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Marvel não está sendo arruinada pela “diversidade”

Nos últimos anos, a Marvel sofreu uma queda de vendas nos quadrinhos além do esperado. Nesta semana, David Gabriel, vice-presidente sênior de vendas da Marvel, em entrevista para a ICv2.com durante o Marvel Retailer Summit, comentou o feedback que recebeu de alguns varejistas sobre como a diversidade nas histórias supostamente teria relação com o lucro menor.

Segundo Gabriel, na entrevista original:

O que nós ouvimos é que as pessoas não querem mais diversidade. Eles não querem personagens femininos por aí. Isso foi o que ouvimos, quer você queira acreditar ou não. Eu não sei se isso é verdade ou não, mas foi isso que nós vimos nas vendas. O que nós vimos nas vendas foi que qualquer personagem que era novo, nossos personagens femininos, qualquer coisa que não era um dos principais personagens da Marvel, as pessoas estavam virando a cara. Isso foi difícil para nós pois tínhamos várias ideias frescas, novas e empolgantes que estávamos tentando divulgar e nada estava realmente funcionando.

A declaração gerou inúmeras controvérsias e decidimos analisar alguns pontos relevantes e esclarecer que existem outros fatores que devem ser levados em consideração no caso da queda de vendas dos quadrinhos da Marvel.

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O Comic Book Resources, por exemplo, levantou os dados de vendas das principais publicações da empresa e viu que a realidade é um pouco diferente do cenário apontado pelos lojistas à David Gabriel.

A Poderosa Thor, quadrinho que traz Jane Foster como a Deusa do Trovão, é a segunda série continua de super-herói mais vendida da Marvel e vende mais que seu antecessor. Pantera Negra, de Ta-Nehisi Coates, foi o quadrinho mais vendido de 2016, de todas as editoras. E Invencível Homem de Ferro, que apresentou Riri Williams, uma adolescente negra, substituindo Tony Stark, ainda está entre os 10 mais vendidos da Marvel.

Em janeiro de 2017, o quadrinho mais popular entre todas as editoras, segundo o Comichron, foi U.S.Avengers #1. Estima-se que mais de 110 mil cópias foram vendidas. A equipe da história é liderada pelo brasileiro Mancha Solar, e conta também com o Míssil, a Garota Esquilo, o Hulk Vermelho, a Capitã América do Futuro (Danielle Cage, filha de Luke Cage e Jessica Jones), o robô Pod e a Patriota de Ferro (Toni Yensen, filha de Ho Yensen). Aliás, a Garota Esquilo é tão popular que vai ser a protagonista de uma nova série de TV da Marvel.

Alguns dos novos quadrinhos de heróis “diversos”, como Red Wolf, de fato não foram tão bem (nem com os fãs de longa data, nem com os novos, já que a trama recebeu críticas por sua retratação estereotipada de nativos americanos) e acabaram sendo cancelados, mas os maiores culpados pelo declínio de vendas da Marvel não são essas histórias. Elas nunca representaram uma grande parcela das vendas para de fato causarem uma queda tão significativa nos lucros da empresa.

Então, o que rolou?

Nesse momento, uma série de fatores precisa ser considerado. Um deles é o aumento do preço de edições individuais, que atualmente custam cerca de US$ 3,99 a US$ 9,99 por capítulo. Isso, sozinho, já faz com que alguns fãs considerem melhor quais quadrinhos vão continuar acompanhando e quais vão começar a colecionar.

Além disso, o io9 apontou que só nos últimos dois anos a Marvel lançou pelo menos 12 grandes eventos  e crossovers (Guerra Civil II, Guerra Secreta, Império Secreto, entre outros), e muitos deles começando antes mesmo do último terminar, o que dificulta no engajamento dos fãs, já que os grandes acontecimentos serão substituídos por outros rapidamente. Antes de Guerras Secretas, as 24 séries da coleção Totalmente Nova e Diferente Marvel vendiam em média 38 mil edições únicas, mas a média atual das edições mais recentes das mesmas 24 séries caiu para apenas 22 mil.

Entre outubro de 2015 e fevereiro desde ano, a Marvel lançou ou relançou 104 séries de heróis e, mesmo para os fãs de longa data, acompanhar esse ritmo foi um pouco complicado. Vários títulos foram cancelados ou estão prestes a encontrar o mesmo destino. Cerca de 25% deles foram cortados do catálogo antes mesmo de completarem 10 edições.

Outro ponto que precisa ser levado em consideração é que nesse processo de mudanças constantes, alguns personagens foram descaracterizados de tal forma que até um herói patriota como o Capitão América, que em sua origem socava nazistas, virou um fascista que trabalha para a Hydra.

