The Medium | Review

Prepare-se para encarar cenários horripilantes no novo jogo da Bloober Team

Marina Val Publicado por Marina Val
The Medium | Review

The Medium é um jogo de terror em terceira pessoa desenvolvido pela Bloober Team, responsável também por Layers of Fear, Observer e Blair Witch, e, se você conhece algum destes jogos, já sabe que pode esperar por uma sessão de gameplay aterrorizante.

Como o próprio nome indica, a protagonista do game é uma médium chamada Marianne, uma jovem com o poder de enxergar — e interagir — com o mundo dos mortos. Para descobrir segredos sobre seu passado e sobre seus “poderes”, ela embarca em uma jornada que a leva até um resort abandonado, onde descobre segredos perturbadores de um lugar repleto de lendas urbanas.

Resort abandonado de The Medium
Resort abandonado de The Medium

Tudo começa com uma garota morta

A premissa de controlar uma personagem que tem alguma conexão com o mundo espiritual não é exatamente uma ideia nova. Vários outros títulos que vieram antes também exploraram essa ideia, como Beyond: Two Souls, The Blackwell Legacy ou até mesmo Grim Fandango.

O diferencial de The Medium é que quando Marianne encontra uma alma a ser ajudada, a realidade se distorce. Em alguns momentos, ela fica presente em dois planos, o físico e o espiritual, e a tela se divide para retratar isso. É preciso prestar atenção simultaneamente em elementos dos dois mundos ou alternar entre eles para encontrar as respostas necessárias e avançar.

Plano físico e plano espiritual dividindo a tela de The Medium
Plano físico e plano espiritual dividindo a tela de The Medium

Essa duplicidade é algo constante na vida de Marianne e ela logo explica que, por muito tempo, acreditou que todas as pessoas viam a realidade exatamente da mesma maneira e só depois entendeu que essa característica era única dela.

A tela dividida é realmente diferente e proporciona um gameplay bem intrigante, já que tudo o que você faz de um lado tem consequências no outro também. Além disso, a ambientação do plano espiritual, inspirada pelas obras do pintor polonês Zdzisław Beksiński, acabam sempre puxando um pouco a atenção para esse lado da tela por colocar elementos inesperados em locais onde você não imagina.

Com a enorme responsabilidade de ser o primeiro jogo feito especialmente para o Xbox Series X (já que Halo Infinite foi adiado), a Bloober Team soube explorar os visuais macabros e cenários impressionantes para demonstrar o potencial gráfico do console.

Cenários pavorosos e maravilhosos

The Medium não apela para os sustos fáceis e tem apenas um ou dois momentos com jump scares, que são totalmente justificados pelos acontecimentos da história. Na maior parte do tempo, ele se vale de uma ambientação tenebrosa, e usa cores e elementos que remetem ao espírito que a protagonista está tentando entender melhor naquele momento.

Tons verdes e tentáculos dominam objetos e se espalham pelas memórias de uma das pessoas que tentava esconder seu passado terrível, e milhares de arquivos e pilhas de papéis estão por toda parte no cenário de outro personagem que, quando vivo, era obcecado pelo trabalho.

Especialmente no Xbox Series X, o visual é incrível, com reflexos feitos via ray tracing — percebidos principalmente em sombras e espelhos — e detalhes grotescos que chamam a atenção, especialmente em alguns momentos no plano espiritual que mostram os detalhes orgânicos de ossos e pele cobrindo objetos, portas e escadas. É incômodo e assustador, mas ao mesmo tempo é impossível não ficar impressionado.

Paredes de carne em The Medium
Paredes de carne em The Medium — são tão nojentas quanto parecem

Estas referências visuais não são colocadas de maneira gratuita e se alinham com os temas do jogo, que são extremamente pesados. A história aborda desde nazismo, violência física e emocional, até abuso sexual, mas em nenhum momento isso parece leviano ou apelativo. Tudo sempre é retratado de maneira madura e sensível que deixa claro o que aconteceu, sem mostrar explicitamente.

