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Do palco aos controles: quem cumpre o que promete na E3?

A E3 (Electronic Entertainment Expo) está só a alguns dias de distância e, como de praxe, quem acompanha a indústria dos videogames volta a discutir quem tem a melhor conferência: qual empresa anunciou mais jogos, quem está com as novidades mais legais, quem “ganhou a E3” etc.

Algo que a gente sempre escuta, independente do ano, é que a Sony “anuncia mais jogos, porém demora muito pra lançá-los” e que a Microsoft anuncia jogos que são “curto prazo.” Mas, será que isso é verdade?

Levantamos e analisamos uma série de dados: comprovamos algumas coisas e tivemos algumas surpresas no meio do caminho.

Disclaimer: Optamos por não analisar e comparar as conferências da Nintendo por uma sorte de razões, entre elas o fato do Switch ser um novo console, o Wii U não ter saído junto aos outros dois aparelhos e a irregular presença da japonesa na feira.

O passado recente

Começamos pelo mais recente: as duas últimas conferências de Sony e Microsoft. É inegável que nas duas últimas E3, em 2015 e 2016, a Sony não fez conferências, mas sim shows: uma enorme orquestra no teatro, apresentando jogos que os fãs pediam há anos e, tentando ao máximo vender a ideia de que ali sonhos seriam realizados. Contudo, nenhum destes jogos tinha data de lançamento; será que esse é um padrão da Sony?

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No ano passado, a Microsoft acabou apresentando mais jogos do que a Sony em sua conferência, entretanto, a japonesa teve um número esmagador de jogos mostrados ali pela primeira vez (10 contra 4), o que gerou a impressão generalizada de que a Sony tinha apresentado mais coisas. Isso também acabou dando a impressão de que a empresa tinha um número maior de exclusivos, mas isso não foi verdade, já que a Microsoft apresentou um título a mais.

Os títulos mais comentados na conferência da Microsoft foram: State of Decay 2, Scalebound (cancelado posteriormente), Sea of Thieves, Gears of War 4 e Forza Horizon 3. Do lado da Sony tivemos: God of War, Crash Bandicoot, Days Gone, Detroit, Resident Evil VII, Death Stranding e Spiderman. Outro fato curioso é que, nas duas últimas conferências (incluindo, portanto, 2015), a Microsoft apresentou três jogos que posteriormente foram cancelados: Scalebound, ION (jogo do criador de DayZ) e Fable Legends.

No fim do dia, em 2016 foi possível notar que, de uma forma ou de outra, os títulos mais comentados acabaram sendo aqueles que não tinham sido vistos anteriormente e, talvez por isso, haja essa impressão coletiva de que um lado da balança esteja abaixo do outro.

Voltando mais um pouco

Os dados da E3 de 2015 também são ótimos para mostrar que, diferentemente do que muitos dizem, o número de jogos e exclusivos pouco importa na percepção da feira. A E3 é, basicamente, um templo onde gente do mundo inteiro vai para adorar o Deus do hype. E a E3 de 2015 foi classificada por muita gente como “histórica para a Sony”. A divisão comandada por Shuhei Yoshida apresentou, em uma tacada só, vários sonhos que os fãs da marca tinham: Final Fantasy VII Remake, Shenmue 3 e The Last Guardian.

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No mesmo ano, a Microsoft apresentou mais jogos, teve mais premieres e games de third-party (empresas que lançam jogos nas duas plataformas), mas a Sony trouxe jogos muito esperados, apresentou Shenmue — um título que nem estava garantido: uma campanha no Kickstarter ainda era necessária para a produção se confirmar — e Final Fantasy VII Remake ainda deve demorar bons anos para chegar ao console.

Não cabe julgar se os títulos apresentados por X são melhores que o de Y, mas é impossível negar que a Sony domina todas as técnicas de gerar hype para o fã dessa indústria. Enquanto as concorrentes buscam por aprovação dos compradores com extensos vídeos de gameplay, demos e datas de lançamento logo de cara, a Sony joga anúncios bombásticos atrás de anúncios bombásticos, ano após ano.

Para o fã, pouco importa se o jogo vai demorar cinco anos para ficar pronto, quando ele está assistindo a conferência e vê o Kojima andando sobre os azulejos brilhantes de Billie Jean NADA MAIS IMPORTA. Para se ter uma ideia, naquele momento (“voltando” para junho de 2016) o Kojima ainda não tinha um estúdio totalmente estabelecido e Death Stranding não estava em estágio total de produção. De qualquer jeito, naquela mesma semana, o jogo do criador de Metal Gear incentivou pessoas a comprarem o console e, junto com God of War e a orquestra, foi peça fundamental no hype colossal que aquela apresentação teve.