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A concorrência também é um fator que faz diferença. Para uma pessoa que coleciona quadrinhos e não considera a editora um fator crucial para a escolha, a disputa acirrada com o arco Renascimento da DC, ou mesmo com empresas menores e independentes, como Image Comics, Dark Horse, Boom e Dynamite, faz com que o foco mude de “quadrinhos da Marvel” para “boas HQs”.

Potencial de mercado

Apontar o dedo para diversidade como principal culpada para o declínio nas vendas também desconsidera o fato de que novas pessoas, que nunca antes tiveram interesse em quadrinhos por não se identificarem com os heróis, estão consumindo essa mídia agora — o que gera mais mercado a ser explorado. No mesmo Marvel Retailer Summit em que David Gabriel deu sua declaração contra a diversidade, um varejista comentou que os novos quadrinhos trazem uma variedade diferente de clientes para a loja e que ele está feliz com isso. Ele declarou também que os lucros anda não aumentaram tanto quanto ele esperava, mas o fato de ter atraído um novo grupo de leitores não é algo que deve ser ignorado.

Criar uma base de leitores fiel não é algo que acontece da noite para o dia. Não é todo mundo que já começa um novo hobby investindo rios de dinheiro, é algo que ocorre gradualmente. Então, mesmo que no momento esses novos fãs não representem a principal fonte de lucro para as lojas de quadrinhos, em alguns anos eles podem se tornar uma parcela mais representativa da clientela.

Depois da repercussão negativa dos comentários sobre diversidade, Gabriel emitiu uma nova declaração sobre o assunto:

Discutindo com franqueza com alguns dos varejistas na reunião, nós ouvimos que alguns deles não estavam felizes com o falso abandono dos principais heróis da Marvel e, contrariando o que alguns disseram sobre alguns personagens “não estarem funcionando”, a adesão e a popularidade da maioria desses novos títulos e personagens, como Garota Esquilo, Ms. Marvel, A Poderosa Thor, Spider-Gwen, Miles Morales e Moon Girl, continuam a provar que os nossos fãs e varejistas estão empolgados com esses novos heróis. E deixe-me ser claro, nossos novos heróis não serão abandonados! Nós estamos orgulhosos e empolgados para continuar apresentando personagens únicos que refletem novas vozes e novas experiências no Universo Marvel e que causam identificação com nossos heróis icônicos.

Nós também estamos ouvindo relatos de lojas que recebem e valorizam nossos personagens e títulos e querem mais! Eles revigoraram sua própria base de clientes e suas lojas cresceram por conta disso. Então nós estamos ouvindo os dois lados da história e a única mudança futura que estamos fazendo é para garantir que nós não vamos perder o foco nos nossos principais heróis.

Além disso, em entrevista para a Fortune, Axel Alonso, editor-chefe dos quadrinhos da Marvel, falou que a tentativa de diversificar os personagens reflete o próprio mundo em que vivemos, é algo orgânico:

Nossos criadores estão ansiosos para mostrar o mundo que está lá fora.

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G. Willow Wilson, cocriadora e roteirista de Ms. Marvel, usou o Tumblr para comentar sobre o assunto e esclarecer alguns pontos relevantes para a discussão, como apontar que a Ms. Marvel não fez parte de nenhuma “iniciativa de diversidade”. Ela atribuiu a popularidade da heroína à identificação que os leitores sentiram pelo tema abordado, de como uma crença tradicional funciona no contexto de justiça social. A autora aproveitou até para deixar algumas sugestões para a Marvel:

Diversidade como uma forma de culpa não funciona. Vamos abandonar a palavra diversidade completamente e substituir por autenticidade e realismo. Este não é um mundo novo. Este é *o mundo*.

Não é por nada, mas existe uma correlação direta entre essas propriedades “diversificadas” que se saíram bem (Luke Cage, Pantera Negra, Ms. Marvel, Batgirl) e propriedades que tem uma forte sensação de pertencimento. Não é a “diversidade” que atrai essas audiências inexploradas, é a *particularidade*. Essa é uma distinção vital que ninguém parece fazer. Isso reflete de novo na questão de autenticidade e realismo. E, finalmente: em um nível prático, isso não é uma realmente história sobre “diversidade”. É uma história sobre o crescimento de quadrinhos para jovens adultos. Se você olhar dessa maneira, as coisas que vendem ou não (e os mercados que eles vendem vs. o mercado que eles não vendem) começam a ganhar um sentido totalmente diferente.

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