Jovem Nerd

As muitas alegorias de Mãe! e seus significados

Lançado na última semana, Mãe!, novo filme de Darren Aronofsky, tem dividido opiniões. Uma grande parte do público detestou o longa enquanto outra parcela o considerou genial. O ponto principal é: não é um filme simples. Construído em cima de metáforas e alegorias, Mãe! é uma narrativa complexa e que pode ser entendida de várias formas.

Para construir essa amplitude, Aronofsky (que também escreveu o roteiro) se aproveitou de alguns conceitos da semiótica para construir sua trama. Segundo Ferdinand de Saussure, um signo pode ser dividido em duas partes: o significante (a parte visível do símbolo) e o significado (a parte mental, que é atribuído por cada um conforme sua bagagem cultural e pessoal).

Com isso em mente, o cineasta deu a Mãe! algumas alegorias objetivas, mas colocou elementos no meio do filme que dão margem a outras interpretações.

Decidimos aqui explicar as metáforas intencionais que, uma vez expostas, podem dar ao espectador a possibilidade de enxergar as outras nuances presentes.

Contém SPOILERS!

Javier Bardem é Deus e Jennifer Lawrence é a Terra

O personagem vivido por Javier Bardem, nada mais é do que uma alegoria para Deus (o judaico-cristão, no caso). Na cena final, “Ele” diz para Jennifer Lawrence: “Eu sou o que sou” — essa frase é dita por Deus para Moisés no livro de Êxodo. Aronofsky optou por dar a Deus o ofício de artista, um criador cuja obra-prima é o universo.

O filme também explora a temática do artista obcecado que sofre constantemente para dar vida a uma obra que seja perfeita — sempre começando tudo de novo em busca de um ideal quase impossível.

Já Jennifer Lawrence é a personificação da Terra. Aqui, Aronofsky cria um sagrado feminino que, ao lado de Deus, é responsável por toda a vida. A Mãe do título também é representada pela casa onde tudo se passa e, através do cenário, o diretor explora outro grande tema do filme: o meio ambiente.

A fúria da Mãe

Aronofsky é um ambientalista declarado e quis explorar o tema em Mãe!. Durante o filme, vemos pessoas entrando na casa do casal protagonista e quebrando móveis, botando fogo em objetos.

Em certo momento, a personagem de Michelle Pfeiffer diz: “Filhos são assim, nós damos, damos, damos e nunca é o bastante”. Jennifer Lawrence responde dizendo que conhece esse sentimento. Assim, o roteiro explora a degradação da natureza causada por humanos.

O fruto proibido

Nas alegorias religiosas, Aronofsky também explorou o mito de Adão e Eva no Paraíso. Ele, representado por Ed Harris e ela vivida por Michelle Pfeiffer — que deu à personagem um toque ácido de Lilith, deusa mesopotâmica que é considerada por muitos a primeira esposa de Adão.

O fruto proibido é representado no filme através do diamante de Javier Bardem: quando o Homem e a Mulher quebram a pedra, Ele impede a entrada nos dois em seu escritório, uma representação do paraíso.

Briga de irmãos

Em dado momento, vemos os filhos do Homem e da Mulher brigando por conta do testamento do pai. Nesse momento, Aronofsky reconta o mito de Caim e Abel, os filhos de Adão e Eva.

Na Bíblia, é relatado que Caim ficou com ciúmes de Abel após este ter sido bem visto aos olhos de Deus. Enfurecido, ele levou o irmão até um campo e o matou — o primeiro homicídio da história, segundo o livro.

O pó amarelo

Em diversos momentos do filme, vemos Jennifer Lawrence dissolvendo um pó amarelo em um copo de água e tomando. Aronofsky se recusa a responder o que exatamente a substância é, mas conversando com o Jovem Nerd, ele revelou que o significado tem algo a ver com a literatura vitoriana. Charles Dickens pode ter a resposta.

O autor usou a cor amarela para representar a decadência do modernismo — comparando isso com o filme, dá para pensar que o pó amarelo, que a princípio é visto como um remédio mas que depois é jogado fora quando a moça percebe que aquilo é mais maléfico do que ela imaginava, pode ser uma alegoria para representar o progresso — algo que é benéfico para a humanidade mas que acaba destruindo a natureza.

Outras hipóteses levantam a ideia de que Aronofsky quis referenciar o conto O Papel de Parede Amarelo, de Charlotte Perkins Gilman. Na trama, uma mulher psicótica é confinada em um quarto e acaba ficando obcecada com um papel de parede amarelo.

Mateus 1:18

Jesus também aparece em Mãe!, representado pelo filho do casal. O bebê nasce, é entregue para a humanidade depois de um tempo, acaba brutalmente morto por aqueles que supostamente o veneravam e sua carne é comida pelos fiéis. A única parte da história do Messias que não é representada no filme é a Ressurreição.

O nascimento do bebê também serve como um ponto de virada para o personagem de Javier Bardem: saiu de cena o Deus punitivo e professoral do Velho Testamento e surgiu um Deus amoroso e misericordioso. Ele até chega a dizer para a esposa que a morte do bebê pode ser a chave para uma grande mudança e para a humanidade ser perdoada.


Além dos temas bíblicos, Mãe! também trata de outros temas como as relações abusivas, a opressão feminina, o narcisismo, o culto à personalidade e a fama; a descontextualização de mensagens políticas e a feminilidade. Aronofsky investiu bastante na criação de uma obra que possui diversas camadas de entendimento, então várias outras leituras da obra são possíveis.

Mãe! está em cartaz nos cinemas — confira nossa crítica.

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