Thor: Ragnarok | Crítica

Filme retoma espírito leve e aventuresco das HQs do século passado

Cesar Gaglioni Publicado por Cesar Gaglioni
Thor: Ragnarok | Crítica

Entre os anos 30 e os anos 60, as HQs de super-herói eram uma diversão rápida e leve: aventuras fechadas, na maioria das vezes infantis, que eram feitas para serem lidas em uma única sentada e serem esquecidas pouco tempo depois. Isso mudou nos 80 com O Cavaleiro das Trevas e A Queda de Murdock, obras que trouxeram uma profundidade maior e uma sisudez aos personagens da DC e da Marvel. Desde então, a maior parte dos quadrinhos de linha usam essa atmosfera mais séria em suas histórias, tentando provocar algum tipo de reflexão no leitor enquanto gera buzz na internet.

Esse fator certamente se refletiu em algumas adaptações cinematográficas, incluindo os dois primeiros filmes do Thor, que tentaram se levar a sério demais e no final das contas entraram para a lista de “piores filmes da Marvel”. A boa notícia é que Thor: Ragnarok entende a essência do personagem e entrega um longa divertidíssimo que evoca o senso de aventura que sempre povoou as HQs da Casa das Ideias.

Dirigido por Taika Watiti (O Que Fazemos nas Sombras), o filme traz o Deus do Trovão em uma jornada para evitar o Ragnarok, o Apocalipse da mitologia nórdica que destruirá Asgard de uma vez por todas. Apesar dessa ser a trama principal, o roteiro de Eric Pearson (Agent Carter) cria no público empatia pelos personagens e não se preocupa tanto em fazer algo grandiloquente e épico. É claro que as cenas de ação estão lá, afinal, a gente também quer ver uma porradaria aqui e ali. Mas elas acabam ficando em segundo plano diante do brilho de Thor, Loki, Valquíria, Hulk/Bruce Banner e Korg.

Thor: Ragnarok entende a essência do personagem e entrega um longa divertidíssimo que evoca o senso de aventura que sempre povoou as HQs da Casa das Ideias.

Seguindo a linha de comédia estabelecida em Guardiões da Galáxia, Thor: Ragnarok não se leva a sério. Poucas são as cenas em que o longa não investe uma piada ou em um trocadilho. É algo que num primeiro momento parece forçado e repetitivo, mas que vai se tornando cada vez mais natural durante a projeção e nos faz pensar “por que o Thor não foi feito desse jeito desde o primeiro filme?”.

Também bebendo na fonte das aventuras da equipe galáctica, Ragnarok traz músicas pop em sua trilha sonora, encaixando magistralmente “Immigrant Song”, do Led Zeppelin em duas cenas e “In the Face of Evil”, do grupo de synthwave Magic Sword.

Visualmente, Watiti homenageou o “Rei” Jack Kirby. O diretor, junto com a equipe do design de produção, usou e abusou de linhas retas, símbolos geométricos e cores hipersaturadas. O cineasta trouxe até mesmo a famosa técnica do Kirby Krackle, na qual o desenhista colocava pequenos pontos pretos na imagem para representar raios de energia cósmica.

Comparação da representação da energia cósmica no filme e em um desenho feito por John Buscema usando a técnica de Kirby

O elenco entrega um excelente trabalho. Cate Blanchett constrói uma Hela ameaçadora e imprevisível e com várias camadas diferentes de motivação. Tom Hiddleston entrega aqui um Loki mais ambíguo e cinzento, afastando o personagem da imagem de grande vilão do Universo Marvel que esteve presente em toda a primeira fase de filmes do estúdio, mas também sem transformá-lo em herói redimido. Mark Ruffalo nos dá um Hulk que lembra um pré-adolescente, estrelando cenas hilárias da aventura. Mas o destaque mesmo fica nas mãos de Jeff Goldblum que faz do Grão-Mestre uma mistura galáctica de Chiquinho Scarpa e Amaury Jr., pesando bastante na excentricidade. Outro que brilha aqui é o próprio Watiti, que dubla Korg e transforma o monstrengo de pedra em uma criatura doce e que quebra as expectativas do público sempre que abre a boca. A liberdade que o cineasta deu aos atores gera diversos momentos de improviso que deixam tudo mais espontâneo, autêntico e engraçado — como em um momento em que a Valquíria encosta a mão no rosto do Grão-Mestre e esse tem uma reação completamente inesperada e risível.

Críticos e fãs do mundo todo sempre estão em busca do “melhor filme da Marvel”. Thor: Ragnarok está longe desse título, mas certamente se consagra como um dos filmes mais engraçados e divertidos do gênero, retomando aquele papel descontraído das histórias em quadrinhos despretensiosas, leves, que eram regra até a metade do século passado.