Watchmen | 30 anos e a importância para o mundo dos quadrinhos

Explicamos a importância da obra de Alan Moore e Dave Gibbons para os quadrinhos e para a cultura pop

Cesar Gaglioni Publicado por Cesar Gaglioni
Watchmen | 30 anos e a importância para o mundo dos quadrinhos

O ano de 1986 foi glorioso para os quadrinhos. Tivemos Frank Miller trazendo de volta o esplendor do Homem-Morcego em Batman – O Cavaleiro das Trevas. Também nos questionamos O Que Aconteceu Ao Homem de Aço? e vimos um Superman reflexivo e intimista. E tivemos Watchmen, que completa 30 anos em 2016 (existe toda uma controvérsia em relação ao lançamento da edição #1. Alguns dizem que algumas cópias foram lançadas em junho, a DC marca setembro como o lançamento oficial),  mudou a indústria dos quadrinhos e é considerada a melhor HQ de todos os tempos por diversos veículos, como a TIME Magazine e o New York Times.

Origens

Na década de 80 as editoras já não mais limitavam tanto suas equipes criativas em relação ao que podia e ao que não podia ser mostrado nas HQs por conta do selo do Comic Book Authority. Dentre as pessoas que conseguiam ver nos quadrinhos uma forma de expressão “mais sombria” estava Alan Moore, que fora incumbido pela DC Comics de dar vida a alguns personagens esquecidos da falecida Charlton Comics.

alan moore

Moore então apresentou um esboço da trama e uma premissa tirada dos ensaios de Juvenal, filósofo do Século I: “Quem vigia os vigilantes?”. Após trabalhar mais na narrativa, o editor Dick Giordano concluiu que deveria deixar de lado os heróis da Charlton e criar personagens próprios. E assim surgiam os Watchmen e então, junto de Dave Gibbons, Moore revolucionaria a cultura pop para sempre com sua obra.

Intenção

Moore partiu da ideia de retratar o que poderia acontecer se seres super-poderosos caminhassem sobre o planeta. O que é muitas vezes desconsiderado é que a graphic novel é uma grande paródia, uma sátira ao gênero. Moore mostra que no fim, todos os super-heróis são somente humanos com habilidades extraordinárias e são tão falhos como qualquer um. O Comediante não passava de um estuprador e um homem abusivo. Rorschach só conseguia ver o mundo em preto e branco e criou uma visão completamente deturpada do que é a vida. O Dr. Manhattan virou uma divindade e com todo o seu poder passou a ver os seres humanos como meras formigas cósmicas sem importância.

watchmen coruja comediante

Moore usou a iconoclastia na tentativa de chocar e criar um ideal de um futuro mais esperançoso e acabou sendo mal-entendido por boa parte daqueles que leram suas obras. Nos últimos anos, o roteirista tem feito diversas críticas ao gênero, sempre enaltecendo que o público alvo das histórias de super-heróis são as crianças.

Impacto

Watchmen transformou a indústria dos quadrinhos e a cultura pop como um todo. É possível afirmar que a graphic novel foi quem quebrou a última barreira do Comic Book Authority e fincou a liberdade temática e estética no mainstream das HQs. O sucesso de Watchmen também mostrou que o público não se importava de ter heróis quebrados e problemáticos e que, de certa forma, conseguia se identificar com alguns deles. A revista também abriu precedentes para discussões mais abstratas e filosóficas, que não tinham sido realizadas anteriormente nos quadrinhos, tratando de existencialismo, política mundial, machismo e violência urbana.

O que significa hoje?

Muito do que vemos hoje, principalmente na DC, parte do pressuposto “realista” de Watchmen. Talvez por conta da internet e da imaterialidade das coisas, o público pede por uma mímesis fidedigna da realidade dentro de um contexto fantástico e a narrativa que visa dar ao seu consumidor um escape da realidade geralmente não é bem vista aos olhos do grande público. Por consequência, a terceiridade semiótica (a representação de um símbolo) está cada vez mais rara.

Podemos ver as premissas de Moore ecoarem nos roteiros das duas principais editoras e em suas respectivas adaptações cinematográficas. Citações, principalmente de Rorscharch, ecoam nas redes sociais em discussões sobre a violência das cidades e o Dr. Manhattan figura em diversos posts que desprezam a humanidade.

doutor manhattan watchmen

A relação de Moore com a DC é complicada e o roteirista se recusa a participar de qualquer coisa envolvendo suas criações na editora por questões de licenciamento e controle criativo. Em entrevistas, Moore diz que a empresa explora seus personagens somente com o intuito de ganhar dinheiro fácil e que não voltará a trabalhar com eles de forma alguma.

Os personagens de Watchmen voltaram ao mainstream com a inserção dos mesmos no universo regular da DC na reformulação Rebirth. Devemos saber o que o futuro reserva para estes nos próximos meses.

Watchmen pode ser facilmente encontrada em livrarias em versão encadernada. O filme de 2009 dirigido por Zack Snyder também está disponível em lojas e serviços de streaming. A adaptação cinematográfica sofreu diversas críticas por alterar alguns pontos essenciais da trama, mas foi aplaudida pela transposição visual da visão de Moore e Gibbons.

watchmen filme

Junto de Sandman, Monstro do Pântano, Batman – Ano Um, Demolidor – A Queda de Murdock e de outros produtos culturais dos anos 80, Watchmen foi essencial na consolidação de boa parte das estruturas estéticas e narrativas que temos hoje na cultura nerd. Não haverá outro Alan Moore ou outro Watchmen e o que podemos abstrair de sua narrativa é a ponderação de qual é o próximo passo a ser dado para termos uma obra que reflita tão bem o espírito de nosso tempo quanto a obra de Moore fez.