A Sony parece satisfeita em deixar o espectador com mais perguntas do que respostas após a conferência, gerando especulações e mais barulho sobre sua apresentação. Um estudo da Brandwatch sobre a E3 2016 revelou que os exclusivos da Sony são mais falados nas redes sociais que os exclusivos da Microsoft.

Três títulos que só poderão ser jogados no PS4 (GOW, Crash e Spiderman) aparecerem entre os dez jogos mais falados nas mídias sociais na semana da E3, enquanto Forza Horizon 3, o título mais falado da Microsoft, só aparece 17ª posição da lista. Entre os 20 jogos mais comentados, a Sony tem o dobro de títulos de sua rival: quatro contra dois.

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Deixando perguntas em aberto e usando artifícios que não são comuns a conferências à imprensa, a Sony gera uma conversa maior no “pré” e também no “pós” show. O gráfico abaixo mostra como a empresa usa essas lacunas de informação, não dando espaço para desenvolvedores falarem no palco, e artifícios como uma orquestra para gerar picos de conversa nas mídias sociais e consequentemente gerando hype.

A Microsoft, por sua vez, tem estes picos apenas em “anúncios reais” de jogos ou hardware:

Um outro gráfico da Brandwatch mostra com muita clareza como a Microsoft apresenta vários títulos com certa coesão, enquanto a Sony aposta em criar buzz para dois ou três grandes jogos. E isso, novamente, reforça a abordagem que cada uma das empresas tem para apresentar jogos na feira.

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Títulos como God of War, Spiderman, The Last Guardian e Days Gone representaram quase 50% das conversas sobre a conferência da Sony, enquanto a Microsoft teve uma divisão bastante igualitária entre seus títulos.

Olhando o todo e não a parte

Para uma pesquisa acadêmica, um usuário do NeoGAF foi um pouco além: ele assistiu todas as conferências de Sony e Microsoft de 2013 a 2016 (que representam as conferências desta geração de consoles) e conseguiu notar o tempo médio e máximo que um jogo apresentado em grande conferência demora para sair. Contabilizando todos os jogos apresentados, inclusive os indies e multiplataformas, a Sony apresenta mais jogos e os lança com um menor intervalo de tempo médio no geral.

De 2013 a 2016 a japonesa mostrou 274 títulos, destes, 207 (75,6%) foram lançados, enquanto a Microsoft — que apresentou 130 títulos, lançou 92 deles (70,8%). Por outro lado, a Sony também tem o jogo que está demorando mais tempo para ser lançado: Deep Down, que está a 50 meses em desenvolvimento! Antes dele, The Last Guardian teve um intervalo de 89 meses entre o anúncio na E3 de 2009 e o lançamento oficial no fim do ano passado.

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Descartando os jogos independentes, que ganham um espaço bem pequeno nessas apresentações, o cenário muda um pouco deixando as coisas quase empatadas no quesito tempo médio. De toda a forma, a Sony continua apresentando mais jogos e isso se deve, principalmente, ao fato da companhia ter também uma divisão oriental, área que a Microsoft praticamente ignora pelas baixas vendas no oriente.

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Analisando apenas os exclusivos first party (jogos de estúdios próprios da empresa) e second party (parcerias com estúdios independentes para lançar jogos exclusivamente), o cenário fica quase igualado ao quadro geral, o qual a Sony tem mais jogos apresentados e um intervalo médio entre o anúncio e o lançamento menor: um mês a menos que o da concorrente. De exclusivos, a Microsoft cancelou quatro títulos e tem três em produção, enquanto a Sony acumula quinze títulos sendo desenvolvidos e nenhum cancelamento:

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Na E3 nem tudo é o que parece e, por mais que não haja tanta diferença entre o tempo que os jogos de cada empresa demoraram para chegar das telas do evento aos nossos controles, vale lembrar que é a E3 um grande show de marketing: ambas as empresas estão tentando de vender aparelhos. Às vezes, nem tudo ali é “verdade”. Mas abrace o hype também! É a semana mais legal do ano pra quem curte videogames, então aproveite as conferências e divirta-se: quem ganha, no fim das contas, é o fã.

As conferências da E3 2017 vão de 10 a 13 de junho e você pode conferir a programação completa.

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