Unsighted | Review

Metroidvania brasileiro entrega um mundo vasto em possibilidades, com combate prazeroso e muita diversão

Tayná Garcia Publicado por Tayná Garcia
Unsighted | Review

Misturando elementos de ficção científica e fantasia, Unsighted é um jogo brasileiro ao estilo metroidvania, em que a liberdade é colocada em primeiro lugar.

Com uma história que cativa por pela simplicidade, mas sem deixar de lado conceitos complexos, o título é uma experiência vasta em possibilidades, que deixa o jogador ditar as regras e criar sua própria diversão com isso.

Um universo com tempo contado

Unsighted se passa em uma cidade futurística chamada Arcadia, onde robôs ganharam consciência após a queda de um meteoro que exala uma energia misteriosa. Assim, humanos e androides passaram a coexistir… pelo menos, por um tempo.

Pouco depois, humanos decidiram reivindicar o meteoro para estudar e usar seus poderes, impedindo o acesso dos robôs à energia, o que fez com que muitos androides perdessem suas consciências, ficando agressivos uns contra os outros.

Com este cenário, o jogador controla a androide Alma que, após perder sua memória, sente que precisa fazer algo para mudar o rumo da história. Para isso, é preciso explorar a cidade em busca de cinco fragmentos, que serão usados para a criação de uma arma especial. No entanto, não há todo o tempo disponível para isso.

Como o acesso ao meteoro está bloqueado, todos os androides tem um tempo limitado e perderão a consciência se chegar a zero, tornando-se em um inimigo comum do jogo. Isso porque existe um relógio para cada robô, incluindo Alma, e o jogador sempre é notificado de quantas horas ainda tem sobrando.

A chuva é um elemento hipnotizante que transmite bem a atmosfera do game

Com gráficos pixelados e visual 2D, a atmosfera de Unsighted é sombria e melancólica, graças ao aspecto de caos e destruição de Arcadia. Andar pelos cenários é certeza de encontrar áreas abandonadas, rastros de sangue, cadáveres no chão, inimigos sanguinários e muita chuva.

De forma geral, o visual conta com pequenos detalhes e animações muito bem feitas, tornando-se uma das características mais chamativas do jogo. É possível ver a personagem carregando cada bala da arma, pegadas são formadas ao andar em poças de sangue ou outros líquidos e reflexos são gerados na água.

E o jogador explora esses cenários da forma que quiser, uma vez que a exploração é não-linear. Por isso, o mapa é constituído de áreas totalmente interligadas com vários quebra-cabeças de ambiente, passagens secretas e itens escondidos, existindo várias maneiras de avançar por elas.

Essa estrutura gera uma sensação de liberdade imensa, e moldar seu próprio caminho é algo muito satisfatório. Isso ainda é intensificado pelo sistema de escolhas de Unsighted, no qual decisões de vida ou morte devem ser feitas e riscos precisam ser corridos (ou não), como escolher um NPC para aumentar seu tempo de vida em troca de favores ou investir seu tempo em chefes secretos e resgate de cachorrinhos perdidos.

As ações do jogador determinam quem terá uma chance maior de sobreviver até o final e quais histórias serão finalizadas. Por isso, é preciso agir com cautela.

Os cenários apresentam muitas dicas e pistas do que é possível fazer em seguida, então basta procurar por sinais se estiver perdido

A movimentação é muito rápida e fluída, contando com pulo duplo, saltos na parede, esquiva e rolamento. Esses comandos básicos são cruciais para o combate, que se baseia no uso de duas armas (uma em cada mão) e mecânica de parry, um contra-ataque automático ao apertar o botão de bloqueio no tempo certo.

Cada jogador pode montar uma combinação de acordo com o próprio estilo, e há muitas armas disponíveis de curto e longo alcance, como espadas de elementos (fogo ou gelo), blasters, granadas, machados e escopetas. E existe uma sensação de satisfação em descobrir e dominar uma combinação poderosa.

Há sistemas que ajudam a complementar a build do jogador, como implementação de chips que garantem pequenas vantagens (como mais dano ou defesa), além de seringas para restaurar HP, maneiras de melhorar a arma com um ferreiro e usar craft para criar ferramentas específicas a partir de sucata. Ao avançar na história, Alma ainda recebe armas especiais, como gancho e spinner, que auxiliam tanto na exploração quanto no combate.

Com tantos itens à disposição, o jogo peca pela falta de um acesso rápido, o que prejudica a fluidez do gameplay. Acontece (e muito) de ter que usar uma arma ou ferramenta específica para a resolução de um puzzle ou até no meio do combate, e é anticlimático ter que recorrer ao menu para fazer a alteração — ainda mais quando isso acontece no meio de uma luta contra um dos chefões principais, que são as partes mais desafiadoras e difíceis de Unsighted.

Os fragmentos estão em cinco dungeons distintas, com cada uma sendo protegida por um chefe difícil e intimidador (como esse pássaro imenso!)

Unsighted conta com opção para cooperativo local, o que significa que é possível desbravar todo o jogo com um amigo, fazendo os dois controlarem versões alternativas da protagonista.

É uma ótima maneira de adicionar mais diversão e possibilidades aos desafios deste universo, uma vez que a dupla pode resolver puzzles com soluções que exigem cooperatividade. No entanto, também conta com um problema: a câmera, que acompanha apenas um jogador e finge que o outro não existe.

Esse sistema de co-op não é incomum, mas a forma como a câmera se movimenta ao ter duas Almas na mesma tela atrapalha durante a exploração e as lutas, porque basta o segundo jogador se afastar muito de seu amigo para ser automaticamente transportado para perto dele, contra sua vontade.

Lágrimas na chuva

Unsighted é um metroidvania que oferece liberdade em quase todos seus elementos, adicionando uma pressão extra com o uso de tempo para transmitir uma atmosfera de urgência, solidão e desespero — justamente o que os personagens estão sentindo no meio daquele caos.

Além de escolher a melhor maneira de enfrentar obstáculos, há diferentes dificuldades e opções de acessibilidade disponíveis, o que faz com que o título deixe o próprio jogador encontrar a forma como mais vai se divertir neste universo, sendo convidativo a todos.

A minha experiência com a versão de Nintendo Switch, no entanto, não foi livre de bugs que deram um pouco de dor de cabeça. Houve momentos em que a personagem flutuou em lugares que não devia, o jogo congelou e forçou seu fechamento e derrotar um chefão não deu continuidade à história, forçando a derrotá-lo novamente. No entanto, o estúdio confirmou que está ciente dos problemas e que patches de correção serão lançados para o game logo no lançamento.

Alma recupera sua memória aos poucos durante a trama, ao mesmo tempo em que o jogador vai descobrindo mais sobre os mistérios deste universo

Mergulhar pelo universo de Unsighted é algo único, desafiador e emocionante, tanto pela jogabilidade prazerosa e atmosfera imersiva, quanto pela forma como a história é construída em cima de temas não tão distantes da nossa realidade.

A jornada de Alma aborda ganância e esperança, mostrando que, até em situações em que estamos perdidos e sem saber quem somos, o que importa é o amor que sentimos. É um sentimento poderoso que oferece coragem e esperança, mesmo em tempos em que isso parece difícil. E sinto que todos nós precisamos nos lembrar disso às vezes.


Unsighted será lançado para PlayStation 4, Xbox One, Nintendo Switch e PC no dia 30 de setembro. Este review foi feito com uma cópia cedida pelo Studio Pixel Punk.

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