Watchmen | Ponto alto até aqui, episódio se concentrou em Looking Glass

Roteiro mais uma vez foi recheado de referências à HQ e a outras obras

Daniel John Furuno Publicado por Daniel John Furuno
Watchmen | Ponto alto até aqui, episódio se concentrou em Looking Glass

Aviso: spoilers abaixo!

Em seu momento de maior conexão com a obra original até agora, Watchmen girou em torno de um dos pontos-chave no enredo da graphic novel: o suposto ataque alienígena à Terra, no qual uma criatura gigante — parecida com uma lula — surgiu no centro de Nova York, matando milhões de pessoas e traumatizando outro tanto, em decorrência de uma espécie de explosão psíquica provocada pelo monstro. Além de ter sido retratado em um flashback logo no início, o evento reverberou ao longo de todo o episódio.

O título, Little Fear of Lightning (ou “pouco medo de raio”), foi pinçado de uma passagem do romance 20 Mil Léguas Submarinas, clássico do francês Júlio Verne, publicado originalmente em 1870 — e no qual, significativamente, os personagens precisam, a certa altura, enfrentar “uma lula de dimensões colossais”. No referido trecho, o submarino Náutilus está ancorado próximo a uma ilha, quando é cercado por membros de uma tribo local. O professor Aronnax, narrador da história, observa então que aqueles nativos, tendo tido contato anterior com os europeus e suas barulhentas armas a pólvora, parecem não encarar com temor os silenciosos e avançados rifles usados pelo Capitão Nemo e sua tripulação. “Sem os estrondos do trovão, os homens teriam pouco medo do raio, embora o perigo esteja no clarão, não no barulho”, pondera.

Essa ideia de ameaça subestimada, por sinal, marcou todo o arco dramático de Looking Glass (Tim Blake Nelson), a começar pelo já mencionado flashback. Estava lá, sob a forma da iminente chegada do Juízo Final, que o jovem Wade se esforçou para anunciar aos “pecadores”, assim como da garota que o seduziu e enganou dentro da fun house. Mais tarde, foi personificada por outra figura feminina: a novata no grupo de apoio, que depois revelou ser membro da 7ª Kavalaria (curioso notar que, quando ela chegou à reunião, Wade perguntou se era “amiga de Nemo”, em nova alusão a 20 Mil Léguas Submarinas e seu mais famoso personagem). Finalmente, também se fez presente nas duas descobertas realizadas pelo policial: a de que o senador Joe Keene (James Wolk) é o líder da milícia de seguidores de Rorschach e a de que o acontecimento que teve maior impacto em sua vida foi, na realidade, uma grande farsa orquestrada por Ozymandias.

Sempre engenhoso, Damon Lindelof entregou (desta vez em parceria com Carly Wray) mais um roteiro carregado de simbolismos. A fim de desenvolver Looking Glass, o showrunner explorou o espelho como representação da verdade e do conhecimento — o personagem estava cercado por essas superfícies refletoras durante sua perda de inocência na juventude; já adulto, passou a se esconder nelas, seja como consultor em grupos de discussão, espiando as reações dos entrevistados detrás de um espelho falso, seja como policial, vestindo sua máscara brilhante. Em oposição, a música Careless Whisper, lançada pelo Wham! em 1984 e cuja letra fala sobre traição e mentira, foi usada como espécie de tema do engano. Ela pôde ser ouvida em sua versão original durante a sequência na fun house e, posteriormente, em diferentes releituras — na conversa de Wade com a ex-esposa, Cynthia (Eileen Grubba); em seu primeiro encontro com a mulher da Kavalaria; e no final, após o confronto com Keene.

Enquanto o script acertou novamente, a direção teve seu primeiro tropeço. Ao contrário de seus antecessores no posto, Steph Green não confiou na inteligência do espectador e acabou pecando por excesso de didatismo ao insistir em tomadas explicativas completamente desnecessárias — a imagem do boné forrado de Reflectatina quando alguém mencionou “os doidos que cobrem a cabeça com papel-alumínio mágico”; o flashback quando Cynthia disse que passou anos tentando convencer o ex-marido de que “não ia fugir com suas roupas e deixá-lo pelado, sozinho”; e a foto do altar quando Wade encontrou o esconderijo dos terroristas.

Tal deslize não chegou a prejudicar o excelente episódio, que enfim trouxe alguma luz ao núcleo de Adrian Veidt (Jeremy Irons). Confirmada a hipótese de que ele não está na Terra, resta saber onde exatamente fica sua prisão — afinal, apesar de seu passeio de astronauta ter sido feito ao som de Clair de Lune, de Claude Debussy, ficou claro que não se trata da Lua e sim do satélite de outro planeta (a julgar pelo visual, talvez Júpiter). E se por um lado é muito provável que seu algoz seja o Dr. Manhattan (ao menos foi o que sugeriu a fala sobre o Deus que abandonou suas criaturas), por outro, o destinatário do macabro pedido de socorro feito por Veidt permanece incerto (o próprio Doutor? Ou seria D de Dan Dreiberg?).

Entre outras questões pendentes, há a possível ligação de Lady Trieu (Hong Chau) com a Kavalaria — a caixa que Looking Glass encontrou em meio aos pés de alface na caçamba da caminhonete que trazia estampado o logotipo da empresa da vietnamita. O que o senador e seus milicianos pretendem fazer com a tecnologia de teletransporte? E por fim, o que vai acontecer com Angela (Regina King) depois de ter engolido todas as pílulas com as recordações de Will (Louis Gossett Jr.)?

Confira também nossas impressões sobre o episódio anterior e sobre a estreia.