The Umbrella Academy – Temporada 1 | Crítica

Seria ótimo se a esquisitice das HQs se refletisse nas telinhas de alguma maneira, mas não é isso que acontece

Marina Val Publicado por Marina Val
The Umbrella Academy - Temporada 1 | Crítica

The Umbrella Academy, série da Netflix baseada nos quadrinhos de Gerard Way e Gabriel Bá, tem medo de abraçar de verdade o material que a inspirou. Ela deixa de lado as bizarrices para trilhar um caminho seguro, muitas vezes insosso, e um ritmo que oscila a todo momento, com alguns episódios no qual nada acontece e outros que tentam passar informação demais em pouco tempo.

A HQ se passa em um mundo um pouco diferente do nosso, no qual alienígenas participam de combates estilo luta livre, chimpanzés são parte da força de trabalho e coincidências estranhas fazem com que 43 mulheres que não estavam grávidas dêem à luz subitamente.

A série pega alguns detalhes desse universo, que é tão peculiar e esquisito de um jeito revigorante, e o torna mais normal e palatável para o público. Na versão da Netflix, a Torre Eiffel não tem vida própria, o único símio falante é o mordomo da família Hargreeves e cada um dos elementos do quadrinho que possam ser considerados estranhos são apresentados como grandes revelações.

Com alterações como essas, a história da família disfuncional que vai salvar o mundo perde um pouco de seu charme, personalidade e, mais grave do que isso: a sua urgência. A grande questão é que a vida na Terra vai acabar e só a Umbrella Academy pode impedir o fim. Entretanto, a série insiste em não tocar nesse assunto por longas horas e perder tempo com bobagens mundanas como uma suposta grande revelação sobre uma cirurgia experimental, um momento que parece ter saído da Dança dos Famosos ou a vigésima visita de dois assassinos de aluguel a uma loja de donuts.

A grande quantidade de personagens também não ajuda nessa questão, por não conseguir desenvolver propriamente nenhum deles. Alguns deles até foram levemente modificados para a série, mas caem apenas na caixinha de estereótipos como o grandalhão muito forte, mas com bom coração (Número 1/Luther) e latino esquentadinho (Número 2/Diego).

A academia conta também com a Número 3/Allison, uma atriz renomada que é capaz de manipular a realidade com suas palavras, o Número 4/Klaus, que se comunica com os mortos e usa drogas para tentar anular esse poder, e o Número 5, que pode viajar no tempo, mas está preso no corpo de um adolescente.

Por fim, temos também aqueles que não são tão úteis no plano de impedir o fim do mundo: Número 6/Ben, um jovem que morreu em circunstâncias misteriosas, e a Número 7/Vanya, a única da família que não tem poderes. Essa última também conseguiu o desprezo dos irmãos adotivos ao escrever um livro contando os segredos da Umbrella Academy.

A série da Netflix tenta expandir o universo de cada um deles, mas, na maioria das vezes, cai em clichês desinteressantes e diálogos previsíveis que só repetem fatos que já haviam sido estabelecidos previamente e fazem com que os 10 episódios de quase uma hora se arrastem por uma eternidade.

O capítulo 6 é um dos piores nesse sentido, já que coloca todo um novo universo diante dos olhos de Klaus e tudo que ele tira disso é uma perda pessoal e um desinteresse ainda maior no fato de que o mundo está acabando. A jornada pessoal não faz com que ele se conecte com a urgência do que está para acontecer, só cria um interesse amoroso que não acrescenta absolutamente nada ao personagem.

Outro trecho que também é mal trabalhado é relacionado ao Sir Reginald Hargreeves, o bilionário que adota as crianças especiais. O passado dele é citado brevemente na terceira página do primeiro capítulo da HQ, porém é mostrado como uma enorme reviravolta no episódio final da série. Isso de maneira alguma deixa o mistério mais instigante e poderia ter sido simplesmente deixado de fora ou tratado de outra maneira, em outras circunstâncias.

O último capítulo de uma temporada deveria ser o ápice de tudo que foi mostrado antes, a grande conclusão que entrega um ponto final ou que cria um cliffhanger para o que está por vir. Esse definitivamente não é o momento de perder tempo contando a origem de um personagem. É um desses casos em que os showrunners tentam explicar o que não precisa ser explicado e tratam como excepcional algo que é citado apenas de passagem no material original, pois não influencia no desfecho.

Apesar de tudo isso, The Umbrella Academy tem alguns pontos que acertaram em cheio. A começar pela escolha do elenco, que conta com Ellen Page como a atormentada número 7, Kate Walsh como uma mulher por trás de uma organização misteriosa e o jovem Aidan Gallagher como Número 5, que realmente passa o peso de alguém mais velho preso no corpo de um adolescente e rouba algumas cenas apesar da pouca idade.

A produção, a fotografia e a trilha sonora também merecem destaque. O clima sombrio que foi herdado dos quadrinhos é interrompido de maneira divertida por músicas como “Don’t Stop me Now”, do Queen. Esses elementos deixam alguns episódios um pouco mais interessantes e dinâmicos, mas não faz com que a série seja única.

Seria ótimo se toda aquela esquisitice das HQs se refletisse nas telinhas de alguma maneira. Entretanto, diferente dos rumores criados pela Número 3, esse desejo não vira realidade e The Umbrella Academy se materializou no serviço de streaming sem nenhum superpoder para se diferenciar das outras tantas séries que se passam em universos fantasiosos. A sensação é que estamos vendo novamente os erros de algumas outras produção da Netflix com base em quadrinhos, que se prolongam por episódios demais e que falham em entender o que torna as HQs tão especiais.