Conheça a jornada de O Senhor dos Anéis para chegar às telonas

Trilogia, cujo primeiro filme completa 20 anos em 2021, quase não saiu do papel

Camila Sousa Publicado por Camila Sousa
Conheça a jornada de O Senhor dos Anéis para chegar às telonas

Em 1995, o nome de Peter Jackson ainda não era muito conhecido em Hollywood. Na época, o cineasta era lembrado por algumas produções trash, como Fome Animal (1992), e tinha se tornado um pouco mais famoso com o lançamento de Os Espíritos (1996), protagonizado por Michael J. Fox. Mas foi exatamente nessa época que o quase desconhecido Peter Jackson começou a pensar em como seria fazer um filme de O Senhor dos Anéis.

Já fã dos livros escritos por J.R.R. Tolkien, o cineasta estava positivamente surpreso com o trabalho da Weta Workshop, com quem tinha trabalhado em Os Espíritos e no falso documentário Forgotten Silver. Ao ver os efeitos visuais que a empresa era capaz de criar, Jackson pensou que, com aquela tecnologia, seria possível traduzir para as telas uma história que era conhecida por ser “impossível de adaptar.”

Na época, o diretor tinha um contrato de exclusividade com a Miramax, produtora fundada pelos irmãos Bob e Harvey Weinstein. Hoje condenado nos EUA por diversos crimes sexuais, Harvey foi um dos nomes que dificultou o processo criativo de Jackson, o que fez a produção quase não sair do papel.

Jornada por uma trilogia de O Senhor dos Anéis

Peter Jackson nos bastidores da trilogia de O Senhor dos Anéis
Peter Jackson nos bastidores da trilogia de O Senhor dos Anéis

Em suas primeiras ideias, Peter Jackson queria fazer um primeiro filme adaptando a história de O Hobbit, com um prelúdio para os dois longas seguintes, que contariam a história de O Senhor dos Anéis. Na época, a Miramax estava receosa em financiar o projeto completo, e disse para Jackson combinar sua história em apenas dois filmes.

Com um tempo menor de tela para apresentar tantos elementos, o diretor deixou de lado a história de O Hobbit e focou somente na franquia principal. O primeiro longa adaptaria grande parte da história de A Sociedade do Anel, com alguns trechos de As Duas Torres. Já o segundo filme seria focado nas batalhas. Na época, Weinstein concordou em fazer duas produções, com orçamento de US$ 75 milhões.

O produtor começou a pensar em nomes grandes para o elenco – como Daniel Day Lewis no papel de Aragorn -, enquanto a Weta começava a desenvolver a parte técnica e Jackson trabalhava no roteiro, em um processo que levou aproximadamente 14 meses.

O trabalho minucioso da Weta para criar a Terra Média
O trabalho minucioso da Weta para criar a Terra Média

A escala do projeto era grandiosa e a Miramax começou a ficar ainda mais preocupada com os custos. Foi nessa época que Jackson foi pressionado a fazer grandes mudanças para condensar a trama, como matar um dos hobbits e praticamente anular a participação de Éowyn, que seria substituída por Arwen em momentos cruciais.

Mesmo com essas mudanças, a Miramax voltou atrás e concordou em fazer apenas um filme. A produtora chegou a contratar outros roteiristas para adaptar os livros e tirar Jackson do projeto, mas todos concordaram que seria impossível compilar uma história tão grande em apenas uma produção, e ainda agradar minimamente aos fãs.

Apesar de todos os problemas de bastidores, Jackson ainda tentou diversos acordos: desde lançar um filme e ver seu resultado nas bilheterias para viabilizar o segundo, até produzir apenas um longa – porém, com 4h de duração. Nada disso foi aceito e o cineasta tentou uma última cartada: vender o projeto para um novo estúdio, o que iria ressarcir parte do valor já gasto pela Miramax. Se não conseguisse, Jackson sairia da produção sem levar nada. Era o “tudo ou nada” para O Senhor dos Anéis se tornar realidade.

A virada com a New Line

Jackson com o protagonista de O Senhor dos Anéis, Elijah Wood
Jackson com o protagonista de O Senhor dos Anéis, Elijah Wood

A Miramax aceitou a proposta de Peter Jackson, mas deu um prazo irreal: 3 semanas para encontrar um novo estúdio. Quem trabalha em Hollywood sabe que negociar um projeto – ainda mais em andamento – não era uma tarefa rápida, por isso, nessa época, Jackson já considerava que seu sonho não seria realizado.

Ainda assim, ele gravou uma apresentação de 35 minutos com os bastidores do que já havia sido feito, incluindo storyboards e criações da Weta Workshop, com figurinos, maquiagem, cenários, etc.

Nas informações especiais do Blu-ray de O Retorno do Rei, Jackson conta que saiu por Hollywood mostrando a apresentação, que foi rejeitada por estúdios como Sony e Fox, até chegar à New Line.

Hoje parte da Warner Bros. Pictures, a New Line era comandada na época por Bob Shaye, fã dos livros de Tolkien. Segundo o produtor Mark Ordesky, quando a apresentação terminou e as luzes foram acesas, Shaye estava acenando positivamente com a cabeça e disse:

“Não são três livros? Você deveria fazer três filmes.”

Jackson concordou com a ideia na hora e recebeu sinal verde do estúdio para reescrever o roteiro, agora considerando uma trilogia. Com mais tempo de tela, o cineasta, em parceria com Fran Walsh e Philippa Boyens, conseguiu capturar grande parte da essência dos livros, com algumas mudanças aqui e ali (no original, a cena da Toca da Laracna acontece em As Duas Torres, por exemplo).

Viggo Mortensen durante as gravações de O Senhor dos Anéis na Nova Zelândia
Viggo Mortensen durante as gravações de O Senhor dos Anéis na Nova Zelândia

Ainda segundo Ordesky, a indústria cinematográfica ficou cética com a aposta na época, afirmando que a trilogia seria a “ruína da New Line”. Mesmo assim, o estúdio confiou no trabalho de Jackson e aceitou fazer algo inédito: filmar os três longas simultaneamente, de outubro de 1999 até dezembro de 2000, na Nova Zelândia.

O resultado da aposta foi uma das maiores franquias da história do cinema, que venceu 17 estatuetas do Oscar, mudou para sempre a indústria do entretenimento e conquistou o coração de diversos fãs ao redor do mundo.

Com o lançamento de O Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel completando 20 anos em 2021, é interessante olhar para trás e ver como esses filmes quase não foram feitos – e como tudo dependeu da insistência e da paixão de Jackson que continuou tentando, mesmo quando a estrada estava tortuosa à sua frente.

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