Velozes & Furiosos: Hobbs & Shaw | Crítica

Carisma dos astros, talento do elenco e direção competente fazem o spin-off pegar no tranco

Daniel John Furuno Publicado por Daniel John Furuno
Velozes & Furiosos: Hobbs & Shaw | Crítica

Quase 20 anos atrás, seria mais fácil saltar de um arranha-céu a outro em um carro em alta velocidade do que prever que um filme mediano como Velozes & Furiosos (2001) daria origem a uma das franquias cinematográficas mais rentáveis de todos os tempos — somados, os oito longa-metragens lançados até 2017 faturaram cerca de US$ 5 bilhões no mundo todo. Parte do mérito é do roteirista Chris Morgan e do diretor Justin Lin, que estrearam em Desafio em Tóquio (2006) e, a partir da quarta iteração (2009), começaram a consolidar a bem-sucedida fórmula de assalto, espionagem, comédia, (algum) drama e (um bocado de) sequências de ação tão divertidas quanto absurdas.

O elenco também merece os louros. Ainda que muitos dos integrantes do time principal não se notabilizem exatamente pelo talento dramático, há que elogiar a identificação que eles conseguiram criar com seus respectivos personagens — e isso é suficiente para o que os filmes exigem. Assim, Dominic Toretto, Letty Ortiz e Brian O’Conner se tornaram os papéis mais emblemáticos nas carreiras de Vin Diesel, Michelle Rodriguez e do falecido Paul Walker. E com os resultados nas bilheterias crescendo a cada longa, a franquia passou a atrair não apenas novos nomes, mas também grandes astros já estabelecidos, casos de Kurt Russell, Helen Mirren e Charlize Theron. A consequência negativa é que, em um cast cada vez mais numeroso, alguns acabam perdendo espaço.

Nesse aspecto, o derivado Velozes & Furiosos: Hobbs & Shaw se configura como uma engenhosa solução para o subaproveitamento de Dwayne Johnson e Jason Statham, praticamente relegados a coadjuvantes de luxo na série principal — além de ser, obviamente, mais uma forma de capitalizar. Na trama, assinada por Chris Morgan e Drew Pearce, os caminhos do agente federal Luke Hobbs (Johnson) e do mercenário Deckard Shaw (Statham) voltam a se cruzar quando ambos são convocados para localizar a agente do MI6 Hattie (Vanessa Kirby), falsamente acusada de roubar um vírus mortal após sua equipe ter um fatídico encontro com Brixton (Idris Elba), um criminoso que usa tecnologia cibernética para adquirir força e reflexos sobre-humanos.

Embora se enquadre no gênero conhecido como buddy cop, o filme não segue à risca o esquema de seus pares, que geralmente apresentam dois personagens forçados a trabalhar juntos e superar os conflitos decorrentes de diferenças de cultura, como em A Hora do Rush (1998), de personalidade, como em Tango e Cash: os Vingadores (1989), ou de estado de saúde mental, como em Máquina Mortífera (1987), entre outros. No caso de Hobbs e Shaw, o que causa desavença entre eles é meramente a antipatia mútua.

O roteiro se esforça para convencer, na introdução, o quão distintos os protagonistas supostamente são. Mais tarde, defende que o maior obstáculo ao trabalho em conjunto é o fato de ambos serem machos alfa, o que contradiz o histórico dos personagens — afinal, eles já atuaram juntos anteriormente e, ainda por cima, ao lado de outro alfa, Dom Toretto. Além disso, o script insiste que eles têm estilos opostos, porém, deixa de exibir o pay-off, a recompensa: o necessário instante simbólico em que um abraça o jeito de ser do outro, provando que aprendeu com o parceiro. Ou seja, apesar de o atrito entre o agente e o mercenário ser a premissa central e render algumas passagens de certo apelo cômico, a motivação é frágil, reduzindo consideravelmente o impacto do ponto-chave do enredo: o momento em que eles, enfim, acertam as contas.

O que não significa que a dobradinha seja um fracasso. Pelo contrário: mesmo com esse tropeço dos roteiristas, os astros fazem o melhor com o que lhes é dado. O carisma de The Rock, a naturalidade com que Jason Statham vive o tipo turrão e ranzinza, recorrente em sua filmografia, e a bombástica química entre os dois protagonistas asseguram que tudo funcione, até mesmo as eventuais falas piegas, insultos frouxos e diálogos ruins.

O mesmo pode ser dito de Idris Elba, cuja presença e entrega — bem como o fato de o ator estar claramente se divertindo no papel — já bastam para impor o senso de ameaça e a gravidade que o vilão requer, ainda que ele não seja muito desenvolvido. O propagado fanatismo pode até justificar suas ações, todavia, sem o devido aprofundamento, acaba resultando em um oponente unidimensional, como, aliás, costuma acontecer na série.

Talvez o personagem mais bem trabalhado seja Hattie, que tem um arco dramático definido, transitando do drama pessoal ao conflito familiar, passando pelo surgimento de uma nova relação afetiva e, de quebra, chutando para longe do estereótipo da donzela em apuros. A escalação de Vanessa Kirby se confirma como um acerto logo nos primeiros minutos, em que ela mostra ser não só uma figura hipnótica como também uma badass nas cenas de pancadaria. Isso sem falar em seu já conhecido alcance dramático, que infelizmente não chega a ser muito requisitado.

Por sinal, a direção de David Leitch se destaca justamente na ação. Como não poderia deixar de ser, ele capricha nas corridas que desafiam as leis da Física, bem ao gosto dos fãs da franquia — a perseguição em Londres e a do terceiro ato são especialmente insanas. Sua maior contribuição, no entanto, está naquele que é um dos pontos fracos de Velozes & Furiosos: as sequências de luta, que aqui crescem e se beneficiam da experiência anterior de Leitch como coordenador de dublês, produtor de John Wick (2014) e diretor de Atômica (2017).

É claro que tudo depende de sua performance nas bilheterias. Mas Velozes e Furiosos: Hobbs & Shaw parece indicar que o futuro de Johnson e Statham tende a se distanciar da franquia principal. Exercícios de futurologia à parte, o único palpite seguro é que, ao menos desta vez, os fãs não vão sentir falta de Dom e cia.