Watchmen | Penúltimo episódio explica mistérios mas ainda deixa perguntas no ar

Relacionamento entre personagens é o foco do episódio

Daniel John Furuno Publicado por Daniel John Furuno
Watchmen | Penúltimo episódio explica mistérios mas ainda deixa perguntas no ar

[Aviso: spoilers abaixo!]

No fim das contas, é mais uma história de amor — todavia, contada de modo pouco convencional. Em seu penúltimo episódio, Watchmen se concentrou naquele que revela ser o elemento-chave da série: a relação entre Angela (Regina King) e o Dr. Manhattan (Yahya Abdul-Mateen II).

A God Walks Into Abar trocou as referências a livros, músicas e outras obras artísticas que até então vinham marcando os títulos por um simples trocadilho entre “a bar” (um bar) e o sobrenome da protagonista. Vale notar ainda que esse tipo de construção “alguém entra em um bar” costuma introduzir toda sorte de piadas, o que alude ao terceiro episódio, no qual uma anedota contada por Laurie (Jean Smart) serviu como fio condutor da narrativa.

Em termos de estrutura, a exemplo do que ocorreu na semana anterior, o roteiro assinado por Jeff Jensen e Damon Lindelof usou como molde um capítulo da graphic novel intitulado Relojoeiro, que explora a forma como o Doutor percebe o tempo para contar sua trajetória de modo não-linear, de modo a criar um contexto e sublinhar determinados aspectos do personagem. No caso do episódio, os múltiplos flashbacks serviram não apenas para apresentar diferentes momentos do casal, mas também para ressaltar seu caráter trágico.

Todos os relacionamentos não terminam em tragédia?”, perguntou o ser superpoderoso à policial, em determinado momento. De fato, os personagens estão ligados a um lugar-comum do gênero desde a Antiguidade clássica: a ideia de desafiar uma profecia. Enquanto Angela representa a força do livre arbítrio — sua determinação de tentar mudar o que está escrito é o que faz o amante perceber que está apaixonado —, o Dr. Manhattan personifica a aceitação do destino, principalmente no momento em que se submete à captura pela Sétima Kavalaria. E talvez isso seja algo pelo qual ele precisa passar, o que explicaria a recorrência das imagens do círculo, presente em seu símbolo e no dispositivo supressor de memórias desenvolvido por Adrian Veidt (Jeremy Irons), e do ovo, ambos remetendo a uma noção de ciclo.

Houve uma série de referências religiosas, sendo as mais óbvias o Doutor caminhando sobre a água e, mais tarde, criando sua própria versão do paraíso, com direito a Adão e Eva. Outras foram o pequeno Jon perdendo a inocência com uma maçã na mão e, em seguida, sua anfitriã resumindo a história narrada no livro de Gênesis: “Houve um tempo em que não existia nada, e Ele criou tudo” — uma fala devota que estabeleceu um interessante contraponto com outra similar, porém cética, entregue por Cal no quarto episódio, quando explicava às filhas sobre vida, morte e a inexistência do Céu ou Deus: “Antes de o tio Judd nascer, ele estava em lugar nenhum, então passou a existir”.

Além de desenvolver dois personagens centrais e sua relação, bem como o conjunto temático da série, A God Walks Into Abar procurou preencher algumas lacunas antes da conclusão, revelando a origem da chuva de lulas, o destino do segundo mascarado na invasão à casa de Angela durante a Noite Branca e a identidade do casal que serviu de modelo para Crookshanks (Sara Vickers), Phillip (Tom Mison) e os demais clones. Mas também deixou outras perguntas no ar.

Qual será a relação entre Veidt e Lady Trieu (Hong Chau)? Afinal, o tal “elefantinho” que contou a Ozymandias que o Dr. Manhattan estava em Europa deve ser a empresária vietnamita.

Por que Angela precisava ver o herói azulado andando sobre a água na piscina? Quem vai herdar os poderes dele? É claro que a menção à possibilidade de o Doutor “transferir componentes atômicos para algum material orgânico” não foi à toa. Onde está Looking Glass (Tim Blake Nelson)?

Por fim, é preciso tecer elogios o trabalho de Nicole Kassell, em especial, nas sequências no bar. Fazendo excelente uso dos enquadramentos e do blocking (o posicionamento dos atores e objetos em cada plano), a diretora conseguiu manter o rosto do Dr. Manhattan oculto o tempo todo, aumentando significativamente o impacto de sua primeira aparição completa, depois de assumir a forma de Cal.