Visitamos o set de Kubo e as Cordas Mágicas

Materiais inusitados, como KY e cordas de piano são usados nas animações da LAIKA

Marina Val Publicado por Marina Val
Visitamos o set de Kubo e as Cordas Mágicas

Fomos até Hillsboro, no Oregon, a convite da Universal Pictures para visitar o estúdio da LAIKA, conhecer o set de Kubo e as Cordas Mágicas e entender um pouco mais sobre como é fazer um stop-motion.

A LAIKA existe há apenas 10 anos, mas já tem algumas animações impressionantes em seu currículo: Coraline e o Mundo Secreto, ParaNorman e Os Boxtrolls. As três produções foram indicadas ao Oscar de melhor animação em seus respectivos anos de lançamento.

Mas para alcançar essa excelência mesmo com tão pouca experiência, muito suor é necessário nos bastidores. Kubo e as Cordas Mágicas, por exemplo, levou cerca de 5 anos para ser produzido, desde a etapa de planejamento e pré-produção, até a pós-produção. Metade do tempo que a LAIKA existe oficialmente. Só de gravações, foram cerca de 90 semanas, quase dois anos.

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Rex parece um gigante no cenário de Kubo

Magia e tecnologia

Mesmo que a empresa tenha passado mais e mais a incorporar elementos de computação gráfica em suas animações, não há economia de tempo nesse processo, isso apenas expande o que pode ou não ser feito.

Uma das cenas iniciais de Kubo e As Cordas Mágicas envolve um oceano com grandes ondas que se abrem no meio para permitir a passagem de uma pequena embarcação. Em épocas anteriores, quando o estúdio ainda usava KY (sim, o Gel Lubrificante) ou mesmo impressão 3D para fazer água, algo assim seria simplesmente impossível. Misturando recursos de animação 3D com Stop Motion, foi possível fazer cenas belíssimas sem perder a magia.

Passeando em um mundo miniatura

Durante a visita à LAIKA, pudemos passear por alguns dos cenários do filme, e notar que além de um espetáculo em termos de atenção aos detalhes, alguns dos cenários são bem maiores do que alguém poderia esperar.

Cada um deles é feito de maneira modular, para que pedaços possam ser retirados e câmeras entrem no lugar. Dessa maneira, é possível fazer closes e garantir que as câmeras e os cinegrafistas não causem nenhum dano aos detalhes delicados que compõem a cena e assim não estragar a continuidade da obra.

O capricho para cada um dos sets é tão grande que cenários como um barco de folhas e gravetos que foi feito para o filme teve cada uma das suas milhares de mini-folhas coladas manualmente. Esse detalhe em particular poderia ter sido algo que um outro estúdio substituiria por uma simples textura de folhas, mas aqui há uma preocupação genuína para que tudo fique o mais real possível.

Trabalho braçal

O cuidado não acaba nos cenários. Os tecidos dos bonecos são estruturados de uma maneira que possam ser quase moldados da maneira que a cena exige. Para conseguir isso, basicamente há um trabalho de tentativa e erro até que se chegue a um resultado que fique natural na cena e que não seja impossível de se animar, ou que não quebre durante o uso. A sensação material final das roupas passa é quase como dobrar papel, mas ainda é tecido, então não ficam marcas visíveis depois que uma manga de um quimono é enrugada e depois esticada em sequência.

Existem também consultores para garantir que todos os quimonos japoneses sejam fiéis às inspirações e uma pesquisa histórica para que todos os elementos do filme sejam exatamente como se usava na época que eles estão tentando simular.

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Mãe de Kubo ao lado da Macaca

Superando limites

Esse filme trouxe dois personagens que os responsáveis por produzir os modelos apontaram como especialmente trabalhosos: Besouro e Macaca.

No caso do Besouro, o problema maior foi por conta de ser uma criatura híbrida, que combinava um esqueleto e um exoesqueleto, ambos totalmente articulados, e ainda por cima parecer natural, lembrando realmente um inseto.

O desafio da Macaca se deve ao fato de ser um animal com uma pelugem que precisa parecer macia de certa maneira, mas rígida o suficiente para ser animada. A solução nesse caso foi fazer uma espécie de engenharia reversa: começar pelo esqueleto, depois pensar nos pontos que seriam mais usados pelos animadores, então colocar um tecido que funcionaria como músculo e por fim colocar várias camadas de silicone picotado à mão para que funcionasse como pelos.

Mesmo trabalhando intensamente e com um departamento que conta com mais de 60 pessoas, a equipe levou cerda de seis a oito meses para chegar ao modelo final de personagens mais detalhados, como o besouro.

No total, foram feitos 28 corpos de Kubo, 18 macacas e 15 besouros para o filme, mas a cada modelo que era construído, o tempo para produzir era um pouco menor.

Outros desafios

A capa das irmãs, duas das vilãs do filme, também acabou sendo um desafio, pois elas precisavam ter um aspecto bem marcante, quase de asas. Para dar o efeito desejado, foi preciso usar uma estrutura de cordas de piano no interior da capa e 285 pedaços de plástico moldados como penas e costurados a mão. O capricho permitiu dar detalhes mais rígidos e mais duráveis que uma pena de verdade, mas ainda mantendo a ideia de algo natural.

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Uma das vilãs do filme

Para os personagens de Origami, não há como depender apenas de materiais frágeis. Então os bonecos são inicialmente feitos em papel, e a partir disso é feito um molde que é usado para fazer os modelos em resina, que são então cobertos com uma estrutura de tecido Tyvek (um material que parece papel, mas é mais resistente, usado em pulseiras de balada e em macacões de laboratório).

Expressões impressionantes

Unindo uma técnica extremamente antiga com um toque moderno, as animações faciais são feitas no computador e cada uma das “poses” é enviada para uma impressora 3D. Na época de Coraline, cada um dos rostos era impresso em uma resina branca e depois pintado à mão, o problema é que mesmo com um exército de pintores, havia uma limitação relacionada a cores para garantir que não haveria nenhuma variação muito grande em todos os milhares de rostos de cada personagem, pois seria difícil replicar em cada um deles.

A partir de Paranorman, o estúdio começou a trabalhar com impressão 3D a cores, então em Paranorman, Os Boxtrolls e Kubo e as Cordas Mágicas, tudo foi feito com impressão 3D colorida. O único detalhe nos rostos que ainda é feito manualmente é que em alguns casos é adicionado um pouco de brilho nos lábios de alguns personagens.

Kubo tem, no total, 48 milhões de possibilidades de expressões faciais. Mas isso não significa que ele tenha 48 milhões de rostos diferentes. Para possibilitar tantas opções, os rostos são feitos em dois módulos, separados na altura dos olhos. Assim, uma única pose de sobrancelhas pode ser combinada com alguns milhares de poses de boca e nariz e a linha divisória é apagada digitalmente depois.

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Rostos usados nos bonecos

As pálpebras também pertencem a um outro módulo (dos olhos) e são movidas pelos animadores com um bisturi para garantir precisão cirúrgica aos movimentos (quase literalmente).

Inspirações sobre o futuro

Enquanto estivemos lá, foi possível perceber que algumas equipes já estão trabalhando na próxima animação. Não foi permitido que nós observássemos de fato o que já está pronto ou quão avançada a produção está, mas serviu para atiçar a curiosidade e também para entender que o volume de filmes que a LAIKA já produziu em sua curta existência só é possível se o estúdio fizer simultaneamente várias animações, com as equipes trabalhando em etapas diferentes de cada uma delas.