The Medium faz um trabalho excelente em trazer contexto para traumas de modo que você não chega necessariamente a sentir empatia pelas almas e monstros presos no mundo espiritual, mas consegue entender de onde surgiram tantos sentimentos confusos e perversos.

A trama enfatiza bastante o peso desses acontecimentos na vida dos que foram afetados por eles, direta ou indiretamente. Em alguns momentos, é até difícil continuar indo em frente sem sentir o estômago embrulhado pela dor imposta àquelas pessoas. São poucos os personagens realmente importantes, então mergulhar em algumas dessas histórias deixa a ambientação muito mais rica e o clima muito mais pesado.

Contribuindo para que tudo fique ainda mais tenebroso, a trilha sonora não apenas complementa as cenas como também conta uma história. As músicas são de Akira Yamaoka, mais conhecido por suas músicas em Silent Hill, que faz um trabalho espetacular ao lado de Arkadiusz Reikowski em The Medium.

Fuja do Maw

Enquanto a história em si é pesada e difícil, o gameplay é bastante leniente e acessível. Não há opções de dificuldade e alguns desafios que exigem precisão permitem até uma leve margem de erro, dentro de um limite razoável para não parecer que um determinado monstro parou para o cafezinho durante uma perseguição.

The Medium conta com sequências de perseguição e também de furtividade

A câmera em terceira pessoa é fixa, bem como um Resident Evil clássico, mas a protagonista não tem nenhuma arma ou forma de combate, já que o jogo é mais focado na solução de quebra-cabeças do que na ação. Marianne encontra algumas criaturas hostis pelo caminho, especialmente o Maw (dublado pelo ator Troy Baker), e o único jeito de evitar o pior é correr e se esconder, não há troca de tiros. No máximo, algum elemento do cenário é usado para atrapalhar a investida do inimigo ou uma explosão de energia pode atordoar temporariamente um monstro, dando a chance que a personagem precisa para escapar.

Essa energia que Marianne tem é bastante limitada e indicada de maneira não intrusiva com um brilho branco no braço esquerdo. É um recurso que já vimos em outros jogos, como Dead Space, e que é excelente para dispensar a necessidade de uma HUD.

Além da mecânica de tela dividida, outras são apresentadas ao longo da trama, como uma que envolve sair do corpo para explorar apenas o plano espiritual, ou outra que usa a energia de certos objetos para ter visões do passado. Todas elas se encaixam perfeitamente no tema e são muito bem executadas dentro das regras desse mundo estabelecidas pelo jogo.

Outra coisa que ajuda a deixar o clima ainda mais apavorante é que, por mais que os encontros com o Maw ocorram em pontos bem específicos, você não sabe bem quando eles vão acontecer. Por vezes, ele dá sinais de que está por perto, seja com o barulho de passos ou ameaças verbais, só para dar aquela sensação horripilante e lembrar que está em seu encalço. Troy Baker está totalmente irreconhecível no papel e é muito assustador.

Segredos perturbadores

The Medium não é um jogo revolucionário, mas não é isso que ele se propõe a ser em nenhum momento. Ele realmente brilha em termos da execução da trama e dos cenários. Mesmo os leves bugs que apareceram na versão pré-lançamento são bem pequenos e não atrapalharam em nada o gameplay. Pelas declarações recentes do estúdio, é muito provável que eles sejam corrigidos em breve.

Marianne fugindo de um perigo em The Medium
Marianne fugindo de um perigo em The Medium

A história é intrigante e você vai querer encontrar cada uma das cartas ou cartões postais escondidos pelo cenário, para entender melhor o contexto dos acontecimentos terríveis do resort abandonado e também sobre a própria Marianne. Tudo começa com uma garota morta, mas, em um jogo no qual você pode transitar entre plano físico e espiritual, nada se encerra com a morte.


The Medium será lançado para Xbox Series e PC em 28 de janeiro de 2021 e está disponível no Xbox Game Pass. Este review foi feito com uma cópia de Xbox Series X cedida pela Microsoft.