre o número preciso de vítimas do desastre, com alguns estudiosos levantando um número de até 60 mil.

Além do surgimento de diversos tipos de câncer, a exposição à radiação de Chernobyl também causou uma série de mutações genéticas em crianças que nasceram posteriormente. Gerações seguintes de animais que viviam na região também apresentaram diversos tipos de mutação.

As plantas da região conseguiram se adaptar à contaminação. Biólogos da Academia Nacional de Ciências da Ucrânia concluíram que isso ocorreu por um mecanismo interno de memória genética presente em toda a flora. “Existia muito mais radioatividade antigamente do que existe hoje. As plantas desenvolveram alguma forma de sobreviver a isso”, aponta a pesquisa.

O âmbito sociopolítico também foi afetado pela explosão de Chernobyl. À época, os veículos de comunicação da União Soviética eram controlados pelo Estado. A notícia da explosão foi divulgada apenas alguns dias depois, e só porque cientistas suecos perceberam variações no nível de radiação. Até então, o governo pretendia abafar o caso ao máximo.

O fato fez com que uma parte da população da URSS passasse a pedir mais transparência de seus governantes. A demanda fez com que o então Líder de Estado, Mikhail Gorbachev, instaurasse a política da glasnost, a abertura política, em 1988. Com isso, foram garantidas a liberdade de expressão e de imprensa e a libertação de presos políticos, uma decisão que não agradou nenhuma ala política da URSS: os liberais acreditavam que a reforma era branda demais, e os conservadores diziam que a decisão ia contra os valores fundamentais da União Soviética.

A tensão foi aumentando, e Gorbachev foi se enfraquecendo politicamente, tendo sofrido uma tentativa de Golpe de Estado em 1991. A situação era insustentável e, em dezembro do mesmo ano, a URSS foi declarada oficialmente dissolvida. Em uma carta escrita em 2006, Gorbachev aponta o desastre de Chernobyl como “a real causa do colapso da União Soviética”.

Depois de Chernobyl

O incêndio no prédio do Reator 4 conseguiu ser extinguido em algumas horas, porém, o fogo dentro do próprio RBMK continuou a queimar por 16 dias, sendo apagado somente em 10 de maio de 1986, com o uso de 5 mil toneladas de areia, combinada com chumbo, boro e argila, além de nitrogênio líquido.

Com o fim do fogo, foi iniciado um esforço coletivo para se limpar o grosso do material radioativo da área e para se construir um sarcófago que impedisse que mais radiação fosse jogada no ar. Para isso, 600 mil homens, conhecidos como os Liquidadores de Chernobyl, se voluntariaram para a tarefa. Eles podiam passar apenas 40 segundos no trabalho, e podiam fazer a tarefa apenas uma vez.

Segundo a União de Chernobyl, associação dos Liquidadores, ao todo foram 60 mil mortos e 125 mil que desenvolveram problemas de saúde posteriormente.

Depois dos esforços, o sarcófago finalmente foi construído, usando toneladas de concreto, que impediam a radiação de sair da área. À época, cientistas estimavam que a estrutura só cumpria seu papel por no máximo 30 anos.

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O Sarcófago original de Chernobyl (Wikipedia/Reprodução)

Com a proximidade da data final, em 2015 começou-se um planejamento para a construção de um novo sarcófago, que conseguiria conter a radiação pelos próximos 100 anos. O projeto está atualmente em fase de testes.

Os personagens na vida real

A minissérie Chernobyl traz alguns personagens criados especialmente para a produção, como, por exemplo, a cientista Ulana Khomyuk. Porém, os protagonistas centrais da trama foram inspirados em pessoas reais. Confira a comparação entre os atores e as figuras históricas:

  • Jared Harris interpreta Valery Legasov 1 de 5
  • Adam Nagaitis interpreta Vasily Ignatenko 2 de 5
  • David Dencik interpreta Mikhail Gorbachev 3 de 5
  • Stellan Skarsgard interpreta Boris Shcherbina 4 de 5
  • Paul Ritter interpreta Anatoly Dyatlov 5 de 5

Fidelidade histórica

Chernobyl tem sido elogiada por sua fidelidade histórica, não só na representação dos eventos, mas também em seu design de produção, que recria em detalhes a vida na URSS da época. No Twitter, o jornalista russo Slava Malamud, que cresceu na União Soviética à época do desastre, elogiou a minissérie:

“Primeiro de tudo, era inconcebível que uma série de TV ocidental investisse nesse tanto de detalhes autênticos, representando a vida soviética naquela época, sabendo que o público alvo (espectadores ocidentais) jamais apreciariam o esforço, ou até mesmo entenderiam…”

“Confiem em mim, eu tentei encontrar erros, mesmo que pequenos. The Americans, uma série com um fetiche parecido com a autenticidade, tinha vários erros, pequenos e grandes para eu me entreter… Aqui não.”

Em resposta ao jornalista, Craig Mazin, criador da série, explicou que boa parte da equipe da produção cresceu na União Soviética:

“Uau. É incrível ler isso, Slava. O crédito é do nosso designer de figurinos, Odile Dicks-Mireaux, e nosso designer de produção, Luke Hull, com seus times incansáveis, com muita gente que cresceu na Lituânia Soviética. Estou grato pelo trabalho incrível que eles fizeram”

Mais sobre a história real de Chernobyl

Caso você tenha interesse em saber mais sobre o desastre de Chernobyl, algumas obras são essenciais para isso.

O principal é Vozes de Tchernóbil, de Svetlana Alexijevich. Nele, a autora entrevista diversos moradores de Pripyat, criando uma narrativa oral para o desastre, a partir da perspectiva das pessoas comuns que estavam no local em 1986.

Meia-Noite em Chernobyl, de Adam Higginbotham, reconta a história da explosão, mas explora os fatos que acabaram sendo acobertados posteriormente pelo governo soviético, com detalhes que não tinham sido divulgados até então, como, por exemplo, a estratégia para se abafar o caso na mídia.

Por fim, o documentário Chernobyl Heart, de Maryann DeLeo, mostra o cineasta voltando à Pripyat, sua cidade natal, e explorando o que sobrou do local. O filme ganhou o Oscar de Melhor Curta Documental em 2003.


Ao todo, Chernobyl terá cinco episódios. Os capítulos são exibidos às sextas-feiras, 21h, na HBO, e estão disponíveis no HBO Go.